Pessimista na análise, otimista na ação

Por Marcelo Menna Barreto (de São Paulo), jornal Extra Classe

Pessimista na análise, otimista na ação Foto: reprodução YouTube

Muitas vezes polêmico, Juca Kfouri dispensa maiores apresentações. Um dos maiores expoentes do jornalismo esportivo do Brasil, com quase 50 anos de profissão, lança no final de setembro o Confesso que perdi, um livro de memórias instigado por Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, que convenceu o jornalista a escrever suas memórias em um almoço com Matinas Suzuki, ex-colega de Juca. Apesar de ainda se dizer em dúvidas quanto se há muita gente interessada pelas suas memórias, o certo é que Kfouri tem muita história para contar. Nesta entrevista em primeira mão para o Extra Classe (a editora ainda não começou a divulgação da obra, que se encontra em pré-venda), ele antecipa um pouco das motivações de quem, tirando a figura de Ulisses Guimaraes, da metade do século passado pra cá teve contato com praticamente todas figuras mais importantes do Brasil. Uma delas, o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, falecido em dezembro passado, com quem Juca manteve uma estreita relação de amizade desde o ato ecumênico realizado na Catedral da Sé em São Paulo, onde foi denunciado o assassinato do jornalista Wladimir Herzog nos porões do DOI-CODI paulista. De Dom Paulo, conhecido como o Cardeal da Esperança, Juca diz ser a frase final de suas memórias, “não existem derrotas definitivas para o povo”, o que, de certa forma, nos faz chegar à conclusão de que o livro não é de todo pessimista. 

Extra Classe – Por que você dá um tom pessimista ao título das suas memórias?
Juca Kfouri – Veja bem, foi proposital. A ideia que está contida aí é primeiro a ideia óbvia, básica. É olhar para a minha geração e para as minhas lutas e perceber que o Brasil de hoje é muito menos justo e equilibrado do que eu sonhava quando comecei a fazer política, quando eu era garoto, quando era adolescente, quando eu entrei na vida adulta. Especificamente na questão do futebol, são 47 anos de briga, com maus resultados, para tornar o futebol brasileiro uma coisa menos corrupta e mais racional do ponto de vista da gestão. Você poderá dizer: “não, mas pera aí, os presidentes da CBF estão na situação em que estão, mas o fato objetivo é que nós continuamos a ser um país exportador de pé de obra – no caso dos jogadores, e mão de obra, dos goleiros -, que os nossos ídolos não ficam aqui e que os problemas de corrupção permanecem inalterados e os clubes falidos, cada vez mais recorrendo à viúva”. Enfim, é nesse aspecto. Não é evidentemente um sentimento da vida pessoal. Eu sei que eu sou um jornalista bem-sucedido, tenho uma família muito legal. As coisas pessoais estão todas direitas. Não tenho queixas. Ao contrário, até tenho um padrão de vida muito melhor do que eu imaginava quando eu comecei a minha vida como jornalista. Agora, objetivamente, pensando o Brasil e pensando o futebol do Brasil, são duras derrotas. Daí a ideia subjacente é aquela velha frase do Darcy Ribeiro: “me orgulho das minhas derrotas e morreria de vergonha se estivesse ao lado dos vitoriosos”.

EC – Você fez uma amizade grande com Dom Paulo Evaristo Arns (cardeal falecido em dezembro de 2016). Chegou a dizer uma vez que nos anos de chumbo, devido a repercussão do ato ecumênico por ocasião do assassinato do jornalista Wladimir Herzog, você considerava apenas dois lugares seguros em São Paulo: o Sindicato dos Jornalistas e a Cúria Metropolitana. Dom Paulo se faz presente nessas suas memórias?
Kfouri – Sem dúvida nenhuma! E a última frase do livro é dele: “não existem derrotas definitivas para o povo”.

EC – Essa frase que se refere, Dom Paulo escreveu para a Placar em um texto que ele chamou de “Pastoral ao povo corintiano”. Dom Paulo, aliás, sempre usava duas fortes expressões, tanto naqueles tempos duros, quanto depois, quando teve sua atuação perseguida pelo Vaticano, sob o comando de João Paulo II: “Coragem! Coragem! Esperança!”. Você perdeu a esperança Juca?
Kfouri – Não! Aí, me permita usar uma frase do Gramsci, “pessimista na análise, otimista na ação”. Se eu fosse pessimista eu já tinha abandonado o jornalismo há muito tempo. Tinha ido para a publicidade e ficado rico. Então, eu acredito que as coisas, não só as coisas, haverão de melhorar como também sou suficientemente razoável para admitir que o Brasil de hoje, apesar desta crise horrorosa pela qual passamos, é melhor que o Brasil da minha juventude. Não temos uma ditadura militar, temos a inclusão de milhões de brasileiros que viviam na faixa da miséria em uma situação um pouco melhor. Então o país é melhor do que era, mas poderia ser muito melhor do que é. Não se deu o avanço que a gente supôs que se daria quando a gente olha para a história recente do Brasil.

EC – Em que medida entre o real e o ideal?
Kfouri – Eu digo sempre que a literatura fantástica latino-americana não dá conta de explicar o Brasil. Gabriel García Márquez, enfim, todos os fantásticos da América Latina, seriam incapazes de imaginar uma cena em que o primeiro presidente, digamos redemocratizador do país, morre antes de assumir; aí o primeiro presidente eleito em eleições diretas depois de mais de 20 anos de ditadura sofre um impeachment antes da metade do seu mandato; depois elegemos um professor, um intelectual como havia poucos no mundo como presidente de seus países e esse intelectual compra a sua reeleição, né, e depois dele temos um operário que fez um governo que fez, que incluiu tanta gente, mas que se deixa levar pelo, chamado agora (risos), presidencialismo de cooptação e permite que o Brasil continue trilhando esses caminhos da corrupção como trilhou, tudo isso de uma maneira que, realmente, eu imaginava que nós poderíamos ter evitado, né? Então é nesse aspecto.

EC – Em que difere o Juca do passado do Juca de hoje?
Kfouri – É claro que hoje há certas perguntas que me fazem, que se me fizessem em 1990 eu responderia inteiramente diferente do que eu respondo hoje. No futebol, por exemplo, se você me perguntasse em 1990 como estaria o futebol brasileiro no ano 2000, eu diria pra você, já sem as ilusões da juventude: “ó! O capitalismo vai ganhar dessa gente. O futebol é um negócio bom demais para estar na mão desses caras. Então, nós vamos ter um ‘choque de gestão’ no nosso futebol”. Parodiando Churchill, a guerra é um acontecimento importante demais para deixar na mão dos generais, não é? Então, eu achava isto. Eu achava que em 2000 nós estaríamos vivendo uma situação, digamos, semelhante à Liga da Alemanha ou à Liga Inglesa. Veja o quanto eu teria errado ou quanto eu errei ao responder assim em 1990.

EC – E quais são as tuas respostas hoje em relação ao futuro das coisas?
Kfouri – Hoje, em 2017, se você me perguntar como é que o futebol brasileiro vai estar em 2030, eu não acho que vai estar muito diferente do que está hoje. Eu tenho hoje a plena consciência de que certos processos são muito mais longos do que eu imaginava. E nesse particular, é claro, fica uma frustração pelo singelo motivo de que eu não vou ver a situação que eu sonhei. Então, digamos que isso acrescenta uma dose de ceticismo, que é absolutamente necessário, para o exercício da minha profissão. Eu não me dou mais ao direito de um otimismo desbragado, mas não sou um pessimista militante. Não sou.

EC – Na sua resposta você falou que hoje o Brasil não vive mais uma ditadura militar. Ousando um pouquinho, não acha que nós estamos entrando numa época de ditadura da toga?
Kfouri – Acho sim. Eu acho e disse isso em praça pública, antes do impeachment. Acho que nós estamos vivendo um golpe em certos sentidos pior do que o golpe militar. Porque para que o golpe militar acontecesse foi necessário o uso da força. Terrível você viver em um país em que havia tortura, em que os opositores políticos eram mortos. Hoje, nós não vivemos isso, mas nós vivemos a implantação de um regime autoritário muito mais suave, muito mais imperceptível, que foi penetrando pelas camadas até culminar em um golpe de toga, parlamentar e midiático. Isso é muito claro. E que evidentemente é um golpe no qual o capital financeiro é quem dá as cartas. E tem uma porção de seguidores para manter essa situação e para fazer com que ela fique cada vez mais sólida no Brasil. Não tenho dúvidas de que é esse o quadro em que nós vivemos.

EC – Rui Barbosa disse uma vez que o poder Judiciário é o poder que mais tem faltado à República e, de certa forma, também em 1964 o STF não se manifestou sobre a ação dos militares. Mas, voltando ao caso Herzog, em 2015 você foi absolvido em primeira instância no processo de calúnia movido pelo ex-presidente da CBF José Maria Marin, devido aos textos publicados em seu blog sobre os pronunciamentos de Marin, em 1975, que “pedia a cabeça” de Herzog (dias depois ele foi morto). Na sentença, o juiz concluiu que você buscou “não deixar a história ser esquecida”. Marin, aliás, foi preso em maio de 2015 na Suíça em investigação de corrupção da Fifa e continua respondendo processo em prisão domiciliar em Nova Iorque e pode pegar 60 anos de prisão. Mesmo assim, você continua achando que perdeu?
Kfouri – Veja bem, de fato, em primeira instância é exatamente isso que você disse. Mas em segunda instância eu fui condenado. E isso agora subiu pra Brasília. Então, as coisas não são assim tão simples. Aquilo que eu te disse: o fato do Ricardo Teixeira não poder sair do Brasil, o Marco Polo Del Nero não poder sair do Brasil, José Maria Marin estar em prisão domiciliar, ou seja, o fato de que aquelas pessoas que eu denunciei minha vida inteira viverem a situação em que estão vivendo não é o bastante ou não tem sido o bastante para que o futebol brasileiro se modernize, tanto que o Marco Polo Del Nero continua presidente da CBF, apesar de não poder sair do país.
É um absurdo! Nós vamos ter uma Copa do Mundo no ano que vem na Rússia provavelmente sem a presença do presidente da CBF, que não pode sair do país; não pode ir à Assunção, na Confederação Sul-americana de Futebol. Mas veja que nem essas lutas estão ganhas. Por causa da toga! Quem são os desembargadores no Tribunal de Justiça de São Paulo que reformaram a decisão do juiz? São desembargadores que, de alguma maneira, devem favores ao então governador de São Paulo, José Maria Marin. Não se esqueça disto. Ele durante 11 meses foi governador de São Paulo, sucedendo Paulo Maluf. As coisas são mais complicadas do que aparentam.

EC – Você, à frente da revista Placar, liderou o processo de apuração que desvendou a máfia que fraudava a loteria esportiva. Poucos dos cerca de 125 foram condenados, tendo muitos se beneficiado pela prescrição do crime. O que mudou daquela época para cá na Polícia Federal e Ministério Público, que não trabalhavam com Timings e PowerPoints?
Kfouri – (Risos) Veja você que coisa aparentemente paradoxal! Uma vez eu ouvi do Lula, pouco antes da Copa de 2014, a seguinte frase: “há três coisas no Brasil que você não pode mexer: Ministério Público, Polícia Federal e Receita Federal”. Ele ainda brincou: “maldita palavra essa: Republicano”. Para que você tenha um comportamento republicano, disse ele, e eu tive, não se pode mexer nessas três instituições. Agora, me parece inegável que a Polícia Federal progrediu sob os governos do PT. Por mais que tenha se transformado em um dos algozes do PT. Este STF que está aí, a maior parte dele, foi nomeado pelo Lula e pela Dilma. Então, você veja o que é a posição de classe! Veja o quanto a contaminação de uma visão de mundo faz com que não se exerça como deveria a toga, a investigação, os inquéritos… Aquilo que a gente assiste em Curitiba tem uma série de aspectos que, digamos, são alvissareiros; temos um Marcelo Odebrecht preso há tanto tempo. Não estão pegando apenas os corrompidos. Também estão pegando os corruptores, mas de uma maneira evidentemente seletiva. Porque você não vê nenhum Grão Tucano, por exemplo, na cadeia. Ao contrário! Você os vê em alegres convescotes com um ministro do STF, não é? Então, daí a confusa e dramática situação que nós vivemos.

EC – Lula chegou a dizer uma vez que a justiça no Brasil vai mudar quando a geração que foi incluída nas faculdades de Direito começarem a ocupar espaços no Ministério Público e no Judiciário…
Kfouri – Não tenho a menor dúvida disso. Embora eu tenha um temor, pelo o que a gente sabe: que os formados pelo PCC cheguem antes. Porque é claro que também o PCC está presente nas faculdades de Direito. Isso decorre dessa situação de absoluta ausência do Estado, em tantos e tantos lugares no país. Outro dia estava na primeira página de O Globo, não vou saber exatamente o número, mas era uma coisa assim: 370 áreas do Rio de Janeiro não estão sob o controle do Estado. Ausência absoluta do Estado! Aqui em São Paulo, quantos lugares que o Estado não entra? Quantos acordos são feitos com o PCC para diminuir a violência? Nós temos, então, também esse lado dramático, que é uma face da miséria brasileira.

Pessimista na análise, otimista na ação foto: Reprodução/YouTube

“Aqui em São Paulo, quantos lugares que o Estado não entra? Quantos acordos são feitos com o PCC para diminuir a violência? Nós temos, então, também esse lado dramático, que é uma face da miséria brasileira.”

EC – A condenação do Lula pelo juiz Sérgio Moro já era, de certa forma, uma crônica anunciada. Juristas renomados, inclusive, lançaram recentemente um livro com esse tema. Você acredita em uma possível revisão dessa sentença na segunda instância?
Kfouri – Gostaria de acreditar. Não que eu ache que o Lula não tenha cometido pecados graves de promiscuidade, mas eu até agora não vi provas suficientes para condená-lo a nove anos e meio de cadeia. Arrisco dizer que esse julgamento vai depender muito da situação política que o país se encontrar quando o veredito estiver sendo escrito. Continuando o crescimento do Lula nas pesquisas, de duas uma, ou isso apressa a condenação ou isso faz com que os juízes digam: “não, peraí, nós vamos causar uma tamanha convulsão nesse país que é melhor a gente se ater ao que está no espírito da Lei: In dubio pro reo. Se não tem provas, só tem indícios e convicções, vamos parar por aqui porque é melhor não levar adiante”.

EC – Faltou uma terceira possibilidade aí, não, Juca? A implantação do parlamentarismo…
Kfouri – Ahhhhh, sim! Como se está pretendendo. É verdade.

EC – Como foi a experiência de ser o responsável editorial da revista Playboy na época em que os homens podiam mesmo dizer com propriedade para suas namoradas e esposas que assinavam a revista por causa das entrevistas?
Kfouri – Foram duas coincidências. Uma, terrível, muito triste, e outra que acabou sendo feliz, porque fizemos de um limão uma limonada. A muito triste foi a morte repentina do fundador da Playboy no Brasil, o Mário Escobar de Andrade, um editor brilhante, que teve um enfarto fulminante aos 46 anos e que fez com que a Editora Abril me escolhesse para sucedê-lo porque esse era um sonho dele, o de trabalharmos juntos. Tão logo eu assumi a Playboy, houve o Pacote do Collor, do congelamento, e a Playboy perdeu a sua enorme capacidade de cachês milionários para as moças da capa e teve que fazer uma verdadeira reengenharia dentro da redação. E eu acabei tendo que decidir trabalhar com uma redação mais enxuta, mas podendo me valer de pagar bons freelancers e pensar capas em que a criatividade fosse maior do que o nome da moça da capa. Então foi a época que nós fizemos as trigêmeas gaúchas, a namorada do PC Farias, uma porção de coisas… E foi a época em que nós tivemos na redação Humberto Werneck, Eugênio Bucci, Nirlando Beirão e, como freelancers, Audálio Dantas, Fernando Pacheco Jordão, Ricardo Boechat, Fernando Morais. Pense em um grande nome da imprensa brasileira: colaborou com Playboy naquela época. Tiveram tempo para fazer matérias e sei lá, se hoje o que se paga ao que se considera um bom ou ótimo freelancer, até R$ 3 mil, a gente pagava 12. Realmente foi um momento de ótimo jornalismo na revista Playboy. Sem dúvida, foi.

EC – Você sempre se posicionou politicamente, sempre foi muito crítico e obsessivo em seu ofício. Enfrenta muitos processos por causa disto inclusive. Alguma vez você foi diretamente censurado no seu trabalho?
Kfouri – A única tentativa de censura que eu recebi me fez sair da Editora Abril, 25 anos depois de entrar nela. Foi quando o meu patrão, na época, Roberto Civita, determinou que eu não poderia mais criticar a CBF e o Ricardo Teixeira porque isso atrapalhava os interesses da TV Abril, que queria comprar o Campeonato Brasileiro e ouvia do Ricardo Teixeira que não podia negociar com uma empresa que tinha uma revista que a cada edição batia nele, que o denunciava. Eu pedi para fazerem as minhas contas e fui embora. Foi a única vez em 25 anos de Abril. Trabalhei durante 25 anos na Abril com absoluta liberdade, seguindo fielmente uma frase que era do próprio Roberto Civita: “nossos patrões são os nossos leitores, não são nem governos, nem anunciantes”. Eu seguia isto fielmente, dizia isso em todas as palestras que fazia para estudantes de jornalismo: que eu era um cara feliz por trabalhar em um lugar cujo patrão dizia isso.

EC – E como foi?
Kfouri – A minha frase para ele quando ele me disse: “não precisa elogiar o Ricardo Teixeira, mas pare de criticá-lo”, foi: “Roberto, você está querendo mudar as regras do jogo durante o jogo. Foi isto que eu aprendi com você. Para quem se orgulha de ter derrubado o Collor ou ajudado a derrubar o Collor, você não está entendendo que o Ricardo Teixeira é o meu Collor. Então não dá mais. Encerramos aqui”. Saí da Abril, fui para a Folha de São Paulo, fui para a CBN, fui para a TV Cultura, fui para a ESPN, nunca, nunca ninguém me fez nenhuma restrição. Nenhuma! Eu acho que quando me contratam, sabem o pacote que vem. E sabem, inclusive, que no pacote está incluso me defender na Justiça! Porque se eu dependesse de mim eu tinha falido há muito tempo. Não teria conseguido sobreviver.

EC – Então o Juca é um pacote caro?
Kfouri – É um pacote caro… e foi muito nisso que o Ricardo Teixeira apostou a vida inteira. Só dele são mais de 50 processos. O que que ele imaginava? Vai chegar uma hora que uma empresa dessas, a Folha por exemplo, vai dizer “pô, esse cara está me saindo muito caro”, né? Mas, felizmente, isso não aconteceu.

EC – Por falar em capas criativas, Juca, isso parece que também foi um dos teus fortes na Placar. Você colocou o Sócrates uma vez como “O Pensador” de Rodin.
Kfouri – Tá no livro! “O Pensador” de Rodin e de Dom Pedro I. Ele paramentado de Dom Pedro dizendo: “Se as Diretas passarem, eu fico” (risos)

EC – Apesar da Companhia da Letras ainda não ter iniciado a divulgação oficial do conteúdo do Confesso que perdi, o que mais você poderia adiantar para os leitores do Extra Classe?
Kfouri – Eu te diria isto: é um livro que procura fazer um recorte da história, da minha história como militante político, como jornalista. Nesse particular, tento tratar um retrato do que é e o que foi o Brasil nessa minha trajetória; o que foi o futebol brasileiro, conto muitos casos. Veja bem, pra você entender, esse livro nasceu de uma entrevista que eu dei para o UOL. O Luiz Schwarcz lê a entrevista e me manda um e-mail dizendo: “Juca, temos um livro de memórias aí”. Eu não me convenci que tivesse. Aí ele me convidou para almoçar. Ele, o Matinas Suzuki e eu. Matinas com quem eu já tinha trabalhado na Folha. Comecei a tentar desconstruir a ideia dele (Luiz Schwarcz), dizendo a ele que ninguém estava interessado em saber as minhas memórias. Aí o Matinas, muito ladino, sacou de um livro que ele trazia na bolsa, que era a biografia do Walter Clark, com o prefácio do Otto Lara falando sobre a importância do memorialismo. Ele leu um parágrafo, brilhante como só podia ser. Eu disse pro Matinas: “isso é sacanagem, é covardia. Vir de Otto Lara… tá bom, tá bom, me deixa pensar”. Eu confesso, não vou fazer doce, eu saí desse almoço quase convencido de que eu deveria fazer as memórias. Aí combinamos de eu ir ter um encontro com eles para arrematar a conversa lá na Companhia das Letras. Eu fui e, ao chegar, a moça da recepção me perguntou: “o senhor é fornecedor ou é autor?” (risos). Eu disse autor (risos) e já cheguei lá com a decisão tomada.

Pessimista na análise, otimista na ação Foto: Reprodução/YouTube

EC – Como foi essa decisão?
Kfouri – Tinha uma coisa, que algum tempo vinha me incomodando, que era o seguinte: em conversas, reuniões sociais, alguém me falava, contava uma história do Chico Buarque de Holanda, eu tinha uma história pra contar minha com o Chico Buarque de Holanda; se alguém falava do Pelé, obviamente eu tinha “enes” histórias pra contar do Pelé; se alguém falava do Fernando Henrique, eu tinha; se alguém falava do Lula, eu tinha. Aí eu percebi o seguinte: era melhor eu ficar quieto porque eu ia começar a passar por mentiroso. Quando eu fosse embora alguém ia dizer: “porra, mas o Juca também tem história com todo mundo”. Eu até falo isso no livro. Era, assim, um certo sentimento de Forest Gump, entendeu? É impressionante: assim que eu fui escrevendo o livro, como eu fui me dando conta que talvez – tirando doutor Ulisses Guimarães, com quem eu nunca tive nenhuma história – das figuras importantes da metade do século passado pra cá, eu, de alguma maneira, tive contato com todas elas. Ou por razões do ofício ou por razões circunstanciais. De fato é o seguinte, pra você ter uma ideia, eu comecei fazer o livro em março. Meu compromisso com a Companhia das Letras era entregar o livro em setembro, para ser lançado no começo do ano de 2018, e eu entreguei em junho, porque o livro jorrou.

EC – Como foi o processo?
Kfouri – Eu sentei e comecei a escrever no iPad e foi saindo, foi saindo, foi saindo. Eu ia mandando pra eles e eles diziam: “não é possível… para mais um pouco aqui, explora mais um pouco ali…”, mas enfim, foi de uma facilidade, de um prazer e ao mesmo tempo de alguns momentos quase beirando a depressão que realmente me surpreendeu. Eu não sabia que, a partir do momento que eu organizei uma espinha dorsal, eu tivesse tanto recheio pra essa espinha dorsal. Eu só continuo a minha dúvida se há muita gente interessada em saber das minhas memórias (risos).