gonçalves cordeiro

JUIZ BENITO CAPARELLI: Boa Sorte, Raul Jugmann, mas não se esqueça “que a miséria gera miséria em projeção geométrica.”

           Boa Sorte Raul

POR BENITO CAPARELLI

 

Boa Sorte, Raul Jugmann, mas não se esqueça “que a miséria gera miséria em projeção geométrica.” (Caio Prado Jr, in A Questão Agrária No Brasil/Formação do Brasil Contemporâneo” – Cia. Das Letras – 1ª Edição (1966) e (5ª Impressão), respectivamente).

Confesso, sinceramente, que pretendia dar título a este artigo, parafraseando o bordão do locutor esportivo da TV-Bandeirantes, Téo José, ao se referir a uma infeliz jogada de futebol: “Não é assim…”

Todavia, considero que a iniciativa de tentar acabar com a atual violência, que ocorre e mutila a cidade do Rio de Janeiro, que a todos assusta e muito nos preocupa, deve-se fazer a manus militaris e por declarada beligerância.

O inesquecível sociólogo-historiador, Darcy Ribeiro, em uma breve passagem de sua obra “O Povo Brasileiro – A Formação e o Sentido de Brasil”, Global Editora, 3ª Edição/1955, afirmou que, logo após a Abolição da Escravatura, catalisada e fomentada, também, pelas alterações mecânicas, recém atualizadas, com o advento da automação no trato das atividades rurícolas, assim, igualmente, consagradas pela utilização de mão de obra especializada, originadas pela importação de imigrações externas de italianos, alemães, holandeses, japoneses, sírios, russos e mais um sem número de milhares de trabalhadores especializados em serviços rurais, especialmente de europeus e açorianos, as populações negra e indígena, escravizadas e estigmatizadas pelos horrores que padeceram por quase quatro séculos, foram abandonadas ao léu, ao Deus dará, sem qualquer assistência social do país, principalmente no que concerne à sua utilização no mercado interno, ou sejam, os restos feudais a serem resolvidos, no dizer de Caio Prado Jr., e sem nenhum destino, vieram a ocupar as áreas marginalizadas, próximas aos grandes centros urbanos, aglomerando-se em favelas, mocambos e palafitas, que, com o passar do tempo, se agigantaram e se multiplicaram em vingativa idiossincrasia

Analisando esta insólita e anormal mutação, assim se expressou o emérito e gabaritado mestre, Darcy Ribeiro, na obra acima citada:

“Em nossos dias, o principal problema brasileiro é atender a essa imensa massa urbana que, não podendo ser exportada, como fez a Europa, deve ser reassentada aqui. Está se alcançando, afinal, a consciência de que não é mais possível deixar esta população morrendo de fome e se trucidando na violência, nem a infância entregue ao vício e à delinquência e à prostituição. O sentimento generalizado é de que precisamos tornar nossa sociedade responsáveis pelas crianças e anciãos. Isso só se alcançará através da garantia de pleno emprego, que supõe uma restruturação agrária, ali é onde mais se pode multiplicar as oportunidades de trabalho produtivo”

Atentem-se, que, este vaticínio foi previsto pelo ilustrado autor há mais de 23, anos, e nenhuma providência ou vontade política foi, ao menos, estudada, emergindo, daí, sobranceiro e assustador, o dito popular: “a ociosidade é a oficina do diabo…”

Por igual sentir, Caio Prado Jr, na obra retro citada, em 1966, isto é, há, exatos, 52, anos, já havia prognosticado que:

“E os fatos, adequadamente analisados e profundos, o confirmam. O Brasil se encontra num desses instantes decisivos da evolução das sociedades humanas em que se fez patente, e sobretudo sensível e suficientemente consciente a todos, o desajustamento de suas instituições básicas. Donde as tensões que se observam, tão vivamente manifestadas em descontentamento e insatisfações generalizados e profundos; em atritos e conflitos, efetivos e muitos outros potenciais que dilaceram a vida brasileira e sobre ela pesam em permanência e sem perspectivas apreciáveis de solução efetiva e permanente. Situação essa que é efeito e causa ao mesmo tempo da inconsistência política, da ineficiência, em todos os setores e  escalões, da administração pública; dos desequilíbrios sociais, da crise econômica e financeira que, vinda de longa data e mal encoberta durante curto prazo – de um ou dois decênios – por um crescimento material especulativo e caótico, começa, agora, a mostrar sua verdadeira face; da insuficiência e precariedade das próprias bases estruturais em que se assenta a vida do país. É isso que caracteriza o Brasil de nossos dias. É, acima de tudo, e como complemento, o mais completo ceticismo e generalizada descrença no que diz respeito a possíveis soluções verdadeiras dentro da atual ordem de coisas. O que leva, não se enxergando ainda, em termos concretos, a mudança dessa ordem, a uma corrida desenfreada para o “salve-se quem puder”.    

Esses negros escravizados, trazidos amarrados e açoitados da África, junto com os índios nativos capturados e os brancos açorianos que foram subjugados pelo regime escravocrata, não vieram aqui em busca de trabalho, ou por vontade própria, foram, simplesmente, capturados, retirados a laço e acorrentados, arrancados dos seios de seus grupos pessoais e familiares, forçados e constrangidos para aqui serem se ocuparem de forma infeliz, como é de geral conhecimento, por isto a sociedade brasileira tem por eles uma dívida social incomensurável, que ainda não foi resgatada.

E, o resgate desses restos feudais há de vir, ainda que tardiamente, em forma de inclusão social, restabelecimentos materiais e morais, proteção contra a automação, na forma do art. 5º, de nossa Carta Maior e demais garantias tuitivas, protetoras e tutelares, ali previstas, de moradias condignas, educação, saúde, creches, oportunidades de trabalho e demais promoções governamentais, em igualdade de regime racial.

Espera-se, pois, que, tão logo ultrapasse e se conclua esta etapa de busca pacificadora, através da contraofensiva bélica, busquem os senhores políticos brasileiros, soluções integrativas e sociológicas, para, não só resgatar esse descomunal débito social, advindo desde a assinatura e promulgação da lei áurea, e até hoje não quitado, para que a paz seja alcançada.

————–

Benito Caparelli – Juiz do Trabalho aposentado, foi titular da 1ª Vara do Trabalho de Cuiabá, MT.

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

quinze − 5 =

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.