gonçalves cordeiro

UM ANO DEPOIS – Amigos de Toni Bernardo ainda pedem Justiça

Toni Bernardo, estudante vindo da Guiné Bissau para a UFMT, foi assassinado em Cuiabá, há um ano. Seus matadores foram denunciados pelo MP apenas por lesão corporal

Roteiro para a lembrança de um assassinato impune
JOÃO NEGRÃO

Neste sábado, 22 de setembro de 2012, por volta das 23 horas, os candidatos a prefeito de Cuiabá – Mauro Mendes, Lúdio Cabral, Carlos Brito e Guilherme Maluf – estarão retornando de alguma atividade de campanha. É possível que se dirijam para casa, para o aconchego de suas famílias. Mas é muito provável também que irão para alguma pizzaria confabular com seus aliados e assessores mais diretos.

Neste dia 22, os juízes de Direito, os delegados de polícia e os comandantes militares estarão se espreguiçando em suas camas king size, em seus amplos sofás ou em suas redes no conforto de seus lares ou, quem sabe, em suas casas de campo na Chapada dos Guimarães ou às margens do lago do Manso. Se não o estiver, poderão estar em algum lugar curtindo um jantar familiar na avenida do CPA, na Getúlio Vargas ou na Fernando Correa. N’alguma pizzaria, talvez…

Àquela hora exatamente, o governador Silval Barbosa, os senadores da República, os deputados federais e estaduais de Mato Grosso e seus bajuladores de plantão estarão em alguma reunião social ou em articulações em prol de seus candidatos ao Palácio Alencastro ou ainda maquinando alguma investida não republicana não se sabe onde e em quê. Poderão ter escolhido uma pizzaria qualquer, num canto reservado, longe dos corredores que levam ao toalete ou ao caixa. Longe de ouvidos inconvenientes, portanto, às suas conspirações.

Feito os homens da lei e do poder em Cuiabá, a maioria dos cerca de 600 mil habitantes da capital mato-grossense estarão seguindo suas vidas normalmente. Permanecerão com em casa, colocarão os filhos para dormir, se amarão, se prepararão para sair para alguma balada, perambularão pelo Chopão, Lúcius do Caju, Chorinho, Tom Chopin ou estacionarão seus carros em algum estabelecimento do Posto Zero ou na saída para a Chapada… Ou ainda estarão comportados em alguma pizzaria, quem sabe…

A vida seguirá normalmente na noite quente de Cuiabá, com seu mormaço concomitantemente acolhedor e delirante. Nenhuma ameaça pesará sobre as cabeças de seres humanos naturalmente protegidos pela lei e pelo poder a eles investidos de um jeito ou outro. Seja pelo concurso público, pelo voto popular ou pela impunidade que os homens da lei e do poder lhes conferiram.

Será assim com os assassinos de Toni Bernardo da Silva. Higor Marcell Mendes Montenegro, Wesley Fagundes Pereira e Sérgio Marcelo Silva da Costa muito provavelmente estarão ser divertindo no calor da impunidade em algum canto de Cuiabá. Estarão eles no aconchego de seus lares, com seus pais e irmãos, com suas esposas e namoradas, com seus amigos em alguma festa de aniversário? Estarão eles sorvendo goles de cerveja para amenizar o calor de seus corpos ou para o estímulo de seus desejos incontidos? Estarão eles saboreando algum prato para lhes saciar a fome. Estarão eles n’alguma pizzaria da avenida do CPA, da Fernando Correa, da Getúlio Vargas, da Alziro Zarur ou de outro canto qualquer do bairro Boa Esperança?

Não sei dizer o que os homens que se propõem melhorar o futuro de Cuiabá, os que estão no poder e dizem fazer o melhor para Cuiabá e os que, investidos da lei, deveriam zelar pelo melhor para Cuiabá estarão fazendo ao certo por volta da meia noite deste sábado, 22 de setembro. Não sei dizer o que Higor, Wesley e Sérgio estarão degustando. Não sei se ao entornarem um gole de cerveja ou um naco de pizza boca adentro suas traqueias farão um nó, como o nó que se forma na garganta dos angustiados, arrependidos e atormentados em geral.

Irão eles se lembrar que o pontapé de um de seus sapatos foi o responsável pelo estouro da garganta de Toni Bernardo, que arrebentou sua traqueia o matou por asfixia? Não sei quais os pensamentos deverão passar pelas cabeças dos três assassinos do Toni na noite deste sábado, 22 de setembro. Mas longe daí eu sei o que se passa pela cabeça e o coração dos amigos, dos familiares e dos colegas do Toni.

Seus filhos, Mateus, Tozi e Nanda estarão tristes com a impossibilidade de conviver com o pai para sempre. Seus pais, em especial a mãe, dona Cecília, estará com aquela dor que só as mães sabem o que é a perda de um “pedaço de mim”, arrumar um quarto, colocar o prato e talheres na mesa e espreitar por portas e janelas esperando que ele apareça nem que seja para um último abraço.

Seus amigos e colegas da UFMT africanos continuarão carregando o peso do preconceito, da discriminação e do estigma de serem de um lugar que a maioria dos desinformados imagina ser berço da violência, de doenças e da pobreza. Em suas ignorâncias não sabem que a África é um continente com 55 países, que é o berço do ser humano, que deu e dá significativas contribuições para a Humanidade, mas que tem níveis diferenciados de desenvolvimento, tal qual as diferenças que existem na América, na Ásia, na Oceania e na Europa. Para os racistas e ignorantes, prevalece a cor da pele e a herança escravista, tão propalada nos livros didáticos pelos quais certamente Higor, Wesley e Sérgio “aprenderam” no ensino fundamental.

Os amigos do Toni de Cuiabá e o do resto Brasil continuarão seguindo suas vidas, mas carregando na boca o gosto amargo da injustiça e o peso nefasto da impunidade pairando ameaçadoramente sobre suas cabeças no cotidiano de seus caminhos rumo ao entretenimento, ao trabalho, à escola, a suas casas; lembrarão que este país e este mundo poderiam ser diferentes e que os desvalidos poderiam obter amparos, pois todos são dignos da vida; pois a UFMT, o MEC, o Itamaraty, o governo de Mato Grosso, a sua polícia e a sua justiça, poderiam todos zelar pela vida incondicionalmente e não se abraçar numa vergonhosa omissão e justificativas que beiram à estupidez humana.

Assim, eu sei o que se se passará pela cabeça dos amigos e colegas do Toni; o que passará pela consciência de todos cuiabanos e mato-grossenses do bem. Eu sei: estarão todos, assim como eu, se sentindo desamparados e clamando ainda por justiça, 365 dias depois de um assassinato que levou consigo a vida de mais um jovem negro, pai, filho, amigo e irmão, mas que aprofundou em nós a necessidade de lutar cada vez mais contra o racismo e a injustiça.

* João Negrão é jornalista em Brasília.

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