Leitão, de olho no Senado

Leitão, de olho no Senado

Nesta série que focaliza os nomes que pretendem disputar o governo e o cargo de senador Nilson Leitão é o único que esteve atrás das grades. A Polícia Federal o acusou por suposto recebimento de propina na obra que seria iniciada para a construção de 40% do esgoto em Sinop, da qual foi prefeito.

Leitão é deputado federal e presidiu o PSDB regional. Forte na esfera partidária, chegou a botar em risco a sonhada candidatura do governador Pedro Taques à reeleição. Há alguns meses, nos bastidores políticos, comentava-se que Taques poderia aderir ao PPS e concorrer a novo mandato por aquela sigla, uma vez que seu correligionário Leitão insistia em se lançar ao Senado, o que poderia dificultar a eleição de dois nomes tucanos para cargos majoritários. Essa fase amplamente debatida nos bastidores passou e aparentemente ambos sairão candidatos sem se preocuparem com a prevalência tucana sobre os aliados, que poderá mata-los abraçados.

Na fase aguda nos bastidores Taques tratou de dissolver a executiva provisória do PPS, que era presidida por Percival Muniz e botou para conduzi-la seu então secretário de Educação Marco Marrafon, com as bênçãos do cacique nacional Roberto Freire, que é muito conhecido por suas estranhas jogadas partidárias que não levam em conta alguns valores, que até mesmo nas rasteiras políticas costumam ser respeitados.

Menino pobre que trocou Cassilândia em Mato Grosso do Sul pela sedutora Sinop, Nilson Aparecido Leitão, técnico contábil, entrou cedo para a política. Aos 27 anos, em 1996, conquistou mandato de vereador pelo PSDB. Em 1998 disputou uma cadeira à Assembleia Legislativa e amargou suplência, mas em 1º de junho de 1999 virou deputado estadual por força de um rodízio parlamentar regiamente pago pelo contribuinte.

Para ocupar por um curto tempo uma cadeira na Assembleia, Leitão contou com o afastamento do tucano Carlos Brito. Sua posse foi conduzida pelo presidente da Assembleia, José Riva. A comissão que o introduziu ao plenário, para o juramento de posse foi formada por Jair Mariano e Silval Barbosa. O ato foi prestigiado pela cúpula do PSDB, com a presença do vice-governador Rogério Salles e do secretário Hermes de Abreu (Justiça). Os vereadores por Sinop, José Pedro Serafini, Pascoal Hidalgo e Jorge Müller  compareceram ao ato juntamente com os prefeitos de Marcelândia, Feliz Natal e Matupá.

Empossado deputado, Leitão espalhou outdoors por sua cidade com o dizer “Sinop agora tem deputado” e uma foto gigante dele em plenário. Essa propaganda soou mal, pois antes dele o município foi representado na Assembleia por Jorge Yanai, Jorge Abreu e Ricarte de Freitas.

Em 2000 foi eleito prefeito de Sinop e em 2004 repetiu a dose. Na primeira eleição tinha a proteção do governador Dante de Oliveira; sua chapa foi formada com a candidatura de Sinéia Abreu para vice-prefeita. Sinéia é viúva de Jorge Abreu*. Na outra, enfrentou a máquina do governo que era chefiado por Blairo Maggi.

Antes da reeleição para a prefeitura Leitão foi paparicado pelo tucanato nacional. O senador paulista José Serra era ministro da Saúde de Fernando Henrique Cardoso e escolheu Sinop para oficializar sua intenção de disputar a Presidência em 2002. Em 31 de janeiro de 2002, Serra desembarcou naquela cidade acompanhado pelo líder do PSDB na Câmara, Jutahy Magalhães (BA) e o deputado federal tucano anfitrião Ricarte de Freitas. Misturando agenda de ministro com a de político Serra assinou um convênio de R$ 5,5 milhões com a prefeitura e o governo para a construção do Hospital Municipal e entregou para municípios do Nortão quatro ambulâncias, dois ônibus e quatro veículos para o combate a dengue. Sinop tinha 79.513 habitantes e carregava o incômodo de “Capital Nacional da Dengue“. O secretário municipal de Saúde, Helder Umburanas hostilizava jornalistas que cobriam a visita de Serra, demonstrando descontentamento com o rótulo pejorativo da cidade. Leitão, mais habilidoso, jogava a culpa na topografia plana de sua cidade, “a água não escoa, vai se acumulando, empoçando e dá nisso (a dengue)”, me disse.

Serra assumiu a candidatura e jogou fogueira no projeto do senador Antero Paes de Barros (PSDB) de concorrer ao governo com Janete Riva, do mesmo partido, em sua chapa. Janete é mulher de José Riva. Mesmo entusiasmado com a recepção e fazendo pose para as imagens o tucano não assumiu compromisso de concluir a pavimentação da BR-163 entre Nova Santa Helena e Santarém.

CÂMARA – Embalado com sua carreira política Leitão concorreu a deputado federal em 2010. O resultado não o abalou, muito embora seu nome não constasse entre os oito eleitos. Naquele ano a Justiça Eleitoral batia cabeça com a Lei Ficha Limpa, que não foi validada para o pleito de outubro. Mesmo sem vigência, na confusão, foram desconsiderados os 2.098 votos recebidos pelo candidato a deputado federal Willian Dias, o Tenente Willian (PTB), que disputou pela coligação Jonas Pinheiro (PSDB, DEM e PTB), o que resultou na posse de Ságuas Moraes (PT). Leitão brigou na Justiça por seus direitos e em 13 de julho de 2013 ficou com a cadeira até então ocupada por Ságuas. Em 20 de maio de 2014 assumiu a presidência da Frente Nacional da Agropecuária (FPA).

Reeleito em 2014 com 127.749 votos, Leitão foi o mais votado para o cargo naquele pleito em Mato Grosso. Foi vice-líder da Oposição na Câmara. Desde fevereiro deste ano lidera o PSDB na Câmara. Virou figura política nacional.

Preso, no embarque em Cuiabá, Leitão esconde as algemas com um paletó

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PRISÃO – Em 17 de maio de 2007 a Polícia Federal cumpriu 40 mandados de prisão e 84 de busca e apreensão em Mato Grosso, Alagoas, Bahia, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, São Paulo, Sergipe, Pernambuco e Piauí. Os mandados foram expedidos pela ministra Eliana Calmon do Superior Tribunal de Justiça e resultaram na Operação Navalha. Investigações apontaram que teriam sido desviados ao menos R$ 31 milhões na construção de obras municipais com recursos dos ministérios de Desenvolvimento, Planejamento e Gestão; Meio Ambiente; Minas e Energia; Integração Nacional; e Cidades, além do Departamento Nacional e Infraestrutura de Transportes (Dnit).

Pesava contra Leitão a suspeita que teria recebido R$ 200 mil em propina da empresa Gautama – pivô de Navalha – que executaria uma obra de Saneamento em Sinop para construir rede de esgoto e tratamento do mesmo em 40% da cidade. A sede da Gautama fica em Salvador. Agentes da Polícia Federal filmaram Leitão em Brasília com um envelope amarelo, onde estariam R$ 100 milhões que seriam antecipação de propina. O prefeito foi preso em Sinop no dia 17 de maio de 2007 e trazido para Cuiabá, de onde foi levado a Brasília no Voo 3898 da TAM (agora LATAM) para a Penitenciária da Papuda, onde permaneceu atrás das grades por quatro dias, até sua prisão ser relaxada por Eliana Calmon. A abertura do envelope não foi acompanhada pela PF. Em nome do princípio da presunção da inocência o Ministério Público Federal pediu sua soltura. Leitão nega a acusação. O delegado José Maria Fonseca, que conduziu o caso, não conversou com a imprensa. Leitão jura inocência.

Além desse caso, Leitão também esteve envolvido em outros, a exemplo do escândalo Sanguessuga ou Máfia das Ambulâncias, que ganhou as manchetes em 2006 envolvendo mais de 70 prefeitos mato-grossenses e boa parte da bancada federal. Sanguessuga foi uma vergonhosa corrupção para a compra com recursos de emendas parlamentares, de ambulâncias e unidades móveis de saúde montadas em Cuiabá pela empresa Planam. Leitão nega tal acusação.

No escândalo Sanguessuga além de Leitão, também foram denunciados os prefeitos  e ex-prefeitos Celso Banazeski (Colíder);  Adriano Pivetta (Nova Mutum); Romoaldo Júnior (Alta Floresta) e agora deputado estadual; Jesur Cassol (Campo Novo do Parecis); Ezequiel Fonseca (Reserva do Cabaçal), agora deputado federal; Maria José Borges (Dom Aquino); Aloir José Luke (Nova Guarita); Cidinho dos Santos (Nova Marilândia) e agora suplente do senador Blairo Maggi; Francelino Pedro da Silva Filho, o Francinha (Guiratinga), já falecido; Padre Antonino Cândido da Paixão (São José do Povo); Otaviano Pivetta (Lucas do Rio Verde); Roberto Carlos Barbosa (Glória D’Oeste); Lourival Carrasco (Mirassol D’Oeste); Reinaldo Tirloni (Tapurah), já falecido; Nelson de Moraes (Pedra Preta); Nelci Capitani (Colniza); Ismael dos Santos (Planalto da Serra); José Bauer (Nova Ubiratã); Onéscimo Prati (Campo Verde), já falecido; Giovane Marchetto (Marcelândia), já falecido; Olídio Pedro Bortolas (Santa Carmem); Denir Perin (Querência); Valdizete Nogueira (Jaciara); Marcelo Alonso (Nova Maringá); Antonio Domingos Debastiani (Feliz Natal); João Batista de Sá (Torixoréu);  Antônio Rodrigues da Silva, o Tonho de Menino Velho (Poxoréu), agora eminência parda do prefeito Zé Carlos do Pátio, de Rondonópolis; Marco Aurélio Fullin (Bom Jesus do Araguaia), já falecido: Joaquim Matias Valadão, o Bananeiro (Campinápolis); Hélio José do Carmo (São José do Xingu), já falecido; Gilberto Siebert (Cotriguaçu); Devair Valim (Nobres); Revelino Trevizan (Porto dos Gaúchos), Érico Piana (Primavera do Leste); Priminho Riva (Juara); Lutero Siqueira (Guarantã do Norte); Jayme Campos (Várzea Grande); Luiz Cândido de Oliveira (Terra Nova do Norte);  Pedro Alcântara (Paranaíta), já falecido; Isolete Corrêa (Brasnorte);Silda Kochemborger (Apiacás); Ilson Matinscke (Santa Rita do Trivelato), já falecido; José Miguel (Rio Branco); Roque Carrara (Nova Santa Helena); e muitos outros.

*  Jorge Abreu – Sobre o deputado Jorge Abreu e o acidente que o vitimou leiam nesta página, em page flip (no canto superior direito) o livro “Nortão BR-163 – 46 anos depois”, publicado em 2016 pelo jornalista Eduardo Gomes de Andrade sem apoio das leis de incentivos culturais.

SÉRIE

 

 

TRANSPARÊNCIA postou cinco capítulos. Os quatro anteriores podem ser acessados em:

 

1 – PPP Caipira nasce da ousadia de Pivetta

2 – Suplente de última hora chega ao Senado

3 – Riva mesmo caido derrota Taques

4 –  Páginas da vida

 

Eduardo Gomes/boamidia

FOTOS:

1 – Agência Frente Nacional da Agropecuária

2 – Maurício Barbant/Arquivo

 

Versão de Leitão

 

Neste domingo, 06, o deputado federal Nilson Leitão me ligou. Em tom respeitoso disse que havia lido o capítulo sobre ele. Sem pedir retificação e até mesmo dispensando-a Leitão observou que não houve relaxamento de sua prisão por parte da ministra Eliana Calmon,  “porque não fui réu e nem mesmo denunciado pelo MPF“. O deputado revelou que a ministra concedeu sua liberdade porque não havia embasamento para a continuidade (da medida cautelar) e que foi indenizado pelos danos sofridos.

Na conversa por telefone Leitão lembrou que logo após o episódio concedeu coletiva nacional, quando disse que “Não quero passar por vítima da Justiça do meu país, na qual acredito“. Reiterou sua inocência e debitou o fato a uma grande investigação nacional, que nivelou todos os suspeitos. Sobre a obra de saneamento, disse que não houve prejuízo para a liberação do financiamento para sua execução, “o que reforça minha inocência“.

Leitão reafirmou sua vontade de se candidatar ao Senado, disse que está preparado para o cargo e com vontade de continuar trabalhando por Mato Grosso.

Foi o primeiro telefonema que recebi de Leitão. Nunca estive em seu gabinete e em seus escritórios. Raramente o vejo em eventos, mas nunca conversamos.

A série é produzida com isenção e sem atrelamento por parte do seu autor. Para efeito de informação ao internauta, o autor votou em Leitão para deputado federal em 2014, mas sem que seu voto significasse afinidade pessoal ou fosse utilizado como gazua em nome de interesses escusos. A postagem sobre Leitão e os demais pré-candidatos continuará observando a regra do verdadeiro jornalismo.

Em nome da verdade fica a correção do texto no tocante ao relaxamento da prisão.

 

FONTE Eduardo Gomes/boamidia