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“Gilmar já deu 3 versões para viagem com Demóstenes”

No insuspeito jornal Folha de S. Paulo, mesmo desconsiderado pelos editores e pauteiros do valoroso jornal paulista, Jânio de Freitas, decano dos analistas políticos do Brasil – que está muito longe de poder ser enquadrado como “petralha” ou como “blogueiro sujo”, como tanto gosta de carimbar a direita mais ensandecida – dá a pista para o desmonte das argumentações iradas do ministro Gilmar Mendes, tristemente mato-grossense. Confira o que escreveu Jânio de Freitas. (EC)

Jânio de Freitas, decano dos analistas políticos, no Brasil e o ministro tristemente mato-grossense Gilmar Mendes

Liberdades iradas
POR JANIO DE FREITAS

O excesso de raiva e a aparente perda de controle em Gilmar Mendes talvez expliquem, mas não tornam aceitável, que um ministro do Supremo Tribunal Federal faça, para a opinião pública, afirmações tão descabidas.

Nem o próprio Supremo é poupado no ataque atual de Gilmar Mendes, que assim o define em entrevista ao “Globo”: “Já é um Poder em caráter descendente”. Não há por que duvidar desse sentimento particular de Gilmar Mendes, mas também não há como atribuir a tal afirmação, feita de público e plena gratuidade, um qualquer propósito respeitável.

Ali demolidor, pelo método da implosão, é também deste ministro, no mesmo dia, porém à Folha, a atribuição deste motivo para o que diz ter ouvido de Lula: “Dizer que o Judiciário está envolvido numa rede de corrupção”, para “melar o julgamento do mensalão”.

A afirmação sobre o Supremo, com provável sinceridade; a outra, uma ficção sem sequer um indício em seu favor. Lula, o PT e os réus do mensalão nada ganhariam com uma investida contra o Judiciário. Sabem disso na mesma proporção em que a imaginação ficcionista não sabe.

Na sua exaltação, o ministro Gilmar Mendes ainda não reparou que tem municiado quem queira atacá-lo. Já deu, por exemplo, três versões para o custeio da viagem em que se encontrou, na Europa, com Demóstenes Torres. A tal viagem das suas sensibilidades tocadas pelo que “pareceram insinuações” de Lula.

Na primeira referência feita (estão todas impressas e gravadas), disse haver respondido a Lula que viajou “com recursos próprios”. Na segunda, fez viagem oficial, custeada pelo Supremo, para um evento na Espanha, e dali à Alemanha pagou ele mesmo. Na terceira (ainda na entrevista ao “Globo”): “Fui a Berlim em viagem oficial. Por conta do STF”.

Afinal, não se sabe como a viagem foi paga nem isso está em questão. Mas é compreensível que estivesse em boatos. Como amanhã pode estar a história de que Lula planejava denunciar o Judiciário como uma rede de corrupção. Por haver boato sobre a viagem, e indagar a respeito, é “gangsterismo, molecagem, banditismo, a gente está lidando com gângsteres”, como disse Gilmar Mendes? Não, não disse: vociferou, iradíssimo.

Com base em que fatos um ministro do Supremo Tribunal Federal faz a acusação pública de que Lula -no caso, importa sobretudo serem um ex-presidente da República e um magistrado- é “a central de divulgação” dos boatos infamantes? Acusação de tal ordem não precisa nem indícios, é só emiti-la?

O Congresso foi poupado da reação de Gilmar Mendes graças à falta, na inquirição de Demóstenes Torres, de uma pergunta que, normalmente, não faltaria. Logo no primeiro lote de telefonemas gravados de Carlos Cachoeira, apareceu o pedido do senador de que o contraventor pagasse os R$ 3.000 de um táxi aéreo. Gilmar Mendes, negando ter usado avião de Carlos Cachoeira, disse que foi a Goiás convidado por Demóstenes Torres, para um jantar. Foi “de táxi aéreo”.

Ninguém perguntou a Demóstenes que voo seria pago por Cachoeira. Ninguém perguntou se Gilmar Mendes e outros ministros estavam no voo dos R$ 3.000. Nada demais se estivessem, nem poderiam saber quem viria a pagar pelo voo. Apesar disso, a encrenca resultante já estaria engatilhada, com a imagem institucional do Supremo a aguentar suas manifestações.

Com muita constância, somos chamados a discutir o decoro parlamentar. Não são apenas os congressistas, no entanto, os obrigados a preservar o decoro da função.

FOLHA DE S. PAULO

Categorias:Jogo do Poder

1 Comentário

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  1. - Responder

    É GRAVE AS DENÚNCIAS E, SE CONFIRMADAS, CERTAMENTE PODERÁ TRAZER CONSEQUÊNCIAS DESFAVORÁVEIS AO MEMBRO DO STF, MINISTRO GILMAR MENDES. SERÁ ATÉ POSSÍVEL “IMPEACHMENT”. É O QUE PENSO COMO CIDADÃO. DIANTE DO QUE ESTÁ ACONTECENDO, DE QUE, JÁ POR DUAS VEZES O TÃO INTELIGENTE EX-PROCURADOR GERAL DE JUSTIÇA DE GOIÁS, HOJE SENADOR DA REPÚBLICA DEMÓSTENES TORRES, QUANDO DIANTE DA CPI DO CASO CACHOEIRA, SIMPLESMENTE SE SOCORRE DO DIREITO CONSTITUCIONAL DE PERMANECER CALADO, ACREDITO QUE O POVO BRASILEIRO, NÃO MENOS INTELIGENTES, INTERPRETARAM COMO SENDO OS FATOS ATRIBUIDOS AO SENADOR, SEJAM REALMENTE VERDADEIROS. SE REALMENTE FOREM, FICAREI MUITO TRISTE, POIS ACREDITAVA QUE COMO MEMBRO DO MPE DE GOIÁS, TENDO INCLUSIVE OCUPADO O CARGO MÁXIMO NO ESTADO, FOSSE REALMENTE HONESTO E CONTRIBUÍSSE NO CONGRESSO NACIONAL PARA MORALIDADE PÚBLICA, VEZ QUE, NÃO POUCAS PESSOAS ACREDITAM EM POLÍTICOS HONESTOS. QUE SE RESPEITE O DIREITO DE DEFESA E QUE SE FAÇA COM URGÊNCIA JUSTIÇA. “QUEM VIVER VERÁ”.

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