JOSÉ ORLANDO MURARO e o filme-caçada a Bin Laden

A cineasta Kathryn Bigelow, primeira mulher a ganhar o Oscar por Melhor Direção, pelo filme Guerra ao Terror

Zero Dark Thirty: a caçada a Bin Laden na direção da magistral Kathryn Bigelow
Por JOSÉ ORLANDO MURARO

 

“Quem não nasceu para incomodar, deveria é ter nascido morto “

Esta frase, como todo gongorismo, maneirismos e pleonasmos, é de ninguém nada menos que Ariano Suassuna. Com ela, o romancista, dramaturgo e poeta paraibano, aos 85 anos, define toda a trajetória de uma vida…..incomodar, obrigatoriamente, não significa contestar, bater de frente, ou partir para a guerrilha, ou coisa do tipo.

Este “incomodar”  de Suassuna tem mais o sentido de permanecer nas estruturas (sociais, políticas, de poder)  mas, volta e meia, dar os seus pitacos, suas opiniões, sem que isto signifique um enfrentamento direto e brutal com o  que está estabelecido.

Antes que me esqueça, Suasuna também é advogado….tudo bem…Lenin, Ho-Chi-Ming, Neguyen Von Giap, Mahtma Gandhi e muitos outros, também o foram….

Mas a definição de Suassuna cai como uma luva para a diretora norte-americana Kathryn Bigelow. Esta mesmo: a que massacrou o ex-marido, o canadense James Cameron, na escolha do Oscar de 2010, onde com “ Guerra ao terror” ( The Hurt Loker), arrebatou seis estatuetas do Oscar, enquanto o ex, com aquela idiotice azulada do Avatar, morreu à míngua…aliás, é irritante ler que ‘La Bigelow”   é ex-mulher de Cameron, como se ela precisasse deste recurso para ser reconhecida. Cá entre nós, intelectualmente, e tecnicamente como diretora, ela é muito, muito superior àquele …

José Orlando Muraro é advogado agrarista e morador da Chapada dos Guimarães

O que me cativa é que “ La Bigelow” não manipula uma câmera de filmagem. Não…. é um scaner ou um imenso aparelho de Raio-X, em que ela desnuda a alma masculina. Não é uma visão feminista clássica, onde sempre nos condenaram por termos a praticidade da água encanada na hora
de urinarmos.

Não, não é esta a visão transmitida pelos filmes de Bigelow. Mesmo em uma questão tão complexa como a Guerra do Iraque, ela consegue captar a essência dos homens, vestidos de soldados: apenas crianças crescidas, cuja  “….a mesma  mão, que toca um violão, se for preciso, faz a guerra, mata o mundo, fere a terra…”, na canção inesquecível de Marco e Paulo Sérgio Valle ((Viola Enluarada, 1967)

Nos séculos XIX e XX, era moda de salão, as análises psicológicas dos personagens dos romances de Goethe, Proust, Dostoievski, Tolstoi, onde  se procurava entender ou capturar a essência da alma humana. Os mais à esquerda, já no final da ditadura militar, se debruçavam  sobre texto e romances de Sartre, Herman Hesse ( êta carinha porre…) e dos latinos Gabriel Garcia Marques, Juan Carlos Onetti, Ruan Rulfo, etc…

A grande falha na  cultura livresca da juventude, já no início da redemocratização, foi não termos lido Bukowski….. tudo bem, tínhamos o Nelson Rodrigues… e todo o furor provocado pelo filme  “Beijo no Asfalto” ( 1980, direção de Bruno Barreto), com Tarcísio Meira…

Acredito que, nos dias atuais, é necessário estudar a fundo a psicologia dos homens-soldados dos filmes de K. Bigelow. São crianças crescidas, sem o mínimo de consciência crítica do que fazem, jogados em uma frente de conflito, cuja única preocupação é sobreviver, pegar o bônus de guerra por não ter morrido e voltar para casa.

E este “voltar para casa” é o mais patético possível. Não voltam como Rambos, atormentados e psicologicamente destruídos. Não se adaptam mais à lógica consumista do capitalismo, mas tentam suportar e sobreviver….
E aí vem a dúvida “bigelowniana”: o título do filme em inglês é “The Hurt Locker”, intraduzível em português. Segundo a Wikipédia: “…..Os títulos do filme no Brasil e em Portugal passaram longe do significado da expressão inglesa hurt locker, que é uma situação ou período de grande sofrimento físico e emocional — locker é um armário com fechadura ou cadeado (um espaço reduzido onde alguém pode ficar preso ou ser trancado), e hurt (como adjetivo) é algo que causa dor ou sofrimento. No entanto, essa expressão não possui tradução para o português, portanto o nome do filme no Brasil e em Portugal teve de ser mudado para algo diferente…”

Em que momento se dá este sofrimento intraduzível? No cenário da guerra ou quando o tenente W. James retorna para casa?

Bigelow é o máximo. Em uma das cenas, a esposa do ex-soldado James pede a ele que pegue um pacote de cereais para o filho…e ele pára, estático, confuso, perante uma prateleira imensa com centenas de marcas de cereais….

A outra cena, paradigmática,  para mim só tem comparação com uma rodada em “Vidas Secas” ( 1963, direção de Nelson Pereira dos Santos, baseado no livro de Graciliano Ramos), onde Átila Iório  ( Fabiano) e Maria Ribeiro ( sinhá Vitória) encontram uma barraco abandonado, e na sombra com os dois filhos e a cadela Baleia, encostados em um fogão a lenha todo derroído, marido e mulher começam a falar…são dois mundos diferentes…cada qual com seus sonhos…suas angústias…seus medos….

Tal se dá também no filme The Hurt Locker: na cozinha, o ex-soldado fala sobre desarmar bombas no Iraque e a esposa, sem prestar muita a atenção, reclama que não está conseguindo cortar as cenouras…. sem entender este mundo, o soldado volta para o Iraque, para desativartar bombas…

Mas é importante situar “ La Bigelow” dentro do contexto da frase de Suassuna: ela não dirige e produz filmes underground, de contestação aberta à todos os valores da cultura norte-americana… Muito pelo contrário. Produz seus filmes fartamente regados com orçamentos milionários e apoio total dos estúdios. Lógico que existe o retorno financeiro aos investidores….afinal,  seis Oscar e a derrota acachapante que impôs aos seres azulados de Avatar são credenciais para um bom retorno financeiro….

Mas, apesar de todas as limitações e exigências impostas pelos investidores e grandes estúdios, “ La Bigelow”, sem atacar a estrutura estabelecida, “ incomoda”, e muito, o sistema bélico-militar que sustenta os sucessivos governos norte-americanos. Democratas ou republicanos, sempre acabam fazendo a guerra, matando o mundo e ferindo a terra….

Logo na primeira cena de “Guerra ao Terror” (The Hurt Locker), os soldados enviam um pequeno robô para vistoriar um pacote suspeito…e a rodinha sai do carrinho…. e os soldados brincam sobre a má qualidade dos equipamentos militares….mas a cena mais forte….a execução sumária de um prisioneiro….

Mas as críticas ao sistema bélico-militar norte –americano veio bem depois da crítica ao mesmo sistema bélico soviético. No filme “K-19-  the widowmaker”, com Harrison Ford e Lian Neeson, “La Bigelow”, em 2002, questiona toda a construção e o desastre acontecido  em 1961 com o primeiro navio soviético movido a energia nuclear ( e carregado com ogivas nucleares)…

A impressão é que a diretora foi ajustando a sua mira, até que, sete anos depois, em 2009, dispara um verdadeiro torpedo nas bases da justificação da guerra do Iraque…. mas a coisa, pelo jeito, não vai ficar somente aí…

Está previsto para 16 de dezembro, nos Estados Unidos,  o lançamento do novo filme de “La Bigelow”: Zero dark Thirty- outro título intraduzível em português, eis que seria um código com a data de ataque à casa de Osama Bin Laden, em Abbottabad, no Paquistão.

A confusão toda já começou em janeiro deste ano, quando congressistas americanos pediram uma investigação sobre as fontes de informações utilizadas pelo roteirista Mark Boal, pois são tantos e certeiros os detalhes- principalmente dos erros ocorridos durante dez anos de caçada humana- que sustentam que só poderia ter ocorrido vazamento de informação da administração Barack Hussein Obama. Para evitar que tal questão fosse utilizada pelos republicanos contra Obama nas eleições de novembro passado, tanto a diretora quanto o estúdio, decidiram lançar o filme somente em dezembro, após o pleito eleitoral.

A direita republicana alegou, em síntese, que o filme coloca em relevo ( apesar dos nomes fictícios), os agentes e soldados que participaram da operação, nos dez anos de caçada. Isto nos Estados Unidos é um crime federal severamente punido com prisão, sem direito a sursis ( a famosa Lei Patriótica).

Com certeza, esta é a primeira reação ABERTA orquestrada do sistema bélico-militar  contra os  “incômodos” provocados pelos filmes de “La Bigelow”….

Com certeza, ZERO DARK THIRTY será um filme para assistir em tela grande, imensa, devorando um grande pote de pipocas…. e conferir que Kathryn Bigelow é hoje, com toda a sua suavidade e beleza, a intelectual   mais crítica  e intelectualmente mais preparada para contestar o sistema bélico-militar norte-americano…. e as idiotices das guerras feitas pelos homens…

Jose Orlando Muraro Silva
Advogado agrarista e aluno de geologia da UFMT

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

um × dois =