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JORNALISTA URARIANO MOTA fala do dia em que Juca Kfouri, para defender João Saldanha, foi injusto com Nelson Rodrigues

 

 

 

Juca Kfouri e Nelson Rodrigues

 

 

 

 

Juca Kfouri e Nelson Rodrigues

Por Urariano Mota *

Ontem, vi na televisão uma entrevista de Juca Kfouri a Manuel da Costa Pinto. O colunista esportivo falava do seu livro “Confesso que perdi”, um título que em si já é um achado, pela mistura de Pablo Neruda, do livro Confesso que Vivi, e Darcy Ribeiro, que falou certa vez: “eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

Juca Kfouri, numa entrevista, é imperdível. Ele chega a ser melhor que na escrita. Inteligente, com uma atenção viva que capta o sentido das palavras no ato como se fosse um violeiro repentista. Em mais de uma ocasião ele se mostra culto, maduro de experiência feito, digno, como tem sido em seu trabalho jornalístico. Muito bem. Isso posto, vamos a um dos seus erros de julgamento na entrevista.

Lá pras tantas, ele fala ao entrevistador que Nelson Rodrigues foi um ótimo cronista em seu tempo. Lamento não ter o vídeo aqui, porque cito de memória as palavras de Juca Kfouri, mas este foi o sentido da sua fala:

“Nelson Rodrigues foi um bom cronista? Vírgula. Duvido que ele teria espaço no jornal hoje. As suas crônicas teriam lugar no caderno de cultura, mas no de esportes, não. Hoje não cabe mais aquilo de ‘o tape é burro’. O que é bem diferente de João Saldanha – ele escreve para hoje. Saldanha teria lugar de destaque no caderno de esportes agora”.

Primeiro, destaco que se deve fazer uma distinção entre comentarista esportivo e cronista esportivo. Do primeiro se exige o conhecimento do esporte e o talento de falar para o grande público. Do segundo se exige primeiro o saber escrever e depois a informação esportiva. Essa divisão, bem sei, põe limites no que a prática humana confunde e supera. Mas se fôssemos separar a fórceps, diríamos que João Saldanha era o primeiro sem segundo comentarista esportivo. E Nelson Rodrigues, o primeiro no mundo da crônica esportiva. A esse elogio, talvez Nelson Rodrigues até replicasse: “Olhe esse primeiro aí. Está me chamando de Nelson, o Neandertal”,

Em segundo lugar, não é justo comparar, ou mesmo opor os personagens, mais que pessoas João Saldanha a Nelson Rodrigues. Opor e comparar fora da política, porque João Saldanha era comunista e Nelson Rodrigues um jornalista de direita. João, o João sem medo, foi um homem que entendia muito de futebol e escrevia como uma extensão da sua vida nos campos e no microfone do rádio. Já o trágico Nelson Rodrigues era um escritor, um escritor de gênio apaixonado por futebol. Nele falava mais alto o indivíduo de alta voltagem de espírito e de observações impagáveis.

Entre João Saldanha e Nelson Rodrigues devemos ficar com os dois. Em diferentes exigências da alma, eu acrescentaria. De João Saldanha lembraremos o comentarista aberto, corajoso, sincero, que corrigia no ato o locutor esportivo que gritava diante de um escanteio: “Quase, quase era gol, hem, João Saldanha?”. E ele, no ato: “Não, daquela posição a geometria condena”. Ou na sua crônica histórica sobre Garrincha no México:

“Estava muito difícil fazer gol. Poucas vezes vi um jogo disputado com tanta seriedade e respeito mútuos. Mas houve um espetáculo à parte. Mané Garrincha foi o comandante. Dirigiu os cem mil espectadores. Fazendo reagirem à medida de suas jogadas. Foi ali, naquele dia, que surgiu a gíria do ‘Olé’, tão comumente utilizada posteriormente em nossos campos. Não porque o Botafogo tivesse dado ‘Olé’ no River. Não. Foi um ‘Olé’ pessoal. De Garrincha em Vairo.

Nunca assisti a coisa igual. Só a torcida mexicana com seu traquejo de touradas poderia, de forma tão sincronizada e perfeita, dar um ‘Olé’ daquele tamanho. Toda vez que Mané parava na frente de Vairo, os espectadores mantinham-se no mais profundo silêncio. Quando Mané dava aquele seu famoso drible e deixava Vairo no chão, um coro de cem mil pessoas exclamava: ‘Ôôôôô’! O som do ‘olé’ mexicano é diferente do nosso. O deles é o típico das touradas. Começa com um ô prolongado, em tom bem grave, parecendo um vento forte, em crescendo, e termina com a sílaba ‘lé’ dita de forma rápida. Aqui é ao contrário: acentua-se mais o final ‘lé’: ‘Olééé!’ – sem separar, com nitidez, as sílabas em tom aberto.

Verdadeira festa. Num dos momentos em que Vairo estava parado em frente a Garrincha, um dos clarins dos ‘mariaches’ atacou aquele trecho da Carmem que é tocado na abertura das touradas. Quase veio abaixo o Estádio Universitário”.

E Nelson Rodrigues sobre o mesmo Garrincha, num de seus perfis imortais:

“Nos acrobatas chineses o que existe é o esforço, é a técnica, é o virtuosismo, ao passo que Garrincha é puro instinto. Possui uma riqueza instintiva que lhe dá absoluto destaque sobre os demais. Até Deus, lá do alto, há de admirar-se e há de concluir: – ‘Esse Garrincha é o maior!’. O ‘seu’ Mané não trata a bola a pontapés como fazem os outros. Não. Ele cultiva a bola, como se fosse uma orquídea rara”.

Cultivar a bola como uma orquídea rara – isso já deixou de ser futebol e penetrou na delicadeza da arte, no mesmo passo em que vemos a fina e macia pétala que se toca com a percepção da vida fugaz. Mas é uma bola. É uma crônica.

Nelson Rodrigues arrancava uma graça e humor em frases que guardavam sempre os mesmos recursos, imagens, mas que ainda assim surpreendiam. Ele na crônica escrevia à semelhança de Garrincha, que driblava para um só lado, e todos sabiam qual, mas ainda assim eram surpreendidos. Nelson usava sempre o exagero, as expressões mais despudoradas, melodramáticas, truques de circo na hipérbole, com o maior despudor e cinismo, mas ainda assim o leitor era driblado, assim como os marcadores de Garrincha. Que encanto! Com a diferença que a gente era driblado, mas não se frustrava, porque enchia o peito de felicidade.

Por que não republicam Nelson Rodrigues todas as semanas? No paraíso dos jornais, se houver, teriam lugar João Saldanha e Nelson Rodrigues na sua página de esportes. Lado a lado, mais as falas de Juca Kfouri.

* URARIANO MOTA é Jornalista do Recife. Autor dos romances “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “A mais longa juventude”. Artigo publicado originalmente no Vermelho

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LEIA, AGORA, TEXTO DE KFOURI SOBRE JOÃO SALDANHA

João Saldanha foi um brasileiro raro, destemido e carismático

 

 

Nesta segunda João Saldanha completaria 100 anos.

Acordaria cedo para voar para São Paulo onde comentaria, na Arena Corinthians, a partida de seu Botafogo.

Estaria feliz com o desempenho do time que cumpre campanhas surpreendentes desde o ano passado, mesmo com investimentos muito mais modestos que o de seus rivais.

Assim mesmo, crítico da europeização de nosso futebol, gostaria de vê-lo mais ofensivo e envolvente.

E se irritaria profundamente com a propaganda do patrocinador na camisa do Glorioso, inconformado também com as placas de publicidade em torno do gramado.

Comunista de carteirinha, não se conformaria com certas modernidades que atribuiria à queda do Muro de Berlim, oito meses antes de sua morte em Roma, em plena Copa da Itália, em julho de 1990, onde estava para trabalhar em cadeira de rodas, vítima de enfisema pulmonar, tabagista militante.

O combativo João Sem Medo não tinha dúvida sobre certos assuntos.

A invasão do Exército Vermelho na antiga Tchecoslováquia, que horrorizou muitos comunistas no mundo e no Brasil, era explicada por ele em linguagem futebolística: “Dividiu na zona do agrião tem de entrar de sola”. E “vida que segue”, um de seus bordões prediletos.

No auge da carreira como comentarista de rádio seria impossível ir ao Maracanã sem ouvi-lo, mesmo que você não quisesse. Seus comentários ecoavam estádio adentro, tamanha a popularidade que desfrutava, imenso poder de comunicação não apenas ao falar, porque também escrevia, em suas colunas no Jornal do Brasil, como falava.

Despreocupado em ser politicamente correto, não gostava nem um pouco de futebol feminino. Certa vez, numa festa do jornal Voz da Unidade, do PCB novamente legalizado depois do fim da ditadura implantada em 1964, não se fez de rogado ao ser perguntado sobre o tema: “Imagine a cena. Meu filho me apresenta a namorada, eu pergunto o que ela faz e ela me diz que é ‘zagueira do Bangu’. Não dá”, lascou, abrindo os braços e entortando a cabeça, para receber carinhosa e estrepitosa vaia de plateia majoritariamente feminina.

Leal e irreverente, Saldanha contava casos como ninguém e era capaz de falar por horas de suas fabulosas experiências mundo afora.

Sob seu comando como técnico de primeira viagem, o Botafogo ganhou o Campeonato Carioca de 1957 ao derrotar o Fluminense por 6 a 2 na decisão.

Também como treinador das “Feras do Saldanha” levou a seleção brasileira à Copa do Mundo de 1970, a do tricampeonato no México, com seis vitórias em seis jogos.

O medo da ditadura em vê-lo campeão do mundo causou sua queda, poucos meses antes do começo da Copa.

O “comentarista que o Brasil inteiro consagrou” era tão simples como explosivo, sangue gaúcho nas veias que o Rio de Janeiro transformou em carioca da gema.

Itaquera não terá hoje a alegria de recebê-lo**. Nem nós, seus órfãos, poderemos saborear a riqueza de reencontrá-lo.

Tomara que o Corinthians ganhe de seu Botafogo neste domingo.

Só para que eu possa ouvi-lo dizer mais uma vez: “Ah, seu Corinthians é nosso freguês”.

(De fato. Os cariocas têm 45 vitórias contra 36 derrotas)

* Juca Kfouri  é jornalista
** Texto publicado originalmente no blog do Juca Kfouri no domingo (2)

Fonte: Blog do autor


LEIA AGORA A ULTIMA CRONICA DE NELSON RODRIGUES E ANÁLISE DE JOSÉ ROBERTO TORERO SOBRE SUAS CRONICAS ESPORTIVAS

A última crônica de Nelson Rodrigues

A despedida do homem que mais e melhor escreveu crônicas sobre futebol não poderia ter sido diferente. A última crônica escrita por Nelson Rodrigues, como o próprio filho nos explicará abaixo, está “longe de ter sido a melhor”, mas reflete toda a paixão que Nelson tinha pelo seu Tricolor das Laranjeiras, campeão carioca de 2012.

Estivesse ainda entre nós, a vitória do Fluminense sobre o Botafogo, no Engenhão, estaria até agora sendo devorada por tricolores e amantes da boa prosa esportiva com as reflexões de Nelson Rodrigues. Naquele início de dezembro de 1980, Nelson Rodrigues, ou melhor, o “Velho”, como seu filho o tratava carinhosamente, enfrentava bravamente o último estágio da doença que o levaria para sempre. Nelson Filho soube como ninguém retratar um momento emocionante, sofrido, comovente, como o pai sempre o fez durante a vida. E não poderia ter sido de outra forma, logo após a conquista de um título pelo Fluminense.

A última crônica

Por Nelson Rodrigues Filho

“Dezembro de 1980. O Velho caminhava para a morte. Uma caminhada suave por conta de uma falência orgânica que começou pelos pulmões, desde os anos 30, e que foi se estendendo a outros órgãos, principalmente o coração.

Já ficara em coma, em São Paulo, por cerca de vinte dias, em 1974. Os médicos haviam se conformado com a irreversibilidade do processo quando seu cardiologista e amigo Stans Murad resolveu trazê-lo assim mesmo para o Rio de Janeiro, Beneficência Portuguesa. Ocorreu o milagre e, sem mais nem menos, ele abriu os olhos voltando à vida.

Em 1980, a situação havia se agravado de tal forma que se lia nos olhos dos médicos uma contagem regressiva, que, logo em seguida, se mostrou inexorável.

O Velho havia sido proibido de assistir e ouvir os jogos de futebol, claro, principalmente os do Fluminense. Não podia se emocionar.

A lucidez total não era uma constante durante o dia, até porque tomava muitos remédios que refletiam diretamente em sua cabeça. Ainda assim, acompanhava tudo o que ocorria no mundo e sabia da partida final do Fluminense contra o Vasco.

Decidi não ir ao jogo para ficar com ele que, com certeza, estaria bastante excitado e, apesar da proibição, iria procurar um radinho de pilha. Acertei em cheio. Combinamos que, obedecendo ao Dr. Murad, eu ouviria o jogo e iria lhe contando como estava indo.

Entre minúsculas sonecas, ele dava vazão à sua incrível ansiedade.

“E aí, Nelsinho, como vamos?”

Como sua noção de tempo estava diminuída, resolvi administrar meus comentários. Dizia que a partida estava equilibrada e que o Fluminense vinha bem. Eu andava pela casa emocionado, sabendo que não poderia mentir no caso de uma derrota tricolor. E o medo de que isso viesse a ocorrer?

Acabou o primeiro tempo e o 0x0 temperou nossa conversa de intervalo, eu me pautando pela discrição. Recomeçou o jogo com o equilíbrio mantido, mas o Edinho fez o gol do título, de falta. Enxugando as lágrimas, preferi ir dizendo que o Fluminense melhorava para evitar a possibilidade de uma frustração posterior. Não conseguia ficar perto dele, pois choraria as famosas lágrimas de esguicho. Voltei a andar pela casa torcendo com todas as minhas forças, ainda que supercontido, para o jogo terminar. Acabou. O Fluminense era o campeão. Faltava dizer ao Velho e, fundamentalmente, com dizê-lo. Aos poucos, fui criando o clima que me parecia correto para a grande notícia. Finalmente, cheguei ao gol e ainda demorei um pouco para que a partida “terminasse”.

Sua euforia contrastava visceralmente com suas forças. Ainda que proibido de trabalhar, escrever, puxar pela cabeça, insistiu em ir à máquina. Uma luz incontrolável o arremetia para a crônica.

Como costumava fazer, interpretava alguns momentos. Porém, a dificuldade era enorme. Fui ver o que escrevia e ele, simplesmente, errava as linhas do teclado. Não saia uma palavra inteligível.

A um tempo triste, era um espetáculo maravilhoso assistir àquele esforço hercúleo.

“Não posso deixar de escrever”, repetia.

Então combinamos que eu ia para a máquina catar meus milhos e ele ia ditando. Ainda assim, foi extremamente difícil sair uma crônica. Sua cabeça não lhe correspondia. Precisávamos tentar várias palavras para dar nexo às frases.

Custou, mas saiu. Sua última crônica, lutando contra gigantescas forças de seus remédios, veio à tona. Com certeza está longe de ter sido a melhor. As grandes metáforas, as frases retumbantes não puderam aflorar. No entanto, seu último momento como cronista esportivo ficou marcado, mais do que sempre, pela férrea determinação que norteou uma vida em que a morte foi sua vizinha constante. Aquela força, aquela luz só tinha uma explicação: a paixão lancinante pelo seu Fluminense”.

Eis a crônica ditada por Nelson Rodrigues ao filho e publicada no jornal O Globo, no dia 2 de dezembro de 1980:

Fluminense Campeão Demais

Por Nelson Rodrigues

“Amigos, em futebol, nunca houve uma vitória improvisada. Tem sido assim através dos tempos.

Foi uma doce e santa vitória. Vocês viram como aconteceu o nosso triunfo. Foi uma tarde maravilhosa.

Tudo começou há seis mil anos atrás. Vocês compreenderam? Podia ser o Flamengo, o Botafogo, o Vasco ou outro, mas estava escrito que a arrancada era tricolor.

Há quarenta anos antes do nada, Nelsinho foi chamado. E foi tão fulminante sua presença no

túnel tricolor que merecia ser carregado numa bandeja com uma maça na boca.

Amigos, os idiotas da objetividade custaram a perceber a evidência ululante, segundo a qual seríamos campeões. Eu lhes falei do Roberto Arruda. Pois o Arruda, desde o primeiro jogo do campeonato, me procurou dizendo: – “Seremos campeões”. E neste domingo, o Arruda telefonou para dizer uma única e escassa frase: – “Ninguém nos tira a vitória”.

E desde o primeiro momento do jogo, ficou claro que a vitória era tricolor. Foi 1 x 0 mas poderia ser dois ou três. O Edinho fez o gol e o Fluminense em vez de recuar para garantir o resultado partiu para cima do Vasco como um leão faminto de mais gols.

E vocês viram: nosso adversário não pode esboçar a menor reação.

Gostaria de falar dos campeões. O Fluminense tem um elenco fabuloso do goleiro ao ponta-esquerda, e só os lorpas e pascácios não veem que o futebol brasileiro está encarnado nos craques tricolores”.

……………..

A última crônica escrita por Nelson Rodrigues, com a ajuda de seu filho, foi publicada também em um livro, “O profeta tricolor”, contendo apenas crônicas sobre o seu Fluminense. A obra foi organizada por Nelson Rodrigues Filho e publicada pela Companhia das Letras em 2002.

Abaixo, uma breve crítica sobre o livro escrita por José Roberto Torero para o jornal Folha de S. Paulo, no dia 3 de agosto, revela a importância de Nelson Rodrigues para a literatura brasileira.

 

(http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/critica/ult569u822.shtml)

“Saiu um livro de Nelson Rodrigues, desta vez com crônicas sobre o Fluminense. Chama-se “O Profeta Tricolor”.

E eu, caro leitor e caríssima leitora, vos pergunto: “Um livro de Nelson Rodrigues deve ser comentado nas páginas da Ilustrada ou nas de Esporte?”. Pois eu vos respondo: “Nas da Ilustrada”.

É que suas crônicas, mais do que considerações sobre o futebol, são exercícios de ficção. Para quem discorda, é só dar uma olhada no “Aurélio”. Está lá: “Ficção: coisa imaginária, fantasia, invenção, criação”. E é isso que são as crônicas.

Nelson Rodrigues usava os jogos de futebol como mote para suas criações literárias. Assim pariu personagens míticos como o Gravatinha, o Sobrenatural de Almeida e o Profeta. E, quando a realidade não o contentava, ele a reinventava. Foi desta forma que transformou Denilson em craque de seleção (não o atacante do Betis, mas um modesto zagueiro da década de 60), jogos feios em batalhas espartanas, times medianos em exércitos imbatíveis, o Fluminense no maior clube do Brasil, ou melhor, do mundo, ou melhor ainda, do universo.

São textos de um escritor e não de um analista. Ele não fala jamais de táticas ou esquemas. Seu tema são as paixões, as vitórias e derrotas pessoais, as tragédias, as sinas. Nelson Rodrigues mostrava algo além de como foi a partida. Mostrava sua estrutura épica, suas qualidades dramáticas. Para ele tudo era obra de um destino escrito “6.000 anos atrás” e sempre havia “lágrimas de esguicho”, fossem de alegria ou tristeza. Como ele mesmo dizia: “Ai daquele que não consegue ser jamais ridículo”. Não é à toa que é o nosso melhor cronista esportivo de todos os tempos.

Este livro, organizado por Nelson Rodrigues Filho, tem algumas diferenças em relação às coletâneas anteriores publicadas pela Companhia das Letras e organizadas por Ruy Castro. Sua seleção traz apenas, ou quase apenas, crônicas relativas ao Fluminense. Ou seja, aqui não estão as melhores crônicas de Nelson, mas as mais apaixonadas. Nestes textos ele usa ainda mais hipérboles, adjetivos e metáforas do que seu leitor está acostumado. Falando apenas de seu time ele é ainda mais exagerado, ainda mais barroco.

Porém, há alguns senões. A seleção de textos poderia ser mais severa e a divisão em temas (“torcida e dirigentes”, “jogadores e técnicos”, “títulos e personagens”) acaba gerando uma leitura um tanto cansativa, pois crônicas sobre um mesmo assunto acabam ficando muito próximas. Além disso alguns pés de página com informações sobre as partidas e os campeonatos citados poderiam ser interessantes para que soubéssemos se Nelson Rodrigues errou ou não em suas previsões.

Ou talvez não. Vai ver é como ele mesmo diz: “Será que os imbecis não percebem o óbvio, isto é, que um estilista só tem deveres literários?”.

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