JOSIAS DE SOUZA: Câmara Federal se matou no caso Donadon

JOSIAS: CÂMARA SE MATOU EM CASO DONADON

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Colunista condena Casa por votar contra a cassação do deputado condenado pelo STF: ‘O Brasil dispõe de mais uma jabuticaba: um deputado federal corrupto e presidiário. É coisa única no mundo. “Graças a Deus, a Câmara está fazendo justiça”, disse a anomalia, a caminho do camburão’

 

247 – O colunista Josias de Souza criticou a Câmara dos Deputados de ter votado ontem contra a cassação do deputado Natan Donadon, preso na Papuda após condenação do STF. Leia:

Em vez de sepultar Donadon, Câmara se mata

— Na hora de vir pra cá, eu fui tomar banho. E faltou água na torneira. Lá não tem chuveiro. É uma torneira. Água fria. E justamente hoje faltou água.

Plenário da Câmara, noite do dia 28 de agosto de 2013. O clima era de velório. Na tribuna, Natan Donadon, um cadáver político, pronunciava suas penúltimas palavras.

— Eu tava todo ensaboado. E acabou a água do presídio. Eu tive que recorrer a um preso, do lado da minha cela. Ele tinha umas garrafinhas de água. Pedi a ele. E acabei de tomar banho com essas poucas garrafinhas que ele me emprestou.

Em noite constrangedoramente deplorável, o plenário da Câmara perdeu a tradicional aparência de feira livre. Hipnotizados, os presentes dedicavam 100% de sua atenção a Donadon. Pela primeira vez na história do Legislativo, um presidiário ocupava a tribuna.

De todos os persistentes terrores brasileiros, o pior é o terror do sistema prisional. O flagelo é a síntese do que o pedaço bem nascido do Brasil pensa dos sem-berço. As cadeias são infernais porque elas só são infernais para bandidos pretos e pobres. Não é lugar para brasileiros acima de um certo nível de renda e de poder.

De repetente, o STF condenou Donadon a mais de 13 anos de cana dura. E ele foi transferido do mundo das facilidades e dos privilégios para a Penitenciária da Papuda, em Brasília. “Os companheiros de prisão chamam de ‘P-Zero’, prisão zero, porque não tem nada”, disse, ao relatar seus primeiros dois meses de inferno.

— Vim algemado de lá pra cá. Nunca tinha entrado num camburão na minha vida. Nunca pensei que isso fosse acontecer. Vim algemado pelas mãos, atrás [didático, o orador leva as mãos às costas, juntando os punhos]. Eu tenho uma certa fobia. Pedi aos agentes pra me trazer na frente. Mas eles disseram que não poderia. Deus me acompanhou. Me deu força, me deu resignação.

O plenário estava reunido para parafusar a tampa do caixão que o Supremo fechara, decretando a cassação do mandato do preso. E Donadon, munido de autorização judicial, revirava no caixão. Nas entrelinhas do seu discurso, o condenado passava aos seus pares, por assim dizer, um recado. Era como se dissesse: “Eu sou vocês amanhã.” Soou dramático.

— Esses 60 dias que eu estou preso lá, tenho sofrido muito. Tenho sofrido muuiiiito. É desumano o que um prisioneiro passa. A minha família tem sofrido muito. Por favor, me absolvam. Essa Casa é independente!

Sentenciado em última instância, sem possibilidade de recorrer, Donadon revelou-se um presidiário de mostruário. Como todo detento que se preza, declarou-se “inocente”. Terminado o discurso, abriu-se o painel de votação. E o plenário começou a esvaziar.

Muitos deputados, cumprida a obrigação de votar, foram embora. Outros tantos bateram em retirada sem votar. Dos 513 deputados, 470 registraram presença ao longo do dia. Desse total, apenas 405 levaram o voto ao plenário. Como que farejando o cheiro de queimado, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), presidente da Câmara, esticou a sessão a mais não poder. Queria que todos votassem.

Iniciada às 19h, a sessão foi encerrada às 23h04. Para que o mandato do condenado Donadon fosse passado na lâmina, eram necessários pelo menos 257 votos. “A Câmara não vai cometer hara-kiri político”, disse um otimista Chico Alencar (PSOL-RJ), antes que o resultado fosse estampado no painel eletrônico: “sim”, 233; “não”, 131. “Abstenção”, 41. A Câmara, que sempre teve um comportamento de alto risco, cometeu suicídio. Tornou-se uma instituição-zumbi. Numa tentativa de reduzir os danos, Henrique Alves anunciou que Donadon não terá de volta o salário e demais benefícios. Será convocado o suplente.

Sacramentado o vexame, o ainda deputado federal Natan Donadon levantou as mãos para o alto. Atrás da última fileira de poltronas, festejou a morte do plenário como uma vitória do corporativismo. Depois, foi reconduzido ao camburão. Algemado, voltou para o xilindró. Antes, foi ao microfone de apartes para cumprir um compromisso que assumira com seus companheiros de cárcere.

— Eles falaram pra mim assim: ‘nao esqueça de falar da nossa alimentação. É muito ruim a alimentação do presídio. Não é de boa qualidade. Tenho a síndrome do intestine irritado. Associado ao estresse, tenho passado muito dificuldade lá. Tá dado o recado. Eles pediram pra eu falar. É preciso melhorar a comida dos presidiários da Papuda.

O Brasil dispõe de mais uma jabuticaba: um deputado federal corrupto e presidiário. É coisa única no mundo. “Graças a Deus, a Câmara está fazendo justiça”, disse a anomalia, a caminho do camburão.

Categorias:Direito e Torto

10 Comentários

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  1. - IP 201.24.147.161 - Responder

    Quando o legislativo não é omisso, apronta dessas… E depois ainda criticam a atuação do STF.

  2. - IP 187.4.82.85 - Responder

    Simples assim !! ‘ QUEM USA , CUIDA ‘

  3. - IP 179.253.185.77 - Responder

    Logo essa jabuticaba vai ter a companhia de outros . Os mensaleiros.
    Deprimente .
    Aproveito o espaço e peço ao Enock , que disponibilize os votos dos 8 “dignos”de MT.
    Como votaram?
    Votaram?

  4. - IP 187.6.109.186 - Responder

    Não há do que se espantar… o cidadão brasileiro, na sua grande maioria, é corrupto ou corruptível… a corrupção é um fator social, sempre existiu e sempre existirá… A podridão que corre na Câmara dos Deputados, no Senado, na Presidência da República, nas Assembleias Legislativas (vejam a de MT!!!!), nos Governos dos Estados, nas Câmaras Municipais, nas empresas privadas, nas ong’s… enfim, onde quer que se encontre o ser humano, nada mais é do que reflexo dessa sociedade desestruturada, dessa sociedade desqualificada, desumana, sem solidariedade e consumista… dessa sociedade ávida por dinheiro e gananciosa… Todos (com exceções, é claro, mas pouquíssimas), do pobre ao rico, são corruptos ou passíveis de serem corrompidos… JÁ PASSOU O TEMPO DE PERCEBER QUE NÃO SE PODE LUTAR CONTRA A CORRUPÇÃO… A CORRUPÇÃO NUNCA ACABARÁ…. OS CIDADÃOS DECENTES TÊM QUE TER EM MENTE QUE SOMENTE OS EFEITOS DA CORRUPÇÃO PODEM SER MINORADOS, OU SEJA, DEVEM-SE CRIAR MECANISMOS PARA MITIGAR OS EFEITOS DA CORRUPÇÃO… DEVE-SE, SIM, TORNAR INELEGÍVEIS, POR MAIS TEMPO, DO QUE AI ESTÁ NA LEI, OS CORRUPTOS E OS CORRUPTORES, OS SEU BENS DEVEM SER REVERTIDOS EM FAVOR DO RESSARCIMENTO DO PATRIMÔNIO PÚBLICO… ENFIM… CADEIA, PRISÃO, DE NADA ADIANTA, NÃO COLOCA MEDO EM NINGUÉM E NÃO REPARA O DANO CAUSADO PELA CORRUPÇÃO E PELA IMPROBIDADE…. DEVE-SE IMPOR O RESSARCIMENTO DO ERÁRIO COM OS BENS DO IMPROBO E DO CORRUPTO E PRIVÁ-LOS, POR MUITO MAIS TEMPO, DO ACESSO À FUNÇÃO PÚBLICA E POLÍTICA.

  5. - IP 179.216.220.47 - Responder

    Afffffffff nem dormi a noite passada ao ver que esse deputado presidiario está privado das suas mordomias, passando tanto sofrimento, será que vou conseguir dormir hj kkkkkkkkkkkkkkkkkk brincadeirinha. Se ele olhar para tras vai ver um monte de mães e pais sofrendo pq os filhos moram em uma barraca de lona por ai passando fome tendo que fazer suas necessidades no mato e vem com essa agora eu hein, fala serio isso e uma pouca vergonha o povo tem que sair nas ruas mesmo.

  6. - IP 179.217.102.170 - Responder

    Conforme o Estadão, Eliene Lima (PP) compareceu ao plenário, registrou presença, mas não registrou o voto. Carlos Bezerra (PMDB), Homero Pereira (PR) e Pedro Henry (PP) não foram à sessão.Nilson Leitão (PSDB), Valtenir Pereira (PSB), Júlio Campos (DEM) e Wellington Fagundes (PR) – mas a votação foi secreta. Valtenir fez declaração dizendo que iria votar pela cassação mas a confirmação efetiva do voto é impossível dada a votação secreta.

    • - IP 179.253.185.77 - Responder

      Resumindo , a grande maioria dos ilustres de MT , contribuiu para essa ignominia.

  7. - IP 177.6.221.109 - Responder

    …..ESSE PAIS NOS DA NOJO…. O PEDRO DISSE TUDO NO SEU COMENTÁRIO, A CORRUPÇAO É SEM VOLTA….VIROU MODA….ESSE SENADO É UM CIRCO…. ESSES ÓTORIOS QUE SE DIZEM SENADORES/DEPUTADOS, COM POUQUISSIMAS EXCEÇÕES VAO À BRASILIA PARA MULTIPLICAREM SEUS PATRIMÔNIOS DE FORMA VIRTIGINOSA, BANDO DE ABUPTRES… CÂNCER MALIGNOS DA SOCIEDADE….A NAÇÃO PRECISA IR PARA AS RUAS NOVAMENTE….O CASO DESTE DEPUTADO É UMA AFRONTA A NOSSA DEMOCRACIA, ARQUITETARAM DE FORMA DIÁBOLICA A PERMANENCIA DESTE CARA NO PODER, DESMORALIZARAM A JUSTIÇA….ALIMENTARAM AINDA MAIS A IMPUNIDADE…..ESTOU ENVERGONHADO COMO CIDADÃO, É PRECISO DAR UM BASTA NESTE SISTEMA PODRE QUE VIVEMOS….

  8. - IP 177.17.206.180 - Responder

    A não cassação do mandato do Deputado Donadon foi a decisão mais correta e coerente que a Cãmara dos Deputados já tomou, pois assim o parlamento terá um representante na Penitênciária e a Penittenciária terá o seu representante na Câmara dos Deputados Federais;

    Seria um absurdo que com tantos bandidos no Parlamento, não houvesse nenhum Deputado preso, assim como o contrário também é coerente, pois também é absurdo que com tantos bandidos nas penitenciáirias, nenhum deles seja Deputado Federal.

    A mesma coisa vai acontecer com o PT dos petralhas que também terão os seus mensaleiros como legítimos representantes nas penitenciárias. E esses petralhas presos serão os representantes das penitenciárias no Partido dos Trabalhadores, ou seja, o PT dos Petralhas

    E assim fica tudo muito coerente no Parlamento e no PT.

    Difícil mesmo é a função dos humoristas, porque os políticos os superam espetacularmente na arte de fazer palhaçada.

  9. - IP 189.59.54.89 - Responder

    Enock ,você atacou o Barbosão quando ele cassou o mandato dos mensaleiros com a interpretação que condenados perdem direitos políticos.Ele estava certo,principalmente por conhecer o péssimo caráter da maioria dos políticos brasileiros.Vc,defendeu que cabia ao Congresso apenas, a cassação do mandato.E agora como sair dessa situação esdrúxula:condenados e congressistas.Os votos que decidiram foram dos dois últimos ministros,(QUE JÁ DISSERAM PORQUE VIERAM!) indicados pela Dilma, e agora ?Todos que atacaram o relator se calam sem desculpas,pois até Renam se indignou.Imaginem as pessoas de bem!

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