JOSÉ ANTONIO LEMOS: “Temos que cuidar do futuro de Cuiabá”

José Antônio Lemos, urbanista

“Faltaram, na campanha, propostas para construir a Cuiabá do futuro”
ENOCK CAVALCANTI
Do CENTRO OESTE POPULAR

O arquiteto José Antônio Lemos é um dos mais apaixonados ativistas da causa do urbanismo em Cuiabá. Professor da Faculdade de Arquitetura da Unic, teve papel destacado na implantação do planejamento urbano na administração pública em Mato Grosso. Por isso, fala com autoridade quando identifica a falta de aprofundamento do debate urbanístico na campanha eleitoral de 2012. Para remediar esta situação, defende a recriação do IPDU – Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Urbano de Cuiabá, extinto pela Prefeitura durante a gestão que está findando. “Temos que retomar o planejamento urbano. Não adianta apenas festejar a chegada do VLT, isso é apenas uma ponta do problema. A cidade é a nossa grande casa. É preciso que se faça um planejamento contínuo. Temos que cuidar do futuro”, defende José Antônio Lemos. Confira os principais trechos da entrevista.

CENTRO OESTE POPULAR – O senhor ficou satisfeito com os debates que se travaram, nesta eleição, em torno de Cuiabá e dos rumos do seu desenvolvimento?
JOSÉ ANTONIO LEMOS – Acho que democracia sempre é bom, todo esse debate que uma eleição provoca termina sendo enriquecedor para as pessoas e nós tivemos, no meu modo de ver, uma das melhores safras de candidatos. Tivemos seis candidatos, sendo dois grandes empresários, dois políticos, um servidor público e um sindicalista. Nós terminamos com dois grandes candidatos, o Lúdio e o Mauro. Uma coisa que sinto é que ficou faltando discutir Cuiabá como uma metrópole. Falou-se muito da província e pouco da metrópole. Fizeram muitas propostas para consertar a cidade antiga e poucas propostas para construir a cidade do futuro. Cuiabá é uma metrópole desde que foi fundada, logo depois que acabou o ouro, porque ela ficou para tomar conta de uma região muito grande no país e, hoje, essa região, que antes era um vazio econômico, é uma das regiões mais dinâmicas do planeta. Espero que essa discussão eleitoral tenha feito não só o prefeito, mas as lideranças, inclusive as civis, enxergarem que a cidade é muito maior do que nossas cabeças possam imaginar. A cidade vive essa nova realidade regional que é fantástica e precisamos entender que muitos assuntos que interessam diretamente a cidade e que são de responsabilidade do prefeito, extrapolam o limite do território municipal mas não a responsabilidade política do prefeito.

COP – Que assuntos seriam esses?
JOSÉ ANTONIO LEMOS – O aeroporto, por exemplo, fica em Várzea Grande mas é um equipamento urbano fundamental para Cuiabá, assim como é a ferrovia. Não se pode ficar nesta história do quadradinho estadual, municipal ou federal. O prefeito é o líder político do município e para Cuiabá interessa toda região que ela engloba, que envolve grande parte do Mato Grosso, o Nordeste da Bolívia, Rondônia, indo até o limite do Acre, o sul do Pará, isso tudo interessa quando temos que discutir Cuiabá. Não tem sentido um senador do Pará, colocar na lei a ferrovia Cuiabá- Santarém e isso não partir de um senador daqui. Como o atraso nesta questão do aeroporto, que a gente está vendo ser retomado aos 48 minutos do segundo tempo. A Infraero conseguiu entregar o projeto pro Governo do Estado e a licitação está saindo, faltando menos de 600 dias para a Copa. Nós não vamos resolver os problemas de saúde de Cuiabá se não tiver um hospital do Estado ou, quem sabe, até mesmo um hospital federal porque 40 por cento dos atendimentos do Pronto Socorro de Cuiabá vem do Nordeste da Bolívia, vem de Rondônia e isso é uma coisa natural, dada a grandeza da metrópole de Cuiabá.

COP – Na campanha houve pouca preocupação com o planejamento urbano. Ninguém mostrou preocupação com a extinção do IPDU.
JOSÉ ANTONIO LEMOS – Eu acho fundamental, toda cidade acima de 500 mil habitantes tem que ter um órgão de planejamento. A cidade é como um organismo vivo, se não tiver algo que controle e que organize o seu desenvolvimento, vira uma metástase. Então, é fundamental que a gente tenha mais do que o IPDU, que a gente resgate o Sistema Municipal de Planejamento Urbano. Por exemplo, aqui em Cuiabá não temos calçadas e há muito tempo a nossa legislação prevê e define até padrões de calçadas. A calçada é o patamar mínimo da civilidade e da mobilidade tão falada. O primeiro transporte de massa é o nosso pé mas, apesar da legislação, não temos calçadas, então, temos que ter um sistema eficaz de fiscalização de aplicação da legislação.

COP – O senhor está satisfeito com as obras que estão sendo implantadas na preparação para a Copa do Mundo de 2014?
JOSÉ ANTONIO LEMOS – Sou entusiasta da Copa. Imagino até que esse foi um artifício do Bom Jesus de Cuiabá para dar um choque de adrenalina na gente, um choque administrativo, de pensar na cidade, de pensar no futuro porque estamos viciados a olhar só para trás, ficamos só questionando o buraco, a falta disso, a falta daquilo, a construção da cidade velha… Temos que olhar para frente, consertar a velha mas numa perspectiva da cidade do futuro. A Copa é importante porque nos trouxe isso, o cuiabano discutindo o futuro, discutindo os projetos, todo mundo maravilhado. A maioria desses projetos são projetos do extinto IPDU, de dez anos atrás, quer dizer, se tivesse continuado esse trabalho de planejamento urbano, a gente teria essas obras melhor equacionadas porque essas obras que estão sendo feitas são importantes mas não vão solucionar os problemas porque naquele tempo elas resolviam, hoje já se precisa delas e de outras mais.

COP – Que outras obras seriam essas?

JOSÉ ANTONIO LEMOS – Vejo hoje que é imprescindível um projeto muito antigo da avenida parque do Barbado, ligando o Shopping Três Américas ao Shopping Pantanal. É uma ligação do Coxipó ao CPA absolutamente necessária, é um projeto que você olha pelo Google Earth parece que está saltando aos olhos e parece que teve algum problema com o Ministério Público em relação a habitações de risco. Eu acho que deixar a população de risco não é um bem para a população, acho que se tiver que ter alguma remoção que seja feita com toda a dignidade possível e o mais próximo possível para não abalar a convivência das pessoas. Não se pode deixar uma população em área de risco, principalmente em torno de córrego, porque o córrego mata e não sai nem na televisão. O rio não, o rio sobre lá em Rosário Oeste, 24 horas antes a gente já sabe. O córrego, quando cai a tempestade, sobe em duas horas, depois tá sequinho mas ele leva em enxurrada e geralmente são crianças que perdem a vida. Acho que é importante essa avenida porque vai ajudar a desafogar um importante trecho da cidade. Outra ligação que está prevista é o contorno do Rodoanel, que chamo de Contorno Oeste, que liga a Estrada da Guia ao Trevo do Lagarto, passando pelo Sucuri com uma nova ponte no Sucuri. Acho que isso teria que ser feito já porque a saída do Nortão está descendo pela Estrada da Guia, se não tiver essa ligação esse fluxo vai cair no trevo do Santa Rosa que está muito bom, muito bonito mas não foi feito pra isso, vai engarrafar. Outra obra importante hoje é essa ligação que chegamos até, com o Roberto França, a colocar placas dela, que é uma nova ponte sobre o rio Coxipó, saindo do São Gonçalo e ligando na avenida Beira Rio, direto, por que será uma salvação para a Fernando Correa. Acho que tem que se fazer outra ponte da Fernando Correa, tem que se alargar esta avenida, tem que se desapropriar, mas tudo isso não vai resolver o gargalo do trânsito. Então, você vê que se tudo isso fosse feito continuadamente você não precisaria dar esses saltos mas, de qualquer forma, acho fantástico essa coisa de chegar em casa, todo dia, e a mesa estar cheia de poeira. É porque se tem obra, se tem movimento, construção pro futuro, é como se você estivesse reformando a sua casa sem que você precise sair dela.

COP – Muita gente se inquieta com a forte especulação imobiliária que se estabeleceu em Cuiabá, a partir da confirmação da Copa de 2014. O que fazer para conter excessos?

JOSÉ ANTONIO LEMOS – “A força da grana que ergue e destrói coisas belas.” Está lá na canção do poeta. Acho que cabe ao administrador fazer com que essa força da grana construa o bem, que seja tudo organizado como em todas as nações civilizadas e também em algumas das cidades brasileiras que são organizadas em termos de planejamento, que esses interesses sejam direcionados no sentido de construir o bem comum. A verdade é que esse é o melhor momento que Cuiabá vive na sua historia. A gente tem que planejar a cidade com, no mínimo, 20 anos de horizonte. Essa região, que sempre foi uma espécie de um vazio, a gente achava que ela ia explodir de produção, na virada do século, porque nos anos 70, 80 estava vindo o pessoal para ocupar e havia um vazio começou a explodir. A gente imaginava que, na virada do século, ia ter o terceiro salto de desenvolvimento, que deveria ser o salto da qualidade porque agora vem gente com dinheiro e vem pouca gente. Agora é o inverso do que aconteceu em 70, quando veio muita gente com pouco dinheiro e nenhum apoio federal e Cuiabá cresceu sem nenhuma preparação e pulou de 60 mil habitantes para 600 mil habitantes.

fonte CENTRO OESTE POPULAR
FOTO DINALTE MIRANDA

1 Comentário

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  1. - IP 201.22.173.198 - Responder

    Sempre competente a forma do nobre cuiabano, José Antonio Lemos, de pensar resolver os problemas de nossa querida Cuiabá e incluí-la num futuro que já chegou.Parabéns para êle!!!

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