2012 - Mauro em campanha para prefeito de Cuiabá

2012 – Mauro em campanha para prefeito de Cuiabá

Aos céus: “...E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mauro, amém!”. Dizem que Pedro Taques arremata a oração do Pai Nosso dessa forma. Qualquer texto que se acrescentar para mostrar que o futuro político de Mauro Mendes está ao fio da navalha é jogar conversa fora. No entanto, a série precisa abordar com profundidade os pré-candidatos ao governo e Senado independentemente da suposta adaptação da poderosa oração bíblica por Taques.

A forma de rezar de Taques é sinal de ameaça real ao plano político de Mauro, mas além dela, há outros entraves apontando para o descarrilamento de sua candidatura ao governo, que durante muito tempo ocupou manchetes e foi tema de discussões políticas.

Reza de Taques e outros entraves à parte, é preciso dar nome aos bois. Mauro Mendes Ferreira tem 54 anos, nasceu em Anápolis (GO) e veio para Mato Grosso na juventude correndo atrás do curso de engenharia elétrica na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT); antes do canudo de engenheiro foi militante estudantil.

É empresário e essa atividade será focalizada após seu histórico classista e político partidário.

A presidência do Sistema Federação das Indústrias (Fiemt) caiu no colo de Mauro em 2007 e ele continuou no cargo até 2012 na condição de um dos capitães do empresariado mato-grossense. Paralelamente a isso, por um período, foi vice-presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), numa das vice-presidências que a Avenida Paulista distribui pelos estados para afagar os delegados regionais que chancelam a eternização do alto empresariado na cúpula daquela entidade que é um dos dentes do Sistema S, que suga o Brasil.

2010 - Debate em Cáceres: Magno, Silval, Mauro e Wilson Santos

2010 – Debate em Cáceres: Marcos Magno, Silval, Mauro e Wilson Santos

Em 2008 quando Blairo Maggi (PR) governava e sua administração tinha alto índice de aprovação, Mauro foi seu candidato a prefeito de Cuiabá numa dobradinha com a professora e ex-deputada estadual Verinha Araújo (PT). Essa chapa foi escolhida a dedo por Blairo, para mostrar a harmonia entre o alto empresariado e o proletariado, no caso representado pela professorinha candidata a vice-prefeita e, de quebra, para afagar Lula da Silva – que àquela época era considerado homem público-modelo. Blairo e seus candidatos deram com os burros n’água. Wilson Santos (PSDB), agora deputado estadual, com bens bloqueados, denunciado pelo Ministério Público por supostas improbidades administrativas, venceu o pleito em segundo turno com 175.038 votos (60,47%) e seu vice foi Chico Galindo (PTB). Mauro e Verinha ficaram em segundo com 114.432 votos (39,53%).

A derrota não o desmotivou. Dois anos depois Mauro continuava no palanque, mas dessa vez correndo atrás de votos para o governo. Naquela eleição ele não tinha a bênção de Blairo, que se empenhava até o último pé de soja pela eleição de seu ex-vice-governador Silval Barbosa (PMDB), o que acabou acontecendo; Silval havia assumido o Palácio Paiaguás em março daquele ano, com a renúncia de Blairo para disputar e vencer a eleição ao Senado. Em primeiro turno, com 759.805 votos (51,21%) e com Chico Daltro (PP) de vice, Silval bateu Mauro (PSB) e seu vice Otaviano Pivetta (PDT), que receberam 472.474 votos (31,85%); o terceiro colocado foi Wilson Santos (PSDB), com 245.527 votos (16,55%), que completava sua chapa com Dilceu Dal’Bosco (DEM). Detalhe: Mauro e Pivetta defenderam a candidatura de Pedro Taques (PDT) ao Senado e a recíproca foi verdadeira. Marcos Magno com seu vice José Roberto formaram a chapa partidária do PSOL ao governo em 2010. O desempenho foi acanhado: 5.771 votos (0,39%).

Mesmo acumulando duas derrotas consecutivas Mauro continuou no palanque. Em 2012, pelo PSB e em segundo turno foi eleito prefeito de Cuiabá com 169.668 votos (54,65%); seu vice foi o republicano João Malheiros. A chapa derrotada foi encabeçada pelo petista Lúdio Cabral com Francisco Faiad (PMDB) de vice – 140.798 votos (45,35%).

Considerações sobre a eleição de 2008. João Malheiros, o vice de Mauro, era deputado estadual e não tomou posse. Malheiros alegou que permanecendo na Assembleia poderia ser mais útil a Cuiabá; nos bastidores, a versão é de fazer chorar até a madrinha de batismo de Malheiros. Com 5.824 votos João Emanuel (PSD) foi o vereador mais votado; pra se avaliar seu desempenho nas urnas: o segundo foi Adevair Cabral (PDT), com 4.354 votos. Detalhe: João Emanuel à época era genro do então cacique e deputado estadual José Riva (PSD), que comandava a Assembleia e dava cartas no governo; com padrinho tão poderoso João Emanuel chegou à presidência da Câmara, mas chutou o balde de leite. Moral: sogro e genro foram condenados por improbidade e João Emanuel cumpre pena preso enquanto Riva recorre em liberdade. Arrematando 2012: Mauro recebeu a prefeitura de Chico Galindo, que a assumiu com a renúncia do titular Wilson Santos. Num efeito dominó, Galindo era deputado estadual, renunciou ao cargo para ser vice e sua cadeira foi ocupada pela suplente Vilma Moreira (PSB) – a primeira e até agora única deputada estadual negra em Mato Grosso.

 

O empresário

 

Em 2008 quando disputou a prefeitura Mauro era nome estranho ao cidadão do povo, muito embora fosse muito conhecido entre o empresariado, os barões da soja e os caciques políticos. No horário eleitoral prometia levar para a vida pública sua gestão empresarial dita de muito sucesso. Falou até em pagar 18º salário ao servidor público, a exemplo do que faria em sua empresa. Carlos Brito (PSD) candidato a prefeito com apoio de Riva, atacou Mauro num revide raivoso: Brito disse que ele (Mauro) realmente pagava, mas com dinheiro do povo, que recebia por meio de incentivos fiscais ilegais e imorais. Brito, hoje é leal servidor do alto escalão de Taques, onde também se alojaram muitos ex-luas pretas de Riva e Silval.

A empresa-âncora de Mauro era a Bimetal Indústria Metalúrgica, que em Cuiabá produzia torres de telefonia com mercado nacional e mundial. Não é fácil entender a Bimetal. A matéria-prima das torres saía das usinas em São Paulo e era trazida para Mato Grosso em carretas; aqui, transformada no produto final, era levada para a mesma São Paulo e conseguia vencer concorrentes paulistanas, sem que o elevado frete nos dois sentidos jogasse o preço nas nuvens. Era uma proeza e tanto, pois mercado empresarial não engole desafios da logística. Há quem diga que os incentivos fiscais criticados por Brito davam poder de competitividade ao produto Made in Cuiabá. À época das vacas gordas a Bimetal criava asas e vale observar que naquele período, na mesma capital do agronegócio, Mauro montou uma indústria para fabricar silos e não prosperou naquela atividade. Resumindo: Havia clientela para torres de comunicação, mas na terra da soja, do milho, do algodão e do arroz o empresário Mauro não conseguia um nicho sequer de mercado. Fica a dúvida: o negócio improvável dava lucro e o negócio viável foi por águas abaixo.

Chegou 2017 com Mauro à frente de um diversificado grupo de empresas criadas a partir da Bimetal. Naquele ano a juíza Anglizey Solivan de Oliveira, da 1ª Vara Cível de Falências, Recuperação Judicial e Cartas Precatórias de Cuiabá, chancelou a recuperação judicial da Bimetal; da Bipar Investimentos e Participações; da Bipar Energia; e da Mavi Engenharia e Construções. Esse grupo de empresas é considerado de Mauro, mas na verdade ele tem sócios nos mesmos.

Assim, Mauro perdeu o rótulo do administrador exemplar. Esse fato criou o ambiente propício para que ele ficasse na linha de tiro dos ataques feitos por prepostos de caciques políticos. Esses ataques nascem do julgamento popular distorcido, que é crítico impiedoso do político que ‘quebra’, mas costuma ser complacente com as figuras poderosas da política que enriquecem ilicitamente.

Resumo: Mauro ficou sem o discurso empresarial. Imagino que ele pense que lhe resta discurso político, o que na verdade a soma de alguns fatos deixa claro que não há mais. Isso sem falar na orquestração contra ele dentro e fora da prece de Taques.

 

O político

 

Bons tempos aqueles com Blairo Maggi

Bons tempos aqueles com Blairo Maggi

Não sei se Mauro é o político certo, mas tenho convicção que ele estava (e continua) no lugar errado e na hora imprópria.

Mauro era filiado ao PSB e sabia que se continuasse naquele partido seria engolido por Taques. Não estava errado ao pensar assim. O deputado federal Valtenir Pereira, que controlava a sigla com mão de ferro foi defenestrado e o controle partidário foi assumido por Taques, por meio do deputado estadual Max Russi, que foi integrante de seu secretariado. Diretamente Taques não participa das jogadas para seu grupo assumir controle suprapartidário.

Com o PSB congestionado Mauro teria que procurar uma sigla e foi para o DEM. Antes dessa troca partidária ele viu seu amigo Percival Muniz ser destituído da presidência regional do PPS por uma jogada de bastidores de Taques com o cacique nacional Roberto Freire. Marco Marrafon, então secretário de Educação de Taques, assumiu o partido.

As manobras de Taques para controlar o PPS e o PSB foram fulminantes. O PSDB para Mauro seria o mesmo que falar em corda na casa de enforcado. Carlos Bezerra é o MDB e pronto. Pré-candidato a govenador Wellington Fagundes dá as cartas no PREzequiel Fonseca está à frente do PP e nenhum político em sã consciência tem coragem de planejar candidatura que passe por decisão de Ezequiel. Os petistas de Ságuas Moraes bateriam a porta na cara de Mauro. Com o calendário apertando o cerco Mauro correu para o colo político de Jayme Campos no DEMfugiu do diabo tucano e entrou num inferno tão ou quase satânico como aquele do qual se esquivou.

Pela ótica do Democratas Jayme será candidato ao Senado ou ao governo. A primeira opção pode ser em dobradinha com Taques para a reeleição, apesar do domicílio comuns aos dois na grande Cuiabá, o que pesa desfavorável eleitoralmente pelo desequilíbrio regional. Na outra, Jayme sairia em busca do segundo mandato no Paiaguás (o primeiro foi entre 1991 e 1994). Existe probabilidade, nunca assumida abertamente, que Taques não seja candidato. Isso, diante dos reais resultados de pesquisas para consumo interno, onde a popularidade do governador é a mesma do treinador cujo time acaba de ser rebaixado ou eliminado.

Macaco velho, Jayme dosa na crítica a Taques, porque ou estará com ele em palanque ou precisará de sua ajuda, independentemente do desgaste que o deixa na lona. Mais macaco e mais velho ainda, Jayme ao cutucar Taques passa a imagem da candidatura de Mauro, mas isso, por duas razões estratégicas: para dourar ainda mais a fritura de Mauro e fugir de críticas precoces.

Com Jayme disputando cargo majoritário Mauro não teria espaço no DEM. Taques sabe disso e, claro, vai afagar o cacique democrata até não poder mais. Mauro entende – creio – que não teria nenhum apoio na cúpula democrata formada pelos irmãos Jayme e Júlio Campos, Dilmar Dal’Bosco, Eduardo Botelho, Mauro Savi (ora encarcerado) e Fábio Garcia – que foi seu secretário municipal e chegou à Câmara dos Deputados depois de muitas camisas suadas por seu padrinho Mauro.

Um fato alheio ao ex-prefeito de Cuiabá  pode – sem trocadilho botar pedra no caminho de Jayme, mas mesmo que tal aconteça a chance de candidatura de Mauro continuara zero. O fato: em 19 de junho de 2017 o juiz Carlos José Rondon Luz, da Justiça Eleitoral em Várzea Grande cassou o mandato da prefeita democrata Lucimar Campos e de seu vice José Hazama (PRTB), numa ação movida pelo ex-deputado estadual Pery Taborelli (PSC), que disputou a prefeitura com Lucimar e a acusou de gastos indevidos com publicidade no período eleitoral. Lucimar foi mantida no cargo e recorreu. A ação subiu ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), onde a procuradora regional eleitoral Cristina Nascimento de Mello emitiu parecer pedindo a cassação da prefeita. Numa sessão em 24 deste maio, dois magistrados votaram com a procuradora, mas o julgamento foi suspenso por conta de um pedido de vistas feito pelo desembargador Pedro Sakamoto. Não há data definida para a retomada do julgamento. Lucimar é mulher de Jayme.

Resumo: Várzea Grande à parte, Mauro caiu numa esparrela do destino. Sua candidatura virou Viúva Porcina. Avalio que mesmo implodido pelas circunstâncias o ex-prefeito de Cuiabá ainda causa urticária e calafrios em Taques. Por isso, enquanto Mauro não deixar bem claro que não tem plano político além de candidatura a deputado federal, um esquema difamatório será mantido contra ele, dentro e fora de veículos de Comunicação e das redes sociais.

Em São José dos Quatro Marcos, Mauro na jaula dos leões

Em São José dos Quatro Marcos, Mauro na jaula dos leões

Contra Mauro há algo pior do que o Comitê da Maldade, de triste lembrança, conduzido por Antero Paes de Barros. Mauro não é santo e também não há santidade do outro lado da crítica, mas como parte dos ataques aconteceu o vazamento de uma audiência marcada em 24 deste maio, para 11 de julho, na 3ª Vara da Justiça Federal, com o juiz César Augusto Bearsi, onde Mauro é réu numa ação por suposta improbidade na compra de uma mineradora em leilão judicial. Mesmo sob segredo de Justiça o caso ganhou as manchetes imediatamente após Bearsi marcar a data para o depoimento. Mauro jura inocência.

Nos meios jornalísticos circula a informação de bastidores dando conta da existência de um dossiê contra Mauro, onde ele entre outras coisas é acusado de envolvimento com Silval, por uma suposta sociedade que teria com o ex-governador. Conhecidas figuras que coabitam redes sociais defendendo Taques estariam a postos à espera do sinal para o fuzilamento moral de Mauro – algumas dessas figuras ocupam cargos comissionados no governo Taques.

Na jaula dos leões do DEM, acuado pela imprensa amiga de Taques e pelo próprio até em suas orações, Mauro é o que e pode chamar de ex-pré-candidato. Mas não é somente isso.

Mauro tem erros tanto quanto os outros políticos. Em condições normais talvez sobrevivesse politicamente a eles. Porém, frito em seu partido; na mira da imprensa empenhada no jornalismo político; e levando Taques a uma estranha prece, a possibilidade de acertar politicamente é tão remota quanto a do rio Cuiabá ao invés de correr para o Pantanal voltar para suas nascentes.

 

A prece

 

Quem vê cara não ouve oração

Quem vê cara não ouve oração

Taques só não joga pôquer porque não quer. Seu perfil é o do jogador que não move músculo da face diante do perigo nem do afago. A adaptação da prece por ele é coisa natural entre político que faz limpa-trilhos abrangente.

O governador sabe que seu desempenho eleitoral fora da grande Cuiabá será catastrófico como consequência do vácuo de seu governo. Por isso, tenta se segurar na capital e Várzea Grande, onde teoricamente estaria sua força nas urnas. Coincidentemente o território onde Taques imagina reinar também seria a principal base de Mauro. Exorcizando o fantasma Mauro, Taques teria uma reserva estratégica de votos para enfrentar a oposição que sonha chegar ao ao eixo Cuiabá-Várzea Grande com uma larga vantagem obtida em 139 municípios.

Resumindo: Mauro está acuado e num beco sem saída.

FONTE BOA MIDIA