Silval e Riva, por linhas travessas, novamente no poder

Silval e Riva, por linhas travessas, novamente no poder

Silval Barbosa e José Riva voltam a ocupar abertamente todos os espaços no governo e Assembleia Legislativa, depois de quase três anos na penumbra atuando em ambos os poderes. No primeiro é algo que ainda não se aproxima da retomada das rédeas, mas a nova situação devolve o status de poderosos a Silval e Riva. No segundo não há novidade com a volta de Guilherme Maluf à presidência, afinal, o Legislativo que se submete ao governador Pedro Taques é uma informal continuidade de suas legislaturas anteriores. Essas peças do xadrez político se movem em meio a maior crise administrativa que se tem notícia em Mato Grosso e às vésperas de um final de ano com servidores públicos apreensivos com o risco real de atraso salarial, com os poderes na incerteza da transferência ou não do duodécimo e com credores do governo de joelho rezando pra santa Edwiges em razão de um decreto de Taques que em outras palavras recria o programa Bom Pagador.

Taques viaja para a China e de lá segue para a Alemanha levando uma comitiva com dezenas de servidores. No primeiro destino a justificativa da viagem é a abertura de mercados para commodities agrícolas. No segundo a explicação fica por conta da COP 23, que é a conferência da ONU sobre mudanças climáticas.

O vice-governador Carlos Fávaro que substitui Taques deixa o cargo ao presidente da Assembleia, Eduardo Botelho (PSB), na próxima semana, e se manda para a Alemanha. Fávaro é secretário de Meio Ambiente de Mato Grosso.

Com a ausência de Taques e Fávaro o antigo grupo do ex-governador Silval Barbosa (PMDB) e do ex-deputado estadual José Riva (esteve em vários partidos), que por 20 anos controlou a Assembleia, volta ao comando político de Mato Grosso.

Botelho, que será o governador constitucional, é carne e unha com Silval e Riva. No governo de Silval empresas de Botelho (registradas em nome de parentes seus) ocuparam todos os espaços que se possa imaginar. Uma dessas empresas, a Construtora Nhambiquaras, foi uma das mais presentes nas obras de Silval, mas também deu as cartas em construções de Assembleia. Essa mesma construtora continua em alta do governo de Taques.

Além na Nhambiquaras a família de Botelho também locava veículos ao governo Silval. Na Assembleia o deputado Luiz Marinho, irmão de Botelho, era fervoroso defensor do governador. Marinho foi gravado pelo então chefe de gabinete de Silval, Sílvio Corrêa, recebendo pacoteira de dinheiro que seria pagamento de mensalinho; o acusado jura inocência.

Governo com Botelho significa administrar pelas mãos do grupo de Silval e Riva.

 

ASSEMBLEIA

O tucano Guilherme Maluf que exercerá a presidência substituindo Botelho é o terceiro na linha sucessória da Presidência da Assembleia. Porém, ele retorna ao cargo (o exerceu entre 2015 e 2016) em nome de uma jogada para evitar pressão popular sobre o Legislativo, uma vez que a soltura de Gilmar Fabris (PSD) não foi bem aceita pela população e o Ministério Público Federal (MPF) defende que o mesmo seja novamente preso.

O sucessor de Botelho é Fabris, mas o deputado alega que faz exames de saúde e não poderá substituir o colega. Fabris foi solto no dia 24 de outubro, depois de 40 dias preso por obstrução de justiça. Sua prisão foi pedida pelo MPF e concedida pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux. Fabris teria fugido de seu apartamento em Cuiabá momentos antes da chegada de agentes da Polícia Federal que cumpririam mandado de busca e apreensão de Fux, numa operação que (ainda) apura corrupção, propina e lavagem de dinheiro.

Fabris tirou o corpo fora. O segundo na linhagem da sucessão é Max Russi, que é o segundo-vice-presidente, mas Max está licenciado para exercer o cargo de secretário de Trabalho do governo Taques. O terceiro é Maluf.

Maluf é umbilicalmente ligado a Silval e Riva, muito embora ambos tenham denunciado que ele teria recebido propina, comprado votos para se eleger presidente e recebido R$ 4 milhões para intermediar a negociação para quitar uma dívida de R$ 40 milhões do programa MT Saúde com hospitais. Maluf nega.

Também contra Maluf pesa um fato gravíssimo. Quando a juíza Selma Rosane da 7ª Vara Criminal decretou a prisão preventiva do secretário de Educação do governo Taques, Permínio Pinto, também foi preso o servidor graduado e comissionado daquela secretaria, Moisés Dias, que foi assessor parlamentar de Maluf. No curso das investigações ficou evidenciado que Moisés foi plantado naquele cargo para fazer o meio-campo no esquema de corrupção que envolveria empreiteiros e figurões do governo Taques. Esse episódio chega ao presidente regional do PSDB (partido de Taques), deputado federal Nilson Leitão, que também teria chancelado a nomeação de Moisés.

A mesa diretora da Assembleia, a exceção de Maxi Russi tem uma coisa em comum: integra o grupo de Silval e Riva. Entre quatro de seus seis integrantes também há algo em comum: Maluf, Fabris, Baiano Filho e Silvano Amaral foram denunciados por Silval e Riva. Fabris e Baiano aparecem em vídeos constrangedores discutindo suposto mensalinho com Sílvio Corrêa.

DE NOVO

Enquanto Taques e Fávaro viajam para a Ásia e Europa, o grupo de Silval e Riva se reorganiza. Trata-se de um ajuntamento político suprapartidário e muito influente, pois segundo a delação de Silval à procuradora da República Vanessa Scarmagnani, homologada por Fux, e confissões espontâneas de Riva, da legislatura estadual em curso, teriam recebido mensalinho os deputados Mauro Savi, Sebastião Rezende, Fabris, José Domingos Fraga, Wagner Ramos, Adalto de Freitas, Maluf, Pedro Satélite, Dilmar Dal’Bosco, Baiano Filho, Silvano, Romoaldo Júnior e Nininho. Não se deve esquecer que Janaína Riva (PMDB) é filha de Riva; que Oscar Bezerra (PSB) é marido da ex-deputada Luciane Bezerra (PSB) atual prefeita de Juara; e que Botelho é irmão de Marinho.

A mudança temporária da cúpula do governo coincide com a quase bancarrota financeira do governo, que não consegue equilibrar receita e despesa; coincide com o escândalo da Grampolândia Pantaneira que levou vários ex-secretários de Taques para trás das grades; e com a permanência no governo do secretário de Desenvolvimento Econômico, Carlos Avalone, que é investigado por crime de lavagem de dinheiro e que foi preso pela Polícia Federal na Operação Pacenas, que apurou escândalo em obra de saneamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em Cuiabá e Várzea Grande.

A irreverência popular em Cuiabá cunhou uma frase que resume bem a realidade mato-grossense. “Taques vai pra Pequim, mas que faz o verdadeiro negócio de China é o grupo de Silval e Riva”.