JOSÉ ORLANDO MURARO: Ante acontecimentos recentes, como o genocídio dos palestinos na Faixa de Gaza e o ressurgimento de um Estado Islâmico, com conquistas de territórios, estupros, degolas e crucificações, me sinto como o personagem de Gabriel Garcia Marques em “Memórias das minhas putas tristes”: não tenho referenciais para entender o que acontece no Mundo….. e acabo ficando sentado, olhando uma pilha de velhos livros, que nada têm para me ensinar, sobre os tempos atuais…

JOSÉ ORLANDO MURARO é advogado, fundador do jornal Pluriverso Chapadense, radicado em Chapada dos Guimarães, Mato Grosso.

JOSÉ ORLANDO MURARO é advogado, fundador do jornal Pluriverso Chapadense, radicado em Chapada dos Guimarães, Mato Grosso.

 

O Estado Islâmico e o extermínio do deus apregoado pelos cristãos

POR JOSÉ ORLANDO MURARO

 

 

Minha filha mais velha me liga:

-Pai, comprei um livro do Garcia Marques, e quando comecei a ler. Detestei…mas não posso negar…tem muito de você…passe aqui na loja para pegá-lo….

Velhos costumes nãos se perdem: trocar livros com os filhos, acostumá-los desde pequenos a garimpar nos sebos….

Na capa do livro, um velho, de costas, arqueado pelo peso da idade…como uma solitária estatueta de Giacometti….. e um título prá lá de provocativo…. Memórias das minhas putas tristes…

A raiva da minha filha já havia explodido no primeiro parágrafo do livro:

“ No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, você vai ver. Era um pouco mais nova que eu, e não sabia dela fazia tantos anos que podia muito bem estar morta. Mas no primeiro toque reconheci a voz no telefone e disparei sem preâmbulos….”

– Este livro deveria ser proibido para menores de 60 anos…. sempre irônica…a nossa herança lusitana, por parte do meu pai…

Em que pese o sonho e o desvario, o personagem de Gabriel Garcia Marques tem um aspecto que me cativou bem mais do que a minha filha poderia imaginar. O cara tem 90 anos, foi um cronista que teve notoriedade, mas que as pessoas, amigas ou inimigas, que o conheceram na sua fase áurea, estão todas mortas. A casa grande em que nasceu, após a morte dos seus pais, para sobreviver, foi vendendo aos poucos, cômodo a cômodo, até ficar somente com uma pequena sala e um banheiro…e uma pequena pilha de livros no meio da sala….. é o fim de uma vida, de uma trajetória…. o ocaso final…..

Ele não é mais referência, de nada nem para ninguém…. e não tem mais referências, que o possibilitem a entender a realidade…. e qual é a realidade para alguém com 90 anos, sem mais ninguém…. sentado em um velho sofá, contemplando uma pequena pilha de livros?
Ante os acontecimentos recentes, tais como o genocídio dos palestinos na Faixa de Gaza e o ressurgimento de um Estado Islâmico, com conquistas de territórios, estupros, degolas e crucificações, eu me sinto como o personagem de Gabo: não tenho referenciais para entender o que acontece no Mundo….. e acabo ficando sentado, olhando uma pilha de velhos livros, que nada têm para me ensinar, sobre os tempos atuais…
E aí tento entender a perspectiva, as referências dos lados em luta. E a coisa acaba tão surrealista quanto achar que você ainda será capaz, aos 90 anos de idade, de ter uma noite de sexo selvagem com uma virgem….

Noé, após o dilúvio, bebe, e um dos seus filhos, de nome Cã, vê a nudez do pai e deve ter rido ou feito alguma piada. Dois outros filhos, Sem e Jafé, entram de costas e cobrem a nudez do pai. Este, quando passa o porre, lança uma maldição contra o filho Cã e sua descendência, que serão escravos dos descendentes dos outros dois filhos. Isto está em Gênesis ( 20:25,29)

Cã ou Cam gerou a Canãa, cujos descendentes são os cananeus, que habitam na Faixa de Gaza. Então, no ano de 2120 A.C aproximadamente, Abrão, um semita (descendente de Sem) deixa a cidade de UR dos caldeus ( sumérios, na verdade) e marcha para Canaã, para cobrar a maldição feita por Noé.

Em um outro relato, Moisés, o “incircunciso de boca” ( gago ou tinha a língua presa) lidera 600 mil retirantes do Egito ( contados ‘somente os acima de 20 anos), e tenta entrar na terra prometida pela Faixa de Gaza (Sul do atual Israel), mas encontram anakins (gigantes), bem como heteus ( hititas, filhos de Hete, filho de Canaã), jebuseus, amoreus ( nas montanhas) e os cananeus ao pé do mar.

Depois de vagar pelo deserto, 40 anos depois da primeira tentativa, Moises segue pela margem oriental do Rio Jordão e entra na terra prometida pelo NORTE ( divisa com a Síria) e recomeça a reconquista. A ordem é clara: em todas as cidades conquistadas, deveriam ser mortos homens, mulheres, crianças e seus animais. Algumas vezes há uma contra-ordem: podem os invasores ficar com os animais, e, em pelo menos uma vez, com as virgens e os animais, matando-se todo o resto.

Apesar da inclemência e da crueldade dos relatos que se iniciam no capítulo 13 de Números, a consciência ocidental sempre se esquivou, alegando ser isto algo ANTIGO, do início da civilização humana.

E havia um outro fator: o Jesus que pregou um deus disposto a perdoar as transgressões dos seres humanos, um deus bem mais benevolente do que o JHVH do Pentateuco hebraico, ou antigo Testamento, como se denomina por aqui.

Mas o que se viu nesta última incursão do Exército de Israel nas terras dos cananeus não teve nada de um deus benevolente. Era a reconquista de território, que vem desde 1949, quando a ONU recriou ( depois de 1879 anos) o Estado de Israel. E com tudo aquilo que se lê em Números: passar todos à espada, e o que restar serão escravos de Israel. Não têm direito à água, nem de pescar no mar, nem de comercializar com o Egito….escravos dos descendentes de Sem….

É a extinção da teologia do deus benevolente dos cristãos…..

Por outro lado, o Islã procura o retorno às suas origens: reconquista de territórios e o extermínio dos infiéis, sempre em nome de um mesmo deus, hebraico e árabe, eis que Abrão gerou Ismael da escrava Agar ( cujos descendentes são os árabes ) e a Isaque, de Sara ( cujos descendentes são os hebreus). Um mesmo deus, inclemente.

Nem rir, nem chorar. Apenas compreender. Baruch de Spinoza, que era judeu e foi rejeitado pela sinagoga.

Sento-me, impotente, perante a pequena pilha de livros….. há o que fazer???

Vou abrir uma garrafa de cerveja bem gelada e aceitar o fato de que, no mundo atual, meus princípios, minhas referências e minha indignação não prestam para nada….. nem rir, nem chorar. Apenas beber.

Cuiabá, 28 de agosto de 2014

 

 

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