JOSÉ ORLANDO MURARO: Nas noites frias em Chapada tento identificar as constelações no céu

Muraro

Quando me encontrei
Por José Orlando Muraro

 

Um sonho….o dia já estava clareando…um galo cantava na vizinhança…no lusco-fusco, quando a luz tenta afastar as trevas….era quando o rei David orava a Deus…
Adormeci.
Chego na porta de uma casa grande, pintada de verde bem claro….a porta se abre e Emilene, a segunda ex-esposa, me manda entrar. O cena muda agora: vem de dentro para fora e eu me vejo parado na porta.
Sou eu como nunca me vi em um sonho….minha calça está cheia de carrapichos e picão….as botinas estão bem amarradas nas pernas, para não subir carrapatos… sou eu, com certeza.
Atravessamos uma grande sala, sem nenhum móvel. No fundo, mas no corpo da casa, uma varanda coberta. Uma escada pela direita… atravessamos um trecho aberto e entramos em uma área coberta. Vejo fogões e panelas.
Encostamos em uma pia, imensa, e começamos a lavar pratos e panelas. Não conversamos…..
Emilene está ali, ao lado. Gostaria de tocar nela, mas não vou fazer…sei que não devo fazer isto.
Ela diz:
-Estou trabalhando com vetores…mas não rende muito. Quero trabalhar com promoções e alugar um bom escritório.
Penso na sala vazia. Mas nada digo.
Nisto começa o burburinho de pessoas na varanda coberta. Ela enxuga as mãos e olha pra mim. Eu entendo que ela deve ir receber seus convidados. Ela olha para a varanda e vira-se para mim, como se convidando para ir lá.
Sem nada falar eu balanço a cabeça. Negativo. Não tenho nada cm aquele pessoal.
Continuo lavando a louça. Encontro um caldeirãozinho de ferro, de três pés. Sei que é meu. Tento encontrá-lo de novo, mas ele some entre tantas panelas que estão sendo lavadas.
No final da festa ela volta e me diz:
-O Ariovaldo vendeu o lote dele e quer te passar a parte da tua comissão…
Enxugo as mãos e vou até lá. Encontro tio Fausto, pai do Ariovaldo, que me abraça e levanta um maço de dinheiro. –Tome seus oito mil, me diz ele. E repassa outro tanto para ela.
O meu, eu guardo na mochila, que está no chão….
Quando me viro, ela não está mais ali. Vejo-a destrancando uma mesa lá fora. Nas mãos, um monte de pratos brancos e panelas. Vou até lá e mostro o Edilon e a Letícia parados na escada.
-Venha se despedir, já estamos indo embora.
Ela deixa a pilha de pratos. Enquanto andamos ela me diz: -você ficou bem preocupado ao pegar o dinheiro….
Não digo nada. Apenas caminho.
( madrugada do dia 17.7.2019)
……….
O pior, escreveu o dr. Jolande Jacobi, é quando você tenta racionalizar os sonhos, ou seja, o lado consciente tenta interpretar as imagens e fatos dentro de um esquema lógico, pré-concebido.
È o famoso: deixa que eu chuto…e você acaba chutando para fora toda a enorme complexidade de um sonho….ou reduzindo tudo a uma quimera, a quase nada.
No texto do dr Jacobi, em certo momento ele escreveu que quando você se vê no sonho, por inteiro, significa que você aceita e valoriza as mensagens do subconsciente.
Explicando melhor. Normalmente nos meus sonhos eu vejo tudo pelos meus olhos. Eu estou no sonho, mas vejo tudo pelos meus olhos…
È bem diferente quando você se enxerga…ainda mais com tantos detalhes atuais: a camisa preta de manga cumprida, a calça com o cadarço amarrado nas pernas…tudo muito atual….
Segundo o dr. Jacobi, ao se ver perfeitamente no sonho, o significado é que você está com o seu consciente e inconsciente trabalhando em harmonia, em uma integração psíquica de todas as partes.
Maravilha…..vamos adiante….
A casa não me remete a qualquer outra que conheço… poderia ser a da gráfica, mas não….casa significa patrimônio e casa grande maior ainda…e isto é o que Emilene tem.
E lavar louças?
Um trabalho chato, mas necessário. Metódico, repetitivo, todos os dias….mas tem que ser feito….
Mas acima de tudo, lavar louças em silêncio pode significar “ter paciência, ter auto controle para não quebrar nada, dia após dia, prato após prato…”
E tem um detalhe: com ela ali do lado….
É esta paciência e auto controle que se resume no sonho: quero tocá-la, mas não vou fazer….não posso fazer….
Trabalhar com vetores….são setas desenhadas para todos os lados… aparentemente significa procurar saídas, um novo rumo profissional ou pessoal, afetivo ou emocional….
Não vou para a festa….dou de ombros.Não quero ver ou saber quem está lá…não preciso passar por isto… prefiro continuar lavando louças…
O meu inconsciente, na tentativa de formatar uma mensagem simbólica, coloca em cena o Ariovaldo, que realmente era filho do tio Fausto Muraro. Mas poucas vezes eu vi. Eles tinham um hotel bem ao lado da ferrovia da Sorocabana….
Mas com tio Fausto era bem diferente. Volta e meia ele aparecia em casa para conversar com minha mãe. Ele era o irmão mais novo do meu avô (Silvio Muraro)
Ele chegava de jeep, trazia frutas para ela e doces para as crianças. Era um homem perfumado, camisa sempre engomada e muito, muito educado. Falava baixo e demonstrava grande carinho pela minha mãe.
Na realidade, ele fazia uma pequena ponte entre minha mãe e o pai dela, que não se falavam há décadas. Uma longa história.
Tio Fausto era casado com Júlia, uma mulher mais velha e muito rica. Todo dinheiro era dela….era o que se comentava a boca pequena. Uma vez ou outra a vi no hotel….magra. alta. Bem vestida….
Se era autoritária ou não, ou jogava algo no rosto dele….nunca ouvi nada neste sentido.
Qual o simbolismo está atrelado neste sonho, nesta aparição do tio Fausto? Porque o inconsciente lança mão da imagem dele… o que quer me dizer?
Deveria ter feito como ele….continuado casado com uma mulher rica e suportar todas as pancadas e humilhações?
Não acredito.
Visto por completo, as maiores características que ele tinha era a educação, o falar baixo, o demonstrar carinho pela minha mãe, o se dispor a uma tarefa espinhosa que era ser a ponte entre ela e meu avô…..
Quanto ao dinheiro, em si, não tem nada a ver com notas. É apenas uma retribuição, que pode ser de tantas outras maneiras. Mas ao usar o dinheiro, o inconsciente simbolicamente me mostra que agora, com a harmonia entre as várias facetas psíquicas do meu ser, uma nova postura, mais educada, pode resultar em algum ganho, não em dinheiro.
Ver Edilon no sonho, que é casado com Joseane, minha filha mais velha, me remete, me sinaliza claramente Chapada dos Guimarães. Estando ali, de saída, aponta o rumo para este município.
E ver Letícia, o destino geográfico fica mais visível: o lote da chácara que estou abrindo na Gleba Monjolo, e que é dela.
A coisa engraçada é quando E. fala que fiquei preocupado com o dinheiro. Na realidade tive medo de que ela me tomasse a grana. Este foi o sentimento que me acometeu.
Tudo bem…..sem querer racionalizar as coisas, qual, afinal, é a mensagem que o meu inconsciente me mandou?
Posso pensar tantas coisas…..
Acredito que agora, morando no lote rural, implantando um projeto produtivo, ficando longe do álcool e de confusões e aceitando o meu inconsciente, as coisas poderão ficar bem.
Mas ainda há muita louça para lavar…com paciência…muita paciência…
Ao me encontrar, me controlar, posso ter algum ganho psíquico no final. Mas o inconsciente me diz o rumo que tenho que seguir:continuar na chácara, trabalhando e escrevendo….nas noites frias em Chapada, acendo uma pequena fogueira e com um atlas astronômico, tento identificar as constelações no céu…..não sei se algo está escrito nas estrelas…


Jose Orlando Muraro Silva
Portador da Síndrome de Asperger
Morador da Gleba Monjolo

Categorias:A vida como ela é

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