JOSÉ ORLANDO MURARO: Joe Cocker fez a música da minha infância com meu pai….a música da infância de uma das minhas filhas comigo… como a gente reproduz coisas, gestos, palavras junto aos filhos e nem se dá conta… coisas boas e belas… momentos para se guardar do lado esquerdo do peito….

John Robert Cocker, o Joe Cocker  (Sheffield, 20 de maio de 1944 — Crawford, 22 de dezembro de 2014) foi um cantor britânico de rock, influenciado pela soul music no início da carreira

John Robert Cocker, o Joe Cocker (Sheffield, 20 de maio de 1944 — Crawford, 22 de dezembro de 2014) foi um cantor britânico de rock, influenciado pela soul music no início da carreira

Joe Cocker e uma pequena ajuda dos meus amigos

por José Orlando Muraro, especial para a PAGINA DO E

 

 

 

 

 

Agosto de 1969

Ourinhos (SP)

Rua Amazonas, 1240

Quando voltava do ginásio, eu vi o cara sentado bem na esquina de casa. Levantou-se e veio conversar comigo. Seu nome: Wagner, filho de D. América, negra, com o João, que era alemão. Apelido, da contração do seu nome: GUINÉ.

Era três anos mais velho do que eu e tinha uma estampa inconfundível, resultado da miscigenação das duas raças. Era alto, um nariz largo, bem negróide e um cabelo pixaim, mas era branco, quase albino e os cabelos loiros. Desta mistura de raças, o SARARÁ, era  ele o tipo mais acabado.

– teu pai assina o jornal Folha de São Paulo…

– e o Estadão de São Paulo também…   eu disse.

– teve um festival de música nos Estados Unidos…foi um arrombo total…vê se pega prá mim os cadernos culturais que falam do festival..foi muito bom…

Pegar os cadernos de Cultura dos jornais era a parte mais fácil. Duro seria explicar para o meu pai. Fui caminhando e pensando em como envolver meu pai nesta questão.

Ele era um cara bem na dele, não tinha amigos, não bebia e sempre ficava quieto, lendo jornal ou um livro. Como minha mãe e minhas irmãs falavam demais, ele inventou que era surdo. Aí as coisas ficaram mais fáceis para ele. Hoje, depois de tudo quanto aconteceu comigo, relembro todo este passado e consigo identificar que meu pai também sofria da síndrome de Asperger, talvez em um grau mais brando do que eu….

Para tirá-lo do silêncio, tinha sempre que ter um tranco, um assunto que ele se interessasse. Normalmente eu utilizava um selo postal da minha coleção e perguntava a ele quem era o cara ou o acontecimento estampado. Aí ele se soltava, falava sobre o que sabia e muitas vezes se levantava e consultava a Barsa ou a Mirador, enciclopédias. Lá pelas tantas, quando se cansava , me convidava para ir a padaria tomar  café e comer um pão com mortadela, que eu gostava. Ou íamos, de Kombi, até a estação da ferrovia da Estrada de Ferro Sorocabana, na banca, para comprar revistas.

Não era justo pegar os cadernos dos jornais sem falar com ele. Afinal, as pilhas que se amontoavam nas cadeiras, eram dele.

Esperei ele chegar do trabalho. Era servidor público municipal. Banhou, jantou, e depois, como sempre fazia, sentou-se na área, esperando a hora da novela.

Fui até ele e perguntei se ele poderia explicar por que o pugilista Cassius Clay estava preso nos Estados Unidos. Era um golpe baixo e eu sabia. Seus maiores ídolos eram, o Caril Chessman, que havia sido condenado à morte por um erro judicial, mas que havia se defendido pessoalmente, até o final,  das acusações , e publicado alguns livros e , claramente, Cassius Clay.

-Mohamed Ali…o nome dele agora é Mohamed Ali…se converteu ao islamismo na cadeia…

O tranco havia funcionado. Ele começou a contar a história do pugilista, que havia se recusado a ir lutar no Vietnã. Disse que em uma peça musical, de nome HAIR, havia uma passagem do que Clay havia dito quando foi preso: a guerra era uma coisa inventada pelos brancos contra os vermelhos (comunistas) e o governo estava convocando os negros para matar amarelos. Esta luta não era dele…

Contou sobre a ofensiva do Tet, de janeiro de 1968, quando os vietcongs desencadearam centenas de frentes de combates, e que uma guerra que os Estados Unidos davam como ganha, surgiu dentro de  outro contexto.E a sociedade norte-americana acordou para a realidade daquela guerra… que eles perderam, anos depois….

E aí ele falou sobre WOODSTOCK, o festival de música que o Guiné queria ter informação. Narrou sobre como hippies, maconheiros, alternativos, ativistas e pacifistas haviam decretado três dias de paz e amor, contra a guerra do Vietnã. 500 mil pessoas presentes….

Contei sobre o pedido do Guiné e ele se emocionou. Ficou quieto e disse:

-Separe os cadernos e leve pra ele, antes que a tua mãe toque fogo ou jogue no lixo…

Entreguei os jornais e nada aconteceu, por um ano, até meados de 1970. Um dia cheguei em casa e minha mãe disse que o Guiné tinha deixado um disco, long play de vinil preto, para eu ouvir e que depois ele passaria para buscar. Na realidade era um encarte duplo, com fotos na parte interior.

Esperei meu pai chegar do trabalho. Ele olhou e notei que procurava determina faixa, com determinado cantor ou cantora… Depois foi na radiola, um imenso móvel com rádio e vitrola, e colocou um vinil e deslocou o braço  para uma determinada faixa…

– li no jornal que este cara, um inglês, cantou no último dia do festival. Uma música dos Beatles. O que me intrigou é que a matéria dizia que ele é um branco com voz de negro….como é isto??

– Sei não….deve ser como o Guiné…

Ele riu da minha fala e a música explodiu…With a little help from may friends… não entendíamos patavina de ingles…… mas era uma bela canção… ficamos ali, ouvindo… e ouvimos somente esta canção…duas vezes…até minha mãe avisar que a telenovela ia começar…

…………

Vinte anos  depois, em 1989, estava morando em Rolim de Moura, Estado de Rondônia. Publicava um jornal, que eu mesmo vendia nos comércios. Parei na Imperatriz Móveis, e Josué, o dono, me apresentou um motorista, dizendo que o mesmo era também de Ourinhos. Quando perguntou onde morava e quem eu conhecia por lá, citei o Guiné, filho de d. América.

-Guiné morreu. Estava trabalhando em um banco, ali no Viaduto do Chá, em São Paulo. Teve uma parada cardíaca fulminante dentro da agência….

……………………..

23 de dezembro de 2014. 4:00 horas da madrugada. Fico enrolando, pois tenho de esperar até as 5, quando a padaria do Parizotto abre, para tomar café e iniciar a caminhada diária…. sem ter o que fazer, ligo o netbook… internet…hotmail…um recado da minha filha Thais:LUTO… a imagem do Joe Cocker e o texto…

Pts ele morreu L mas ele vai ser sempre a musica da Minha infância , e toda vez q escuto uma musica dele lembro de vc do tempo q sentava no teu colo e vc entre uma cerveja e outra tentava cantar as suas musicas
Inviato da iPhone

A música da minha infância com meu pai….a música da infância de uma das minhas filhas comigo… como a gente reproduz coisas, gestos, palavras junto aos filhos e nem se dá conta… coisas boas e belas… momentos para se guardar do lado esquerdo do peito….

 

 

josé muraro advogado mt

JOSE ORLANDO MURARO SILVA é advogado em Mato Grosso, fundador do jornal Pluriverso Chapadense, radicado em Chapada dos Guimarães.

 

 

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CONFIRA AGORA A LETRA DA CANÇÃO DOS BEATLES QUE JOE COCKER CONSAGROU

With a Little Help From My Friends

What would you think if I sang out of tune?
Would you stand up and walk out on me?
Lend me your ears and I’ll sing you a song
And I’ll try not to sing out of key

Oh, I get by with a little help from my friends
I get high with a little help from my friends
Gonna try with a little help from my friends

What do I do when my love is away?
(Does it worry you to be alone?)
How do I feel by the end of the day?
(Are you sad because you’re on your own?)

No, I get by with a little help from my friends
I get high with a little help from my friends
gonna try with a little help from my friends

Do you need anybody?
I need somebody to love
Could it be anybody?
I want somebody to love

Would you believe in a love at first sight?
Yes, I’m certain that it happens all the time
What do you see when you turn out the light?
I can’t tell you, but I know it’s mine

Oh, I get by with a little help from my friends
I get high with a little help from my friends
Gonna try with a little help from my friends

Do you need anybody?
I just need someone to love
Could it be anybody?
I want somebody to love

Oh, I get by with a little help from my friends
Gonna try with a little help from my friends
Oh, I get high with a little help from my friends
Yes, I get by with a little help from my friends
With a little help from my friends

Com Uma Pequena Ajuda De Meus Amigos

O que você pensaria se eu cantasse desafinado?
Você se levantaria e me abandonaria?
Me empreste suas orelhas e eu cantarei uma canção para você
E eu tentarei não cantar fora de tom

Oh, consigo com uma pequena ajuda de meus amigos
Eu vou longe com uma pequena ajuda de meus amigos
Tentarei com uma pequena ajuda de meus amigos

O que eu faço quando meu amor está longe
Te preocupa estar só?
Como eu me sinto ao final do dia?
(Você está triste porque você está sozinho?)

Não, eu consigo com uma pequena ajuda de meus amigos
Eu vou longe com uma pequena ajuda de meus amigos
Tentarei com uma pequena ajuda de meus amigos

Você precisa de alguém?
Eu preciso de alguém para amar
Pode ser qualquer pessoa?
Eu quero alguém para amar

Você acredita em amor à primeira vista?
Sim, tenho certeza que isto acontece toda hora
O que vê você quando apaga a luz?
Eu não posso te contar, mas eu sei que é meu

Oh, consigo com uma pequena ajuda de meus amigos
Eu vou longe com uma pequena ajuda de meus amigos
Tentarei com uma pequena ajuda de meus amigos

Você precisa de alguém?
Eu preciso de alguém para amar
Pode ser qualquer um?
Eu quero alguém para amar

Oh, consigo com uma pequena ajuda de meus amigos
Tentarei com uma pequena ajuda de meus amigos
Oh, eu vou longe com uma pequena ajuda de meus amigos
Sim, eu consigo com uma pequena ajuda de meus amigos
Com uma pequena ajuda de meus amigos

 

 

MAIS INFORMAÇÃO

Morte de Joe Cocker: morre aos 70 anos o músico que conseguiu muito mais que melhorar uma música dos Beatles

JOE COCKER

Joe Cocker, músico inglês que estremeceu Woodstock com sua versão de With a Little Help from My Friends, morreu hoje (22), aos 70 anos. A morte, confirmada à BBC britânica pelo agente do cantor, Barrie Marshall, tem causa ainda desconhecida. Sabe-se, no entanto, que ele sofria de câncer no pulmão.

 

É com o coração pesado que soubemos que nosso amado Joe Cocker faleceu na noite de ontem. Ele foi, sem dúvidas, a maior voz do rock/soul que veio da Grã Bretanha — e se manteve o mesmo homem por toda a vida. Imensamente talentoso — um verdadeiro astro —, mas gentil e humilde, que amava tocar. Qualquer um que tenha visto [Joe Cocker] ao vivo jamais se esquecerá dele. (…) Ele agitou Woodstock duas vezes — a primeira delas foi provavelmente uma das mais memoráveis performances do dia. Sua icônica performance de With a Little Help from My Friends continuou a emocionar públicos no decorrer das décadas — ele era simplesmente único. Tivemos a alegria de trabalhar com este homem maravilhoso por quase trinta anos. Nós o amávamos e será impossível preencher a o vazio que ele deixa em nossos corações.

Conhecido pela voz rouca e pelos movimentos de palco que mais lembravam espasmos musculares, o músico conseguiu a façanha de tornar uma música dos Beatles ainda melhor do que a versão original. Em 1968, seu cover de With a Little Help from My Friends alcançou o primeiro lugar nas paradas britânicas, o que o levou a tocá-la no Festival de Woodstock, no ano seguinte. Além disso, a canção foi tema da série de TV Anos Incríveis, no ar entre 1988 e 1993. Assim, sua versão ficou conhecida por uma geração que não estava viva para vê-lo no lendário festival.

Mas nem só de cover dos Beatles é feita a fama de Cocker. Em 1975, o hit You Are So Beautiful ficou em quinto lugar nas paradas norte-americanas. Em 1983, ele ganhou um Prêmio Grammy por Up Where We Belong, um dueto com Jennifer Warnes que chegou ao topo nos Estados Unidos e se tornou tema do filme A Força do Destino.

Em 2008, o músico recebeu a Medalha da Ordem do Império Britânico por por serviços prestados ao Reino Unido com sua obra. No mesmo ano, ocupou a posição 97 dos 100 maiores músicos de todos os tempos da revista Rolling Stone.

Musicalmente, Joe Cocker aprendeu lições do soul, da disco music do jazz, do blues, e tudo isso comparece. “Eu amava James Brown. Nós fizemos uma turnê juntos pela Europa pouco antes de ele morrer, com uma orquestra, e ambos estávamos no programa. Toda noite ele vinha ao meu show e a gente dividia o microfone. Acho que todo cantor de R&B dos Estados Unidos tem um débito para com James Brown, assim como eu tenho um débito para com Ray Charles e também para com Marvin Gaye”, ele disse, em entrevista ao Estado de S.Paulo, em 2012.

 

(Com Estadão Conteúdo)

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1 Comentário

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  1. - IP 191.179.145.236 - Responder

    Como a vida é dura, certamente, ela também é feita desses bons e significantes momentos. Linda história!

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