JOSÉ ORLANDO MURARO, direto da Gleba Mojolo, na Chapada dos Guimarães, polemiza com o filósofo esloveno SLAVOJ ZIZEK sobre o impacto das cenas de tortura registradas por Kathryn Bigelow no filme “A Hora mais Escura”, que disputa o Oscar

Por Enock Cavalcanti em Assim caminha a Humanidade | Educação e Cultura | Idéias e questionamentos | Mundo vasto, vasto mundo - 4/02/2013 21:20

Quando os torturadores usam black-tie

POR JOSE ORLANDO MURARO

 

Estou na Gleba Monjolo. Sábado, dia 2 de fevereiro, meio –dia. Acabamos de realizar uma grande assembléia. Todos estão tranqüilos, assentados em seus  lotes rurais. Esta área, arrecadada e matriculada em nome da União federal foi usurpada por grandes grupos econômicos: BRF Brasil Foods ( antiga Sadia) Agropecuária Sagrado Tupã, fazenda Morro da Laje….mas a área foi ocupada por 200 famílias, e a Justiça Federal negou todas e quaisquer liminares de despejos a favor dos grileiros.

Assumi a organização da secretaria da Associação de Pequenos PERMACULTORES da Gleba Monjolo, a primeira do Brasil. Permacultura, uma prática de uso da terra com baixo impacto ambiental, incorporando a produção, sem retirar a cobertura vegetal do cerrado….uma experiência pioneira….

Mas algo me irrita. O jornalista Luiz Nassif enviou um texto  para o também jornalista Enock Cavalcanti. Uma crítica sobre a cineasta K. Bigelow, a quem, respeitosamente denomino de “La Bigelow”. Por sua vez, Enock redirecionou o texto para o meu correio eletrônico. Ele me provoca, quer que eu escreva. Sempre me cobra um texto, semanal, pelo menos. Não entende que os trabalhos na Gleba Monjolo consomem horas e horas do meu dia…Dane-se, ele quer um texto para a seu blogue…. ele o terá!

EM primeiro lugar, tem que se ressaltar que a crítica é sobre o último filme dirigido por la Bigelow, “A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, 2012)”, que está indicado para cinco Oscar da Academia de Cinema norte-americana. E nem Luiz Nassif,  nem Enock Cavalcanti e nem eu mesmo assistimos tal filme, que deve ser lançado esta semana ( ou na outra) no Brasil. Portanto, qualquer crítica ou aplauso de um destes três personagens será pura enganação.

Mas vamos ao texto de Slavoj Zizek, que, segundo o rodapé do artigo, “é um filósofo e escritor esloveno. É professor da European Graduate School e pesquisador sênior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. Atua como professor visitante em várias universidades dos Estados Unidos.”

Resumindo a zanga de Slavoj Zizek: ele critica que no filme de Bigelow os torturadores são pessoas normais, que hoje torturam um prisioneiro e no outro dia desfilam pelas ruas usando ternos bem recortados. Ou seja, para ele, ao se apresentar um torturador como uma pessoa normal, que apenas faz o seu trabalho, a cineasta estaria “normalizando” a tortura”, ou seja, defendendo  que a tortura é praticada por pessoas normais, bons pais de famílias, pagadores de impostos, que transam com suas esposas e comem  sandubas no Mc” Donalds…

Para este filósofo esloveno, tal apresentação de um torturador, como uma pessoa normal, que apenas faz o seu trabalho, facilita a aceitação da tortura como uma prática normal, usual, em interrogatórios, amortecendo as críticas.

Ou como ele escreve:

“ Sem sombra de dúvida, ela está aliada a uma normalização da tortura. Quando Maya, a heroína do filme, presencia pela primeira vez uma simulação de afogamento, fica um pouco chocada, mas rapidamente aprende as artimanhas; mais adiante no filme ela chantageia friamente um prisioneiro árabe , “se você não cooperar, nós lhe mandaremos para Israel”. Sua perseguição fanática atrás de Bin Laden ajuda a neutralizar escrúpulos morais comuns.

Ainda mais ameaçador é seu parceiro, um agente da CIA jovem e barbado que domina perfeitamente a arte de passar desembaraçosamente da tortura para a gentileza uma vez que a vítima está completamente desamparada (acendendo seu cigarro e lhe contando piadas).

Existe algo extremamente perturbador como, mais para frente, o este agente muda de um torturador vestindo jeans para um bem-vestido burocrata de Washington. Isto é normalização mais pura e eficiente – existe um pequeno mal-estar, mais pela sensação da tortura que pela ética, mas o trabalho tem de ser feito.”

Antes de avançar, fico a pensar: qual o estereótipo do torturador que Slavoj tem no seu imaginário? Um gigantesco russo, todo peludo, sem camisa e suado, torturando o pobre RAMBO, num deserto qualquer do Afeganistão ( Rambo III???)?

Talvez para a Eslovênia, tal imagem faça sentido. Mas cá prá nós, aqui nas Américas, tal imagem não cola.

Imaginem a cena de Slavoj conversando com o coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, o primeiro militar declarado como torturador  pela Justiça Brasileira (TJ/SP). O cara é culto. Domina o inglês, espanhol e francês. Escreveu dois livros: Rompendo o Silêncio (1985) e A Verdade Sufocada ( 2006). Tudo bem: nos porões do DOi-CODi em São Paulo era conhecido como ‘Dr. Tibiriçá”, nome em tupi, bem ao gosto de um homem culto….torturador… brutal…. mas nada a ver com o estereótipo do russo grandalhão e peludo do imaginário de Slavoj.

Voltando ao cinema nacional, que Slavoj deve desconhecer, temos a cena paradigmática do filme Prá Frente, Brasil,(1982) escrito e dirigido por Roberto Farias, estrelado por seu irmão Reginaldo Farias ( Jofre), Antônio Fagundes, Natália do Valle e Carlos Zara, no papel do torturador Barreto. Em determinado momento, os torturadores param o espancamento para assistir a uma partida de futebol, entre a seleção brasileira e a Inglaterra, pelo campeonato mundial de 1970. Comem sanduíches, dão lá seus palpites e voltam para o espancamento do preso. It´s  my job…

Da mesma forma, no filme O Que é isto, Companheiro?, filme de Bruno Barreto ( 1997) com Pedro Cardoso como o jornalista Fernando Gabeira, em uma das cenas já no final, o torturador, que usa ternos bem cortados, tranquilamente tira o paletó, dobra as mangas da camisa, descansa o cigarro na ponta da mesa, fala alguma coisa, enquanto o prisioneiro, no pau-de-arara, aguarda a pancadaria….

Tudo bem, não há de se exigir que Slavoj conheça filmes brasileiros. Mas vamos então para o cinema norte-americano: AMEAÇA TERRORISTA ( Unthinkable, 2011), dirigido por Gregor Jordan, com Samuel L Jackson, Carrie Anne Moss e Michael Sheen.

O torturador aqui também foge do estereótipo do russo-gigante-e- peludo-torturando-Rambo-no Afeganistão. Em primeiro lugar  é um negro, casado, pai de dois filhos, que ama e vive em função da sua mulher ( Rhinna, nascida na Bósnia). No contraponto, a agente do FBI,  que a todo momento reluta em assistir ou compartilhar dos atos brutais, brutais mesmo, de torturas. E o terrorista é um norte-americano, interpretado por Michael Sheen, que (lógico) se converteu ao islamismo, é casado com uma árabe-americana e tem um casal de filhos também.

Envelopando tudo isto, a ordem do general americano: isto aqui nunca existiu, nós nunca prendemos este homem, sua mulher ou seus filhos….ou seja, eles podem ser torturados e mortos….. As cenas de torturas são brutais, mas o terrorista não declara onde deixou as três bombas atômicas. A mulher do torturador chega com o lanche, eles se sentam na grama, e pela internet o torturador conversa amavelmente com seus dois filhos….normalíssimo????

Quem tiver a curiosidade, que assista o filme. É de ficar embasbacado.

Mas aqui eu volto à crítica que Slavoj Zizek lançou contra o filme dirigido por La Bigelow: ao apresentar o torturador como uma pessoa normal, ela normaliza também a tortura. It’s my job…

Ai que me preocupa de quem tem o estereótipo errado, sobre um torturador. A simples resenha que fiz demonstra que , para o torturador, um psicopata, que age por maldade, ele apenas é um servidor do Estado, da mesma forma que um soldado nazista nas portas dos fornos crematórios.

Agora vejamos a moldura do quadro. A denominada lei Patriótica dos EUA dispõe que terroristas inimigos dos EUA ( tem os amigos…) presos não têm direitos de petição aos Tribunais, não podem constituir advogados de defesa ( são dativos, nomeados pelo juiz) e não podem apresentar defesa oral nas audiências, que eles nem participam.. Isto é NORMAL??? E lá se vão ONZE LONGOS ANOS que prisioneiros são torturados em Guantânamo…

Para um país de loucos e assassinos em potencial, isto é NORMALÍSSIMO… até mesmo reeleger um débil mental como George W. Bush como presidente. Ou um negro vacilão como o Barack Obama. Então tanto faz torturar um preso e sair para comer no McDonalds, ou caminhar até uma escola e matar dezenas de crianças. Isto é normal, é aceitável, em uma sociedade podre e agonizante como a norte-americana….normalíssimo….

O que revolta Slavoj Zizek, acredito , é que La Bigelow coloca o dedo bem fundo na ferida: a tortura  é NORMAL e aceitável, e até mesmo defendida, pela maioria da população norte-americana… mas Zizek, já bem pasteurizado na convivência com a “ cultura norte–americana” da violência se horroriza: “-isto está errado. Bigelow não pode apresentar no filme o fato de que somos nós, cidadãos americanos NORMAIS quem torturamos presos, a quem negamos quaisquer dos direitos amparados pela nossa Constituição. Não, os torturadores são os russos-peludos-e suados, os mesmos que torturaram o Rambo no Afeganistão…”

Tudo bem: Zizek não é norte-americano. Só isto explica a idiotice que escreveu: torturas salvam vidas, mas perdem-se almas…. de quem? Dos torturadores…..estes, com certeza,  nunca a tiveram….

Como escrevi acima, nem eu, nem Luiz Nassif nem Enock Cavalcanti assistimos o filme A Hora Mais Escura, qualquer comentário será mera suposição. Agora, pela filmografia que discorri, dá para ficar claro que o torturador-russo-peludão-e- suado não passa de um clichê só existente na cabeça  de Slavoj ZizeK.

Vamos ao filme, na telona grande, com um imenso pacote de pipocas…. ainda em fevereiro…. e os artigos vão pipocar…Dá-lhes, Bigelow!!!!

 

 

Jose Orlando Muraro Silva

Advogado agrarista, aluno do curso  de Geologia

(UFMT) e morador em Chapada dos Guimarães

 

 

 

 

3 comentários

  • João disse:

    É isso aí meu caro Muraro você foi na jugular da questão, pois de fato a sociedade aceita e não vê como absurda a tortura. Pelo contrário ela sempre foi aceita como prática da polícia contra os presos comuns em delegacias e presídios. Tanto isso é verdade que em 10 anos de governo petralha praticamente nada foi feito em favor das vítimas atuais da tortura.

    A única atitude foi a Ministro da Justiça Eduardo Cardoso, que admitindo da sua incompetencia disse que preferia a morte a ir para as cadeias brasileiras. Quer dizer, tortura contra os anônimos, pode, o que não pode é contra os petralhas atuais e da época dos movimentos armados contra os militares.

    Mas poucos são sinceramente contra a tortura, tanto que os petralhas jamais criticam a tortura praticada em Cuba, exceto a de Guantánamo.

  • André Tréchaud disse:

    Ontem a noite comecei a assistir o filme que baixei em alta resolução “blue Ray” pela internet, confesso que até os primeiros 30 minutos eu fiquei chocado com as cenas, hoje quem sabe verei o restante das 2 horas, sim o filme tem 2:30 hs, ótima qualidade de video e som além de ser legendado, o arquivo e de 2 giga. Segue abaixo para os amigos curtirem o link do filme e seguir os procedimentos ou seja 2 arquivos rar do filme e 1 arquivinho rar da legenda.Bom carnaval a todos, abraços aos amigos e colaboradores.
    Link do filme “A hora mais escura”: http://www.telona.org/a-hora-mais-escura-dvdscr-xvid-rmvb-legendado/
    É só colar e copiar no seu navegador e bom divertimento.

  • josé disse:

    Enquanto isso nos Juizados da Capital……….

    2► Juizado Juiz Agamenon – morosidade total!!!! a informação dada pelo seu Gestor Marcos e seus assesores Marcelo etc… e que o Magistrado está ainda de férias? nossa que férias hemm rsrsr.

    3 º Juizado, nao sabemos mais quem e o juizo que se encontra atualmente, pois a Juiza Ana Cristina, segundo informações, voltou para a vara de violência doméstica forum de cuiabá, seus assessores estão comemorando!!!! porque será rsrsrsr!

    4º a Juiza Valdeci (antigo mora da serra), que alias NÃO está dando conta nem de seu proprio juizado, pois tem processo concluso para sentença e mero despacho há mais de 09 (nove) meses um absurdo!

    6º e 5º AFE Juiz Sebastião Arruda e Juiz Elinaldo dispensa comentários!!!!!!!! rasrrsrsrss so jesus na causa!

    1º Juizado de Cuiabá Juiaza Lucia estava bom, mais infeslimente agora parou de vez! Pois o segundo Magistrado Juiz Hildebrando que estava auxiliando a mesma, subiu para turma recursal unica, Porém O juiz Hildebrando na Turma ainda nao mostrou serviço , ou seja nada anda!!!! igualmente o Juiz da Turma Recursal Unica mestre Walmir este dispensa comentários rsrsr, enfim estamos a população de Cuiabá está bem servida para não dizer contrário….. Quanto mais pior! melhor!!!!! So o CNJ mesmo para dar um jeito



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