JOSÉ ORLANDO MURARO: Fogo na Monjolo, Chapada dos Guimarães: pode ser ruim…mas pode ser bom!

Muraro

 

Fogo na Monjolo: pode ser ruim…mas pode ser bom!

POR JOSÉ ORLANDO MURARO

 

 

É um conto russo…..talvez de Anton Tchekhov, nunca de Dostoievski…..

Acredito que seja de Tchekhov.

É mais ou menos assim….

Em um vilarejo perdido nas planícies da Rússia havia um mujique. Os mujiques eram agricultores autônomos que não aceitaram integrar as cooperativas implantadas pelos comunistas. Os kolkozes e Sovkozes.

Eram vistos com desconfiança. Pequenos burgueses, pela classificação do Partido Bolchevique. Mas a Nova Política Econômica, implantada por Lenin, permitia a sobrevivência destes mujiques.

Em pleno sistema de coletivização, os mujiques podiam ter algumas propriedades privadas.

A terra nunca. Era estatal.

Mas animais  e algumas ferramentas eram permitidas como propriedade privada. Até  certo número. Acima dele, eram confiscadas.

O mujique da estória queria comprar um cavalo, pois estava velho e não agüentava mais puxar o arado como um animal. Seu filho controlava o arado e ele, atrelado, ia puxando e revolvendo a terra.

Não tinha dinheiro para comprar um cavalo. Acabou comprando um pequeno potro, que ele decidiu esperar crescer para puxar o arado.

Era um potrinho doente, mas ele viu o que pouco viram: o peitoral era bem largo, bem maior do que os potrinhos daquela idade. Se não morresse, seria um forte cavalo.

E assim aconteceu. O potrinho transformou-se em um garanhão…..forte e sempre na lida puxando o arado.

Os vizinhos, alguns com inveja, diziam:

-Você tem muita sorte….comprou um potrinho doente que se  transformou num belo cavalo….

O mujique só respondia….

-Isto pode ser bom….ou pode ser ruim….

Certo dia o garanhão fugiu durante a noite. Por mais que o procurasse, o mujique não o encontrou.

Todos lhe diziam:

-Mas que azar…perder um cavalo daqueles…vai ter que voltar a puxar o arado…

Ele respondia:

-Isto pode ser ruim…ou pode ser bom….

Dias depois o garanhão apareceu. E trouxe três éguas selvagens com ele. Havia fugido para acasalar…mas voltou para casa….

-Mas que sorte… ganhou três éguas sem fazer esforço,  diziam seus vizinhos.

E ele respondia:

-Isto pode ser bom…ou pode ser ruim….

Tempos depois, seu filho decidiu domar uma das éguas selvagens. Caiu e foi pisoteado. Ficou manco de uma das pernas….

-Mas que azar….agora o filho pouco pode ajudar o pai….

O velho respondia:

-Isto pode ser ruim….ou pode ser bom…..

Manquejando, com dificuldades,  o jovem controlava o arado puxado pelo alazão.

Tempos depois começou a guerra e o governo convocou todos os jovens aptos para empunhar um fuzil. O filho do mujique foi dispensado.

-Mas que sorte…melhor um manco de ajudante do que nenhum….

Como sempre, ele respondia:

-Isto pode ser bom….ou pode ser ruim…..

O pequeno conto se encerra nesta altura da narrativa…..mas poderia prosseguir indefinidamente…..

Bom…os noticiários estão aí: Chapada dos Guimarães consumida pelo fogo….

Na sexta-feira, a fumaça era bem densa para os lados da Gleba Monjolo.

Sentei no bar do Wandus, pedi uma cerveja e fiquei pensando. Nada poderia fazer….era um incêndio brutal….

Pelos grupos do WhatsApps acompanhava as informações…..o fogo vinha do setor da captação de água para a cidade… para uns começou nos eucaliptos de Eliênio…outros diziam que começou na Fazenda Canopus….e acabou chegando na Gleba Monjolo…..de lá para cá. O lote de Letícia, minha filha menor,  fica bem no início do fogaréu….

E o barraquinho é feito de Eternit, inclusive as paredes. Tem muitas ferramentas lá dentro….só o calor já seria suficiente para espocar as paredes….

Nada poderia fazer…..

No sábado o drama continuou…. informações pelos grupos cada vez mais

alarmantes….

Domingo. Dia de reunião na associação da Monjolo. Fomos eu e Zé Gerônimo. Ambos preocupados com os lotes.

Zé  fez uma boa casa no lote….mas muito perto do cerrado…..assim como o barraquinho de Eternit.

Depois da reunião, fomos conferir os estragos.

Passamos pela frente do lote do João da Pimenta e seguimos pela estrada antiga, que margeia a área de preservação do córrego que serve à captação.

Por uma estrada que ele abriu no meio do seu lote, fomos subindo, torcendo para que o Gol não encalhasse na areia…. tudo queimado nas laterais da estrada.

Quando atingimos o alto do morrete pudemos ver: o outro lado não havia sido queimado. O fogo não passou ali….vimos o telhado da casa dele…ficamos felizes e aliviados.

Aí a parada dura…..o lote da Letícia…

Deixamos o carro na frente da captação e subimos, bem devagar até o barraquinho.

Tudo queimado. Ambos os lados….calcinado…só cinzas…..

Quando atingimos o topo da estrada, viramos à direita e tudo continuava queimado….fomos andando.

No aberto que o trator fez, as madeiras e palanques estavam intactos. Mesmo coberto por uma lona plástica…o fogo não atingiu aquele local.

Por entre o mato queimado, pudemos ver o barraquinho. Nos aproximamos. Estava intacto. O fogo lambeu em volta, mas não atingiu a construção.

Conferimos a caixa da energia. É de plástico e ficou um pouco danificada.

Os fios da energia que vão do padrão até o barraquinho queimaram. Ainda bem eu tinha desligado o disjuntor na última vez que ali estive. Não caiu a chave grande do transformador…..

Voltamos pela queimada. Dava para ver toda a extensão do lote. Ver longe, longe, por entre as poucas varetas que sobraram…queimadas, pretas, calcinadas….

Voltei para a cidade. Tomei duas cervejas no Wandus e fui para casa fazer o  almoço. Tinha deixado pedaços de carne de porco mergulhados no shoyo…fritei e coloquei alho, cebola, cenoura, pimenta de cheiro, abobrinha…fiz um refogado de carne de porco com legumes….ficou bom…

Deitei na rede e dormi de barriga cheia….

Lá pelas tantas acordei atarantado. Assustado. Uma idéia explodia na minha cabeça….

“A terra está pronta…você só tem que semear…”

A terra está pronta. Não fui eu o responsável pelo fogo….mas agora eu posso plantar sem ter que  tirar licença ambiental, pagar taxas da SEMA e encheção de saco até desistir….

“A terra está pronta…é só semear…”

O que estou providenciando, eu narro depois…..mas decidi plantar…milho e feijão… este é o plano A.

Tem o Plano B, mas esse eu conto depois. E tem o Plano C.

Não dá para fazer no manual. Já consegui trator, grade, arado, distribuidor de calcário e uma plantadeira de três linhas….. o que está matando é o cálculo dos custos: horas de máquinas, calcário, adubo….

Na segunda feira, conversei com o Walter, o vizinho da frente….quando disse que podemos plantar na área queimada, os olhos dele brilharam…um sorriso largo apareceu no rosto….

-agora vamos plantar….o incêndio, visto assim, não foi uma coisa ruim….

Lembrei do velho mujique do conto de Tchekhov….pode ser ruim…mas pode ser bom…. só depende do que faremos com a terra queimada…

 

 

 

 

(Chapada dos Guimarães, 11 de setembro de 2019)

José Orlando Muraro Silva

Morador da Gleba Monjolo

Chapada dos Guimarães, Mato Grosso

Portador da Síndrome de Asperger

 

Categorias:A vida como ela é

1 Comentário

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  1. - IP 189.94.111.89 - Responder

    Bom dia meu amigo.Admiro sua capacidade de pensar agir e principalmente dissertar.Vamos juntos trabalharmos.Que Deus sempre te abençoe e dê cada vez mais sabedoria.
    Jamestown
    65 98443 6995

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