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JORNALISTA GIBRAN LACHOWSKI: Termos como “protesto pacífico” e “participação de famílias inteiras” foram repetidos à exaustão como que para desviar o foco. Quando um manifestante agredia verbalmente a presidenta Dilma ou dava pauladas num cartaz do ex-presidente Lula, rapidamente havia um “remendo” na transmissão, dizendo-se que a manifestação havia sido pacífica, porém com alguns ânimos exaltados

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VENDO PELA TV

Uma “forçação” de barra só
Por Gibran Luis Lachowski

Foi uma “forçação” de barra só a cobertura de vários dos veículos da chamada ainda grande mídia quanto aos atos realizados ontem contra o governo federal. Integrantes do oligopólio midiático, como tvs Globo, Globo News, Rede TV, Band, Band News e as rádios CBN e Jovem Pan, fizeram de tudo para mascarar o que se viu evidentemente, ou seja, que os protestos tiveram bem menos gente que nas edições anteriores, em março e abril.

Também buscaram encher os atos de ares democráticos e reivindicatórios, entretanto a mobilização mais uma vez mostrou o desrespeito à regra elementar da democracia representativa, que é a de respeitar o resultado das urnas (só para lembrar: Dilma venceu; Aécio perdeu). Além do mais, não há nem mesmo denúncia formal contra a presidenta.

E o julgamento das contas de 2014 refere-se ao mandato anterior, portanto, não serve constitucionalmente de munição para uma manobra que busque o impedimento do mandato. Por fim, nos manifestos não se viu nem mesmo a nuance de um projeto de país, que levasse em conta mais justiça social e fortalecimento da democracia participativa. Viu-se mais do mesmo: contra a corrupção, contra o governo. Só.

Evitando comparações
Se em março a mídia ainda grande dizia haver mais de um milhão nas ruas e em abril cerca de 700 mil, no domingo que passou a avenida Paulista, local de maior concentração desse tipo de ato, registrou cerca de 135 mil pessoas, conforme número do Datafolha estampado em várias tarjas noticiosas. (Já a PM de São Paulo deu 350 mil. Fica difícil entender como um número pode variar tanto.)

Entretanto, a comparação numérica, que seria um critério de noticiabilidade óbvio, foi deixado de lado para que os apresentadores, comentaristas e repórteres (estes no céu – em helicópteros – ou no chão, entrevistando manifestantes) tecessem loas à disposição de quem ia às ruas pela terceira vez contra o governo.

A tentativa de minimizar o enfoque nos números era tão explícito que as equipes de cobertura atuavam como se fizessem as vezes dos próprios líderes das manifestações, tentando justificar a perda de força de mobilização. Termos como “protesto pacífico” e “participação de famílias inteiras” foram repetidos à exaustão como que para desviar o foco.

Bastava que um comentarista ou repórter menos engajado na tática publicitário-jornalística apontasse a comparação entre os atos para que a tropa de choque entrasse imediatamente expondo pensamentos do tipo “O número pode não ser tão significativo, mas o importante é que o governo precisa perceber que tem muita gente nas ruas reclamando”.

Ok! Ninguém nega que ainda sejam muitos participantes, mas jornalisticamente não se pode distorcer, camuflar, fazer malabarismos linguísticos de todos os jeitos para encobrir algo que ficou na cara.

A linha de ação de acobertamento da realidade foi seguida tão à risca que, ao menos nas três horas em que acompanhei as transmissões, das 14h às 17h, não ouvi uma única vez uma menção didática apontando quanto deu de gente na primeira mobilização, na segunda e na terceira. Evitou-se a comparação ao extremo.

A exceção ficou por conta de um dos comentaristas da CBN, Kennedy Alencar, que além de apontar os números, disse que o PSDB embarcou atrasado nos protestos, num momento em que perdem força e em que o governo federal recupera margem para negociação política e recebe apoio de movimentos sociais e sindicatos, ainda que caracterizado pela cobrança de mudança no rumo da política econômica.

Providência jornalística
Também houve intervenções providenciais de repórteres e apresentadores todas as vezes que manifestantes ultrapassavam a linha do bom senso, para não falar que transpunham o respeito à democracia. Quando um manifestante agredia verbalmente a presidenta Dilma ou dava pauladas num cartaz do ex-presidente Lula, rapidamente havia um “remendo” na transmissão, dizendo-se que a manifestação havia sido pacífica, porém com alguns ânimos exaltados.

A bomba jogada no Instituto Lula
Outra faceta da cobertura do oligopólio midiático foi, ao citar o ato pró-democracia e contra a tentativa de golpe em frente ao Instituto Lula, em São Paulo, simplesmente apagar o fato de que duas semanas atrás o local foi alvo de uma bomba. Ou seja, tentou-se eliminar o acontecimento que gerou justamente a realização da manifestação à qual se reportava.

A Jovem Pan registrou o lançamento da bomba no Instituto Lula, mas não em forma de pergunta; apenas deixou que o secretário de Transportes de São Paulo, Jilmar Tatto, mencionasse com mais ênfase o assunto. Adivinhe se depois da citação do fato o repórter perguntou como estava a investigação acerca do assunto ou qualquer coisa que o valha. Nada foi indagado.

*** Esse tipo de cobertura é um exemplo acabado do péssimo jornalismo praticado pela ainda grande mídia. Não se fala mais de técnicas sutis de omissão e descontextualização. Trata-se, cada vez mais, de distorções grotescas, ofensas sistemáticas aos procedimentos elementares da profissão. Nesse sentido, as tentativas golpistas, sejam nas ruas ou nos espaços institucionalizados, têm tanto poder destrutivo em relação à democracia quanto esse tipo de jornalismo.

 

gibran
Gibran Luis Lachowski é jornalista e professor do curso de Comunicação da Unemat/Alto Araguaia

2 Comentários

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  1. - IP 177.221.96.140 - Responder

    A esquerda biruta só entende como pacífico quando é ela quem faz o protesto, com a violência habitual dos blac blocs, queridinhos dos petralhas.

  2. - IP 191.223.185.113 - Responder

    Protestos contra as Forças Populares em Cuiabá têm a mão suja de bodes burros perigosos?

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