Johnny Marcus: Trump, a Cultura Mundo e os seres humanos ilegais

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TRUMP E A CULTURA-MUNDO
Por Johnny Marcus

Os jornais informam que o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, “cumprirá com sua promessa de deportar milhões de imigrantes sem documentos do país, assim que assumir o cargo em 20 de janeiro”. Segundo o republicano, “o que estamos fazendo é pegar essa gente que é criminosa e suas fichas criminais, membros de gangues, traficantes, que totalizam dois, talvez três milhões. E vamos tirá-los do país e vamos fazer com que sejam presos”.

A declaração acende o sinal de alerta para aqueles que julgavam que se tratava somente de mais uma bravata para chegar à Casa Branca. Temos assim um agravante a somar-se com a delicadíssima situação dos refugiados na Alemanha e em outros países europeus. Racismo e xenofobia em alta escala.

A diversidade cultural, tão salutar para um mundo calcado em valores altruísticos, sucumbe perante uma globalização que, embora promova o acesso a bens de consumo, fecha fronteiras, privatiza lucros e produz uma legião de miseráveis. Cada vez mais escravas dentro dos ideais de liberdade prometidos pelo capitalismo, as pessoas são subtraídas de suas relações sociais, dos modos de existência e da quase totalidade das atividades humanas.

O fim da Guerra Fria não trouxe a paz esperada, mas inaugurou um novo tempo de caos (conflitos tribais, limpezas étnicas, fluxos de imigração em massa). O retumbante fracasso das políticas intervencionistas do Fundo Monetário Internacional (FMI) precipitaram países latino-americanos em um ciclo interminável de recessão. Resultado: desemprego, baixos salários e direitos trabalhistas suprimidos. O hedonismo dilui a concepção de coletivo e inaugura a fase do hiperindividualismo.

Mundo que se torna cultura; cultura que se torna mundo. Eis “A cultura-mundo” – apresentada pelos franceses Gilles Lipovetski e Jean Serroy em livro homônimo. A cultura não mais reflete o mundo, mas, de maneira planetária, o constitui. A velocidade da informação não é seguida de compreensão da realidade. Pior, a cultura acaba por imbecilizar o homem ao invés de elevá-lo, gerando seres humanos cada vez mais infantilizados. Depois do capitalismo industrial, impõem-se um capitalismo cultural, transformando áreas inteiras da vida em experiências mercantilizadas.

Uma nova simbiose entre cultura e política é configurada pela globalização, promovida à categoria hiper e o interesse superior fica em segundo plano em decisões políticas tomadas sob pressão da mídia, que abdica de sua função social e transparece, ainda que sob o simulacro da imparcialidade, suas cores político-partidárias. Venezuela em 2002 e Brasil em 2016 são exemplos inequívocos do protagonismo midiático na arena política.

Na esfera econômica, o mercado não consegue dar respostas convincentes às questões suscitadas pelos problemas criados por ele mesmo. Massacrado em sua própria terra, só resta ao cidadão comum buscar a felicidade em outro lugar. Como na canção “Vaca Estrela e Boi Fubá”, de Patativa do Assaré, sua alma lamenta: “Hoje eu tô na terra estranha e é bem triste o meu penar; mas já fui muito feliz vivendo no meu lugar”.

O deus mercado, livre de qualquer sentimento de empatia, dá de ombros para a miséria gerada por séculos de vampirismo imperialista. E quando se sentem ameaçados em sua soberania, americanos e europeus criam a esdrúxula categoria de “seres humanos ilegais”. Você pode vestir nossas marcas, ouvir nossa música, assistir nossos filmes, usufruir de nossos aparatos tecnológicos, mas não pode – sob nenhuma circunstância, comer de nossa mesa e pisar em nosso solo. O mundo faz uma perigosa curva à direita, fortalecendo o populismo reacionário e, consequência direta, intensificando o sentimento de xenofobia e ódio às minorias.

Frente a esse cenário dantesco, a eleição de Donald Trump é emblemática, pois reflete em grande medida o sentimento da classe média branca sem formação superior e diretamente afetada pela crise econômica de 2008. Crise gerada pelas próprias contradições do capitalismo, vale lembrar.

Em um mundo ideal, valeria o que está preconizado no artigo 23 da Declaração Universal dos Direitos Humanos:

“Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle”.

Ninguém deveria ter de buscar seu bem estar e da família em terra estrangeira. É obrigação do Estado proporcionar-lhe isso. É imoral que a riqueza de algumas nações seja construída em cima da miséria de outras.

E o que fazer? Qual a alternativa ao hipercapitalismo e à hiperglobalização? – provocam Lipovetski e Serroy. A seta aponta para a educação. “A escola como elemento construtor de uma nova cidadania, um novo pensar. Mescla do melhor do antigo com o melhor do novo. Repensar o papel da universidade, que atualmente limita-se a ser uma distribuidora de diplomas que, no fim das contas, terão pouca ou nenhuma utilidade para o cidadão”.

O desafio está lançado

 

Johnny Marcus é jornalista

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