gonçalves cordeiro

JOÃO BOSQUO: Agora estamos sem Luiz Carlos Ribeiro, um dos homens mais completos do teatro mato-grossense, quiçá brasileiro

Luiz Carlos Ribeiro

Agora estamos sem Luiz Carlos Ribeiro, um dos homens mais completos do teatro mato-grossense, quiçá brasileiro

Conheci Luiz Carlos Ribeiro nos anos 80, quando trabalhava na Casa da Cultura de Cuiabá.  E as conversas com Luiz Carlos Ribeiro era ele ator e eu plateia, principalmente quando começava a contar histórias que iria escrever. Um roteiro completo: inicio meio e fim.

O início foi esse. O meio, entre tantos meios, entrevistas para os jornais quais trabalhei, com destaque último o DC Ilustrado, quando, além do perfil em 2015 de duas páginas; uma longa reportagem sobre o lançamento do Livro “Fica, Pedro!”, escrito em parceria com Flávio Ferreira.

Reproduzo aqui os textos escritos em 2015 publicados no DC Ilustrado.

Com capítulo final lembro que o nosso último encontro foi em dezembro de 2017, em Santo Antônio de Leveger, no sarau poético coordenado pela professora Kelly Carvalho.

Luiz Carlos com a dupla Nico e Lau

 Luiz Carlos Ribeiro começou tardiamente

Só depois que se formou Advogado, ele se volta para o teatro e se tornar uma das referências das artes cênicas em Mato Grosso

JOÃO BOSQUO

Do DC Ilustrado

Luiz Carlos Ribeiro é o mais completo e o mais tardio artista do teatro mato-grossense. Tardio no sentido de ter começado a carreira artística com mais de 20 anos, beirando os trinta, depois de formado bacharel em Direito na última turma da Faculdade Federal de Direito de Cuiabá, embrião da nossa Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em 1969 e que, no ano seguinte, 1970, registra o surgimento da Uniselva.

Jurista por obrigação de ganhar o pão de cada dia e artista por vocação descoberta ainda na infância quando foi ‘pego pela mão’ pela professora do primário Maria Lacerda. Luiz Carlos Ribeiro diz que esse ‘alumbramento’ aconteceu no dia que entrou no ‘teatro’ pela primeira vez, no início da década de 50, em sua cidade natal, Santo Antônio do Leverger, ou Santo Antônio de Rio Abaixo. Ele é cuiabano por adoção, inclusive com título de cidadania concedido pela Câmara Municipal de Vereadores.

A professora Maria Lacerda, a mesma que pegou na mão de Luiz Carlos para ensinar a escrever o “a e i o u”, naqueles idos de 50, numa pequena cidade, sem energia elétrica, estava além de seu tempo, fazendo teatro. Para esse teatro que ele fora convidado e foi assistir junto com a família.

Luiz Carlos conta – que a vida da gente é contar – que a representação aconteceu num salão da prefeitura e o cenário e coxia eram feitos com lençóis brancos, enquanto a iluminação com lampiões Petromax. Como uma ilusão, o menino via velas de navios e aquilo o cativou. Da história, lembra pouco, era o caso de uma empregada que tinha ‘roubado’ o perfume da patroa, ou coisa assim, cujo texto era da própria Maria Lacerda. Ao final, Luiz Carlos, menino, lembra que ele se disse: “Eu quero fazer isso”.

Além da professora, marcaram a infância do jovenzinho, as histórias da avó Maximiana como também a Preta da Fronteira, cabocla ameríndia, animadora cultura, rezadeira, benzedeira, dançarina de siriri – como a avó – contadora de histórias que o levava para assistir as festas de santo, que o levou para os primeiros contatos com a cultura popular, lógico, sem saber o que era cultura popular.

Quase no final da década de 50, a família muda-se para Cuiabá. Luiz Carlos contava com 14 anos e foi estudar o ginásio no Colégio dos Padres, o Liceu Salesiano, por uma decisão paterna, apesar das dificuldades para sustentar a prole de oito filhos. Acontece, como tem que acontecer, nesse ano, o reitor das instituições salesianas pelo mundo estava em visita ao Brasil, com data marcada para visitar Cuiabá que, além do Liceu, tinha também o Patronato Santo Antônio, do Distrito do Coxipó.

Foi no Salesiano que acontece o segundo alumbramento com o teatro, com o padre Raimundo Pombo, que dirigia o grupo de teatro da escola. Ele começa como contraregra, mas tinha uma capacidade de decorar textos e,, por essa capacidade foi escolhido para dizer uma frase de recepção de boas vindas ao reitor em italiano. Aí, nesse momento, o aluno Ribeirãozinho (como era chamado na escola) tem sua primeira aula de impostação de voz com o maestro Veronezi, que se chama “partitura sonora” dentro do teatro. Depois de decorado o texto, o professor foi trabalhar com o aluno a musicalidade da linguagem italiana, a língua materna do reitor visitante.

Luiz Carlos, como sua memória invejável, nos recita os ‘versos’ ditos ao reitor. Ao final, no “grazie, grazie per tanti favore”, o reitor se encantou com a sonoridade do pequeno jovem e ordenou que se desse uma bolsa de estudo e desafogou o pai de ter que pagar as mensalidades durante todo o ginásio e os dois nos de científico.

Ele faz todo ginásio e o segundo ano do Científico no Colégio dos Padres e vai fazer o terceiro Cientifico Clássico no Colégio Estadual, onde teve aulas com os professores Nilo Póvoas, Cesário Neto, entre outros professores maravilhosos. “O que sei de gramática devo a esses professores”, avisa. Terminado o Cientifico – apesar de certa vocação para as ciências sociais, ou humanas, como Antropologia, mas o pai, de uma pensão, na Rua Barão de Melgaço, não tinha condições de custear e ‘optou’ pelo Direito, a única faculdade de ensino superior em Cuiabá.

Formado, vai trabalhar no escritório do deputado estadual Emmanuel Pinheiro, um dos professores da Faculdade, e depois no escritório de outro deputado Nelson Ramos – e foram 40 anos de exercício profissional, paralelo ao trabalho como servidor da UFMT.

Durante o governo de José Fragelli, na Secretaria de Educação, sob a direção da jovem Maria da Glória Albuês, um projeto “Tempo de Teatro”, que consistia, no mês julho, de cada ano, em reunir os produtores, fazedores de teatro de todo o Mato Grosso (ainda não dividido) para uma grande encontro, com participação de teatrólogos, como Rubens Corrêa, Jesus Chediak, Amir Haddad, Glorinha Beuttenmüller, Paulo Coelho, antes de ser esse fenômeno, e Raul Seixas, que era ator também, entre tantos, quando se faziam oficinas, apresentações de peças teatrais, com debate posterior as apresentações, enfim uma escola de teatro.

Ele, Luiz, diz que fez muitas dessas oficinas, mas não atuava, ‘estava mais olheiro’ de teatro e namorando a ideia de ser diretor e não ator. Vem o governo de Garcia Neto e o projeto Tempo de Teatro é suprimido do cardápio para contenção de despesas. O teatro, repara – quem fala é o repórter – sempre é um dos primeiros a sofrer os cortes de contenção de despesas, não é de hoje.

O movimento teatro volta a estaca zero. Glorinha Albuês vai pra o Rio, estudar, Lúcia Palma para Minas, enquanto Luiz Carlos continua e um dia Camilo Ramos, representante do núcleo de Mato Grosso da Fenata (Federação Nacional de Teatro Amador, ou Festival), que estava realizando um congresso nacional para se tornar uma confederação – e é criada a CONFENATA e aqui em Mato Grosso, a FEMATA – Federação Mato-grossense de Teatro Amador, depois o “amador” foi suprimido, e Luiz Carlos é aclamado o primeiro presidente.

A Femata foi ter um papel importante no movimento teatral, com realização de circuitos, e vão surgir novos grupos de teatros e uma nova leva de atores. Em Brasília, Luiz Carlos conhece gente como Tácito Freire Borralho, teatrólogo do Maranhão, que estava na coordenação da criação da confederação, a futura Confenata. Depois de criada a Femata acontece uma oficina com o próprio Tácito, que ficou maravilhado com o número de participantes, 70 e o teatro em Mato Grosso estava ressurgindo.

Luiz Carlos Ribeiro, criatura do Rio Abaixo

Ator e diretor se prepara para novo espetáculo ao lado de Pescuma, Henrique e Claudinho

JOÃO BOSQUO
Da Reportagem

Como Luiz Carlos Ribeiro chega, saindo de Santo Antônio Rio Abaixo, até o Rio de Janeiro? Essa parte da história ainda tem que ver com a criação da Femata e Confenata, que elegeu Cuiabá para ser o local da primeira reunião. Um pouco por curiosidade dos demais representantes das outras 16 federações já que ninguém conhecia Mato Grosso, senão as lendas de onça no meio da rua, índios selvagens e, claro, o Pantanal.

O encontro acontece no dia 18 de janeiro de 1978 e este Diário de Cuiabá publica a “Carta de Cuiabá”, definindo as diretrizes do movimento nacional para o teatro. Um teatro voltado para a cultura popular, através da pesquisa, enquanto subsidio e discurso político.

Dentro dessas diretrizes é que surge o texto que vai subsidiar a mítica peça “Rio Abaixo, Rio Acima”, ou “Ergue o Mocho e Vamos Palestrar” de Glorinha Albuês, que já tinha retornado do Rio de Janeiro. Luiz gosta de dizer que foi uma intervenção teatral. O convite partiu de Miguel Biancardini, sendo portando o primeiro produtor, para ser apresentado em um Congresso do Rotary Club que fora realizado aqui.

No jantar de encerramento desse congresso de rotarianos, no Ginásio de Esportes do Sesc, foi apresentada a primeira versão da peça, com participação dos Cinco Morenos, e a primeira vez que Luiz Carlos Ribeiro sobe ao palco como ator para representar em uma peça teatral. Aplausos que ninguém esperava a reação do público diante do espetáculo.

Com a reestruturação do grupo Terra – Liu Arruda vai embora pro Rio de Janeiro, outros tomam outro rumo – decide-se dar continuidade ao “Rio Abaixo, Rio Acima” e os integrantes do grupo vão fazer justamente aquilo que a Carta de Cuiabá pedia: pesquisar junto às comunidades a cultura popular, a questão da linguagem, a partitura corporal das ceramistas, enfim, e assim aconteceu e a partir dessa pesquisa, Glorinha Albuês reescreve a versão completa da peça.

O Grupo Terra começou a montar a peça e apresentar, inicialmente no teatro de arena que existia no pátio da Fundação Cultural. A Fundação Cultural é bom explicar era sediada no Palácio da Instrução, depois que deixou sedia a Procuradoria da Justiça e Secretaria de Segurança Pública.

Luiz conta que eram uns gatos pingados que apareciam. Chegaram a convencer o padre Jornel a divulgar a peça depois da missa entre os fiéis. Nada. O que fazer? Correr atrás do público e o grupo decide apresentar nos locais em que aconteceram as pesquisas: Passagem da Conceição, Engordador, Guarita, São Gonçalo Beira Rio. O grupo chegava, pedia comida e, em troca, apresentava o espetáculo, contando, claro com ajuda dos amigos no patrocínio da gasolina dos carros que transportavam a trupe.

Corria o ano de 1979, e o grupo decidira parar com a peça. Antes, porém, fariam uma última apresentação no dia do aniversário da diretora Maria da Glória Albuês, tipo festa surpresa, ali mesmo no teatro de arena da Fundação Cultural, em outubro daquele ano.

Os convidados todos aqueles que de certa forma tinham ajudado o grupo durante o circuito 79, como ficou chamado. Entre esses presentes, a secretária (pena que Luiz não lembre o nome) do presidente do Instituto Nacional de Teatro, Orlando Miranda, que veio a Cuiabá para lançamento do edital do Mambembão 1980, por conta de uma ação de Tácito Freire Borralho de incluir financiamento para montagem de peças todos os estados onde tinha federação de teatro.

Ao final dessa “última apresentação” a representante do Instituto de Artes Cênicas (no Brasil muda-se os termos das instituições sempre com o prósito de se esquecer os seus criadores) está chorando e ali disse que “aquela peça seria uma das representantes de Mato Grosso no projeto Mambembão.

Rio abaixo, Rio Acima estreia no Mambembão em São Paulo no Teatro Eugênio Kusnet. O público foi ao delírio. Cacá de Souza, na plateia, maravilhado, resolveu mudar para Cuiabá. O crítico Sábato Magaldi saiu do teatro exaltando e convidou Glorinha para participar de uma aula de teatro e cultura popular. Ela não pode e foram LCR e Lúcia Palma e Magaldi disse que o espetáculo era maravilhoso. A segunda cidade a ser visitada foi o Rio de Janeiro onde também a peça se consolidou e depois em mais seis capitais, sendo que Campo Grande, já MS, foi a última. A peça ficou cinco anos em cartaz.

Em 1983 escreve e encena a peça “Gudibai Meu Boizinho”, que fica em cartaz dois anos. De 1986 até 1998 trabalha na administração do Teatro Universitário, ora na função de diretor de programação, ora na de supervisor. Entre os anos de 1994 e 1995 escreve e dirige a trilogia do teatro do absurdo “Pelos Cotovelos”, “A Virgindade Contestada” e “Vespa Sete”. Em 2000 participa do FIAR – Festival Internacional de Teatro de Palmela, com a Cia D!Arte do Brasil a convite do diretor e dramaturgo português João Brites do Grupo O Bando. Ainda é coautor do texto “Marco Zero”, em parceria com Amauri Tangará. Em 2008 participa como ator da peça “A Mala de fugir e Outras Histórias”, de sua autoria, sob direção de Júlio de Camargo.

Agora se prepara para remontar o espetáculo “Manoel Leite e Barro Pantaneiro”, com poemas de Manoel de Barros, participação de Pescuma, Henrique e Claudinho, que será apresentado dia 12 de agosto no Teatro do Cerrado Zulmira Canavarros.

Pequeno perfil cultural

Da Reportagem

CINEMA OU TEATRO: Teatro

ATOR: Rubens Correa, In memoria”, ator mato-grossense que foi considerado pela crítica especializada, como o maior ator do Seculo XX, foi meu Mestre

ATOR REGIONAL: Carlos Roberto Ferreira

AUTOR: Flavio Ferreira

PEÇA: Carta de Rodez es, com Stepfane Brodt.

PEÇA REGIONAL (Não vale citar Rio Abaixo, Rio Acima): Homem do Barranco

FILME: Assim Caminha a Humanidade

LOCAL QUE FREQUENTA: Academia Mato-grossense de Letras

O QUE CUIABÁ TEM DE MELHOR: Sua cultura

O QUE CUIABÁ PRECISA MELHOR: Aprender a votar em políticos compromissados com o seu patrimônio cultural

DEFINIÇÃO DE CULTURA: Cultura é tudo que o homem produz

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

3 + dois =

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.