PREFEITURA SANEAMENTO

JOSÉ ORLANDO MURARO, que está lentamente abandonando a advocacia, a partir da notícia da morte do criador de armas Mikhail Kalashnikov, faz sua reflexão sobre a obsolescência das coisas e das pessoas. “Não consigo instalar a versão 10 do Auto CAD porque o Windows do meu computador é o Vista, e ele só pode ser feito a partir do Ultimate…..putz, como viver num mundo assim, onde você é apenas um escravo das mudanças das coisas?” – indaga-se o perplexo cronista.

Morte do militar e criador de armas Mikhail Kalashnikov serve de inspiração para as reflexões existenciais de José Orlando Muraro, atualmente coordenando a ocupação da Gleba Monjolo, em Chapada dos Guimarães, Mato Grosso. Citando o poeta Drummond, o cronista esperneia contra a concretude deste mundo onde as pessoas e os objetos como já surgem para logo adiante se tornarem obsoletos: "as coisas andam mal....mas eu não sou coisa....e me revolto....”

Morte do militar e criador de armas Mikhail Kalashnikov (à esquerda) serve de inspiração para as reflexões existenciais de José Orlando Muraro (à direita), atualmente coordenando a ocupação da Gleba Monjolo, em Chapada dos Guimarães, Mato Grosso. Citando o poeta Drummond, o cronista esperneia contra a concretude deste mundo onde as pessoas e os objetos como já surgem para logo adiante se tornarem obsoletos: “as coisas andam mal….mas eu não sou coisa….e me revolto….”

Reflexão sobre a morte da Kalashnikov e a obsolescência das coisas e das pessoas

Por JOSÉ ORLANDO MURARO

 

 

Datas para não serem esquecidas em 2014: 100 anos do início da Primeira Grande Guerra e 60 anos do início da guerra do Vietnã.
Pulando de site em site ( a tradução “ sitio” é horrível, eis que site em inglês significa “local” e sítio, em português, a grosso modo, é uma propriedade rural)) de alguns jornais, capturo notícias esparsas, que acabam por completar uma parte da colcha de retalhos ( sangrenta, por sinal) que foi o Século XX.
Em Tóquio faleceu, nesta semana, aos 91 anos, o tenente Hiroo Onada, que se rendeu somente em 1974, tendo lutado por 30 anos, sem saber que o Japão havia perdido a II Guerra Mundial. Viveu depois no Brasil ( no Mato Grosso do Sul) e retornou em 1989 para o Japão.
Mas o que mais me tomou o pensamento foi que no dia 23 de dezembro do ano passado, faleceu, aos 90 anos, o projetista de armas Mikhail Kalashnikov, autor do projeto do AK-47, o fuzil de assalto mais utilizado no mundo ( cerca de 90 milhões de armas fabricadas em 67 anos).
Decidi que não iria participar das festas de Natal nem de Ano Novo, para tentar dar um tempo na bebida. Como Graciliano Ramos, ao justificar que levou muito tempo para escrever “ Memórias do Cárcere”, onde singelamente confessa que não foi o medo nem as lembranças que o impediram de escrever, mas sim o alcoolismo.
Para matar o tempo e ficar longe das garrafas de cervejas ( caixas, na realidade), comecei a implantar o projeto de permacultura na Gleba Monjolo. Uma forma de produzir sem agrotóxicos e o mais importante: sem derrubar o cerrado. Fiz mais de duas mil covas nos espaços vagos da vegetação nativa, colocado calcário. Montei os estaleiros para formar mudas de mamão papaia ( o pequeno, chamado de Havaí) e de morangos.
Deixando de lado a questão do poder destrutivo das armas, do comando da indústria bélica sobre as Nações ( Barak Obama é apenas um fantoche, um tonto controlado pelos senhores da guerra), passei a contrapor idéias esparsas, que fatalmente desaguou na questão da rapidez com que as coisas se transformam em objetos obsoletos na atualidade.
Certa vez peguei carona com um vendedor da John Deere, e enquanto descíamos a serra de Diamantino ficou falando sobre “ o aço programado para virar farinha” . O assunto começou quando passamos por um restaurante, onde estava uma colhedeira de soja, modelo já ultrapassado, sobre cavaletes, como se alguém estivesse tentando consertá-la.
-É inútil. O aço da John Deere é programado para virar farinha depois de um período de uso. Ele nunca vai conseguir colocar aquela máquina para funcionar de novo. Não passa de um monte de ferro-velho…
Como aço pode virar farinha, depois de tantas mil horas de uso?
Segundo ele, o aço utilizado nas partes que sofrem maiores torções ( os eixos das rodas e parte móveis do sistema de colheita) é fundido com micropartículas de antimônio. Com a utilização e a dilatação do aço, estas micropartículas, ao longo do tempo, vão se aglutinando, até que depois de um tempo de uso, o aço vai se fragilizando, até se romper. Literalmente, vira “farinha”.
_ como naquele filme do Exterminador do Futuro, o 2, onde o robô assassino é feito de um material, um metal líquido, que se agrega, depois de ser totalmente destruído.
Isto se chama “ obsolescência programada” e uma colhedeira de soja de 900 mil reais, após sete anos, se transforma em um monte de ferro velho, o que me lava à imagem daquele trator de rodas de ferro que está na frente da Escola Técnica na Serra de São Vicente, possivelmente de fabricação tcheka, feito para durar 100 anos.
De volta ao projeto do AK-47. Um fuzil de assalto que não é muito preciso, tem uma cadência de tiro regular e é bastante pesado ( 4,5 Kg), mas que se impôs por duas questões cruciais: manutenção fácil e confiabilidade, eis que não “engasga” mesmo com areia, lama ou água em seu mecanismo de disparo.
Um projeto que logicamente teve algumas versões durante estas seis décadas de produção, mas que basicamente respeita o modelo original, e mesmo aqueles das primeiras produções continuam em uso em muitos exércitos militares e paramilitares do mundo.
O caça de combate MIG-21, cuja fabricação começou em 1957, era totalmente VALVULADO, apesar de que os transistores de silício já serem de largo uso no mundo ocidental. E isto foi mantido até a versão do MIG-27, já nos estertores da União Soviética.
Enquanto SISTEMAS DE PRODUÇÃO, acredito que esta tenha sido a grande contraposição entre os sistemas socialistas e capitalistas no Século XX. E como Marx escreveu, a política é a economia concentrada, e desta é apenas um reflexo.
Na então União Soviética, enquanto a produção mantinha projetos antigos e feitos para durar o máximo possível, uma casta de geroncratas também fazia de tudo para se manter no poder, trocando-se as lideranças muito devagar, somente com a morte dos líderes mais velhos. De outra parte, no mundo ocidental, notadamente nos Estados Unidos, a troca de lideranças e dos produtos se acelerou após a II Guerra Mundial, rompendo com o longo mandato de Franklin Roosevelt. Kennedy é assassinado e no próprio avião, Lindon Jonhson assume a presidência. Nixon é afastado e assume o vice, e a coisa continua, célere…. até se chegar ao impensável para a mentalidade norte-america: um negro ( vacilão) assume a Presidência da maior potência militar do mundo.
E aqui a questão da rápida obsolescência das coisas, nesta sociedade turbo-capitalista acaba por beirar o terrorismo industrial. Vejamos: não consigo instalar a versão 10 do Auto CAD porque o Windows do meu computador é o Vista, e ele só pode ser feito a partir do Ultimate…..putz, como viver num mundo assim, onde você é apenas um escravo das mudanças das coisas?
Você se submete, ou está fora do sistema!
E a loucura não pára por aí: a Monsanto impôs a soja transgênica alegando que seria mais resistente às pragas, tirando do mercado todas as sementes antigas, eis que “obsoletas”. Mas a realidade é outra: surgiram novas pragas, muitas fabricadas em laboratórios de empresas fabricantes de defensivos agrícolas e hoje se passam DOZE VEZES agrotóxicos nas lavouras (sem falar do glifosato, que é o secante da soja). O Receituário Agronômico dispõe que não se pode passar mais do que TRÊS VEZES, eis que coloca em risco a saúde humana!
Chegamos à “coisificação” das pessoas, como escreveu Marx. Ou você se atualiza, ou se torna ultrapassado, OBSOLETO, e é descartado, vira “ farinha”. Não serve mais para o sistema produtivo, e não interage mais com as outras pessoas.
Quanto à mim, aos 56 anos, morando em 20 hectares da Gleba Monjolo, em Chapada dos Guimarães, tento produzir sem usar agrotóxicos e sem destruir o cerrado. Incorporo a minha produção nos vazios da vegetação, conforme ensinamentos da permacultura ou “agricultura selvagem” de Masanabo Fukuoka. No mais, acompanho as notícias pela internet, escuto um rock-rural e nos finais da tarde contemplo a Serra Vermelha ao som de “ quero uma casa no campo”, do Sá, Rodrix e Guarabira, na voz inesquecível de Elis Regina. E vou deixando de lado a advocacia, levada pelas águas de março….
E rememoro Carlos Drumond de Andrade: “…..as coisas andam mal….mas eu não sou coisa….e me revolto….”

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Jose Orlando Muraro Silva é advogado em Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, e colaborador desta PAGINA DO E

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ENTENDA O CASO

 

Mikhail Kalashnikov, inventor do rifle AK-47, morre aos 94 anos

Mikhail Kalashnikov estava internado em hospital de Izhevsk.
Ele sofria de problemas no coração.

Do G1, em São Paulo

Mikhail Kalashnikov, inventor do rifle de assalto AK-47, morreu aos 94 anos, informou nesta segunda-feira (23) o governo da República de Udmurtia, na Rússia, segundo o site “Rt.com”.

Ele vinha sofrendo de problemas no coração nos últimos anos e estava internado sob tratamento intensivo em Izhevsk – onde a fábrica que produz as icônicas armas fica localizada – desde 17 de novembro.

Foto de 2007 mostra Mikhail Kalashnikov à frente de imagens do rifle AK-47, que ele desenhou, na Rússia (Foto: AFP)Foto de 2007 mostra Mikhail Kalashnikov à frente de imagens do rifle AK-47, que ele desenhou, na Rússia (Foto: AFP)

Kalashnikov nunca chegou a terminar o ensino médio, mas conseguiu sucesso criando uma das armas mais conhecidas do mundo quando ainda estava em seus 20 anos.

Entretanto, conforme seus rifles, muitas vezes chamados pelo sobrenome do criador, se tornavam cada vez mais comuns nas mãos de terroristas e radicais, o inventor muitas vezes era forçado se defender da imprensa.

Ele foi questionado diversas vezes sobre um possível arrependimento de ter criado o AK-47. “Eu o inventei para a proteção de nosso país. Não tenho nenhum arrependimento e não carrego nenhuma responsabilidade sobre como os políticos o utilizaram”, afirmou uma vez.

Outras vezes, foi mais contido. “Sou orgulhoso de minha invenção, mas triste por seu uso por terroristas. Eu preferia ter inventado uma máquina que as pessoas pudessem usar e que ajudasse fazendeiros em seu trabalho – um cortador de grama, por exemplo.”

Kalashnikov Foi condecorado com a medalha de herói da federação russa em 2009, maior título honorário do país.

Ele costumava dizer que sempre foi motivado por servir a seu país e que não obteve lucro direto com a produção dos rifles – que chegaram a 100 milhões em todo o mundo. A maior fonte de renda de Kalashnikov era uma vodca que leva seu nome.

Mikhail Kalashnikov posa com rifle que ele criou em foto de 2006 (Foto: Sergei Karpukhin/Reuters)Mikhail Kalashnikov posa com rifle que ele criou em foto de 2006 (Foto: Sergei Karpukhin/Reuters)

 

1 Comentário

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  1. - IP 179.216.205.163 - Responder

    um texto tocante do advogado muraro. ele deveria escrever mais. gosto sempre que leio seus textos. me parece um homem sensível e algo triste. gostaria de conhece-lo e conversar com ele.

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