JOSÉ ORLANDO MURARO: Sempre brinco, dizendo que, há décadas, duas mulheres me acompanham. A primeira é a SOLIDÃO, vestida de luto, que pela janela, aguarda o meu retorno para uma casa vazia e empoeirada. Senta-se, em silêncio, na ponta da mesa, enquanto almoço. No máximo repete os versos de Pessoa: “ –Óh mar…quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal?” É a minha herança lusitana, por parte de pai. A outra mulher é a Dona MORTE. Baixinha, velha, desdentada, com os peitos murchos balançando dentro de uma camiseta puída. Companheira de estrada, e de tantas e tantas confusões em que me meti pela vida. Ela visitou a maior parte dos meus inimigos. Poucos restam. E eu atingi uma idade improvável para alguém que já esteve em situações bem delicadas. Belicosa, não repete versos de ninguém, apenas se distrai amolando facas. É a minha herança italiana

josé orlando muraro, advogado e morador da chapada dos guimarães, mt

 

Sobre o dia em que a minha mãe decidiu que era o tempo de morrer

POR JOSÉ ORLANDO MURARO

 

Hoje só acredito no pulsar das minhas veias.

Noturno. Fagner.

 

“…O aço dos meus olhos
E o fel das minhas palavras
Acalmaram meu silêncio
Mas deixaram suas marcas..

 

A notícia veio pelo msn. Meu filho mais velho a mandou. A vó não está nada bem. Mas como tudo na minha vida, nada é somente isto. Tão pouco. Sempre há uma colcha de retalhos, em que fatos e atos se intercalam, se entrelaçam. Na hora fiquei sabendo: ela havia decidido que era o tempo de morrer.

Cuiabá, neste domingo, sob um céu de chumbo e um dos dias mais frios das últimas décadas. Estava revisando o texto “O tempo da humilhação”, do livro O Oculto do Oculto. Deixei de lado.

Consegui falar pelo celular. Pouca coisa: estava internada com pneumonia, muito mal. Em Praia Grande, a mesma cidade onde morreu a bisavó Liberata Vicenza Bernini, há mais de 60 anos.Saí do escritório e recebi o vento frio no rosto.

Hoje sou deserto.

 

Se hoje sou deserto
É que eu não sabia
Que as flores com o tempo
Perdem a força
E a ventania
Vem mais forte…

 

Sou o segundo filho, mas entre C., a terceira filha, e eu, teve um aborto. Narrou que meu pai a levava para dar aulas em uma escola rural. De carroça. E o animal se espantou e correu para dentro do mato. Neste sufoco, houve o aborto.

Décadas depois, eu estava acordando de um cochilo após o almoço e Th, a minha irmã mais nova ligou. Meio dormindo, mandei o recado: -Avise M, a irmã mais velha, que a K, sua filha mais nova, está grávida e é para tomar cuidado.

Horas depois o telefone toca. Gravidez confirmada. –Como você sabia, estando a mais de 2 mil quilômetros??

Apenas sonhei. Mas não era só isto. O sonho dava conta de que este feto iria receber o espírito que estava com meu irmão abortado. Ou seja, meu sobrinho em segundo grau, na realidade, é meu irmão espiritual.

 

Hoje só acredito
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou
Há muito me deixou…

 

No enterro do meu pai, em julho de 2011, a estirpe de M, minha irmã mais velha, solenemente me ignorou. Por medo, talvez. Mas não liguei. Em algum momento, H, com quase dois anos, olhou para mim. Sorriu, irônico, com uma covinha no canto da boca e me  deu tchau.Ele também sabe.

Narro isto para explicar que, para mim, as coisas são muito mais do que realmente as pessoas enxergam. As relações de parentesco, legais, existem em um determinado plano, mas em outros, as coisas são bem diferentes.

Nunca tive com ela uma relação de mãe e filho. Relação hierárquica, de subordinação, inexistiu. Ela bem que tentou algumas vezes, mas bastava olhar duro dentro dos seus olhos negros, que ela recuava.

Sou parte do espírito que ela portava e assim,  éramos irmãos, da mesma idade, com a mesma força e determinação. Não era uma irmã mais velha com sentimentos de proteção. Não. Minha mãe era meu irmão, da mesma idade, e os atritos eram inevitáveis.

Há diversas formas de explicar, de dizer, o que estou escrevendo. Neste mesmo enterro de meu pai, em dado momento, ficamos a sós, conversando. E ela me disse:

 

– Você é o único do meu sangue. Tuas irmãs são moles, vaidosas…são sangue do teu pai..

– Não. Sou o teu gênio, o teu espírito belicoso, briguento…

– É…esta é uma grande verdade…mesmo.

Depois de 55 anos, pela primeira vez, tínhamos um acordo.

 

Ai, Coração alado
Desfolharei meus olhos
Nesse escuro véu
Não acredito mais
No fogo ingênuo, da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança…

Nessa estrada
Só quem pode me seguir
Sou eu!
Sou eu! Sou eu!…

 

Nunca tive a fixação ou o complexo de Édipo em relação à minha mãe. Nem esta idolatria à figura materna, como vejo em muitos homens. Não. Éramos irmãos da mesma idade e que disputávamos espaços. Tínhamos a mesma força e determinação. Um “não tirava farinha” com o outro, como ela sempre dizia.

Meu pai não  se envolvia. Ele sacava que eu e minha mãe tínhamos o mesmo gênio, a mesma “cabeça dura”, como ele dizia. Às vezes ela cedia em alguns pontos, e eu em outros. Mas sem subordinação, sem hierarquia, sem idolatria. Éramos dois pares de olhos negros que, muitas vezes, se fuzilavam no espaço.

Talvez, por estes motivos, sou o único que pode entender porque minha mãe chegou à conclusão de que é tempo de morrer.

 

Hoje só acredito
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou
Há muito me deixou…

 

É bem diferente desistir de lutar pela vida, e decidir que já é tempo de morrer.

Da forma que fui criado, a morte é apenas a conseqüência  inescapável do fato de você viver, ou estar vivo. A única certeza, como se diz.

Sempre brinco, dizendo que, há décadas, duas mulheres me acompanham. A primeira é a SOLIDÃO, vestida de luto, que pela janela, aguarda o meu retorno para uma casa vazia e empoeirada. Senta-se, em silêncio,  na ponta da mesa, enquanto almoço. No máximo repete os versos de Pessoa: “ –Óh mar…quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal?”  É a minha herança lusitana, por parte de pai.

A outra mulher é a Dona MORTE. Baixinha, velha, desdentada, com os peitos murchos balançando dentro de uma camiseta puída. Os cabelos desalinhados e um olho coberto pela catarata. Companheira de estrada, e de tantas e tantas confusões em que me meti pela vida.  Ela visitou a maior parte dos meus inimigos. Poucos restam. E eu atingi uma idade improvável para alguém que já esteve em situações bem delicadas. Belicosa, não repete versos de ninguém, apenas se distrai amolando facas. É a minha herança italiana.

A decisão da minha mãe só pode ser entendida dentro da colcha de retalhos das relações familiares.

Ela sempre se preocupou com C, a terceira filha. Aquela que ficou para trás, que sempre usou as roupas dos outros, que pouco ou nada teve na vida. Há décadas   “ C” cobra esta conta, estourando o cartão de crédito do meu pai ( e agora da aposentadoria da mãe). No ano passado C foi para a Itália e parece que se encontrou e despertou o desejo de seguir a sua estrada. Voltou, ficou um tempo aqui, mas decidiu retornar definitivamente para a Itália, o que muito agradou a minha mãe.

Só que ela sabe que C, mesmo longe, estará sempre preocupada. Aos 82 anos, com a filha que ela mais se preocupou encaminhada, a morte, para livrá-la de preocupações,  é uma alternativa a ser pensada.

Na contrapartida, existe Th, a filha mais nova, que minha mãe sempre odiou e nunca fez questão de esconder. Uma aproveitadora, como disse certa vez. Esta conheceu, pela internet, uma norte-americano, tranqueira, cara de ex-presidiário. E como C vai para a Itália, Th disse que o cara vai vir para morar na mesma casa, com a minha mãe.

Aos 82 anos, com uma filha encaminhada para a Itália e a outra pronta para receber o gigolô norte-americano, a decisão de morrer acaba fazendo sentido.

Decidi não ir ao enterro de minha mãe. Não faz sentido olhar para a carne e ossos no início da putrefação e dizer: minha mãe morreu.

Será uma grande  mentira. Grande parte do seu espírito vive em mim. Você é o único do meu sangue, como ela disse.

Mas esta história ainda não acabou. Logo, logo o gigolô norte-americano vai  estar na casa, tomar seu banho, vestir um shorts e chinelo de dedos, sentar-se na sala, colocar os pés sobre a mesa de centro, olhar para as fotos na parede e dizer: _ agora, quem reina aqui sou eu!

Mal sabe ele que em todos os pregos das paredes, em tudo quanto ele tocar, sempre haverá uma maldição, deixada pela minha mãe. Ele irá definhar, adoecer e morrer. Ai sim, o espírito belicoso, irá descansar e seguir a sua jornada. Somente assim descansará em paz.

 

Nessa estrada
Só quem pode me seguir
Sou eu!
Sou eu! Sou eu! Sou eu!..

 

Para homenagear  o espírito de minha mãe separei madeiras das que uso regularmente no fogão a lenha aqui da gráfica, em Cuiabá. Farei uma fogueria, Não muito grande. Queimadas urbanas são proibidas.

Preciso encontrar uma canção. Em tudo há uma canção, como cantam os aborígenes da Austrália. Uma pedra não rola e uma folha não cai sem uma canção.

Uma vida de esvai. Preciso urgente encontrar a canção, para cantar na fogueira, quando chegar a notícia.

Mais que um filho carnal, sou um irmão gêmeo, em espírito. Tenho a tua força e a tua determinação.

 

Cuiabá, 27 de julho de 2014.

 

JOSE ORLANDO MURARO  SILVA, criador do jornal Pluriverso Chapadense, é advogado, radicado em Chapada dos Guimarães, Mato Grosso.

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