Página Inicial

Brasil perde o genial precursor da Bossa Nova. Johnny Alf era classe A, mas viveu no lado B

05/03/2010 - 09:02:00

Grande, como era grande! O Brasil se despede, neste final de semana, de um dos seus gênios musicais, Johnny Alf (1929-2010). Confira a triste noticia:


Johnny Alf era classe A, mas viveu no lado B

Avesso à badalação, trocou o Rio por SP e se tornou um dissidente, ficando fora da panela da bossa nova

Por Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo



SÃO PAULO - Caso típico de gênio cult subestimado pelo gosto popular, Alf, como a história da bossa nova, não parou nunca. E mesmo produzindo pouco, não se deteve no pedestal de pioneiro. Embora escassa, sua discografia é registro insuspeito de que esteve aberto às transformações de cada época (no disco Desbunde Total gravou até balada pop), sem perder a linha; e suas influências, tão notáveis, não permitem que sua fama seja reduzida à de precursor da bossa nova, mas um de seus motores constantes. Jamais deixou de soar moderno e estimulante. Está aí Mais Um Som, para quem quiser comprovar.

Com o pseudônimo de apelo internacional e o estilo sofisticado que namorava com o cool jazz, Alf poderia ter-se lançado à fama nos Estados Unidos - como o fizeram Sergio Mendes, Astrud Gilberto, Laurindo de Almeida, Moacir Santos, Eumir Deodato e Antonio Carlos Jobim. Isto se tivesse pelo menos aceitado o convite do compositor Chico Feitosa para se apresentar no Carnegie Hall, em Nova York, no evento que consolidou o sucesso da bossa nova no exterior, em 1962. Preferiu ficar no Rio.

 Alf era classe A, mas viveu no lado B da bossa nova. "Ele não estourou porque chegou cedo demais", afirmou Roberto Menescal. Conta ponto também o fato de Alf ser avesso a badalação e o fato de ter trocado o Rio por São Paulo o fez situar-se como dissidente, ficando fora da panela da bossa nova em sua eclosão. "O que eu faço não é bossa nova, mas samba jazz", desconversou certa vez.

 Alf era tímido, muito discreto e modesto. "Posso dizer que fiz alguma coisa um pouco antes do resto do pessoal", disse. Suas melodias e letras até meados dos anos 1960 eram carregadas de melancolia noturna: nada de barquinhos, manhãs de luz e tardinhas de cartão postal. O estilo de vida de então e, paralelamente o de sua música, destoava do padrão ensolarado de seus pares cariocas. Não estranha que tenha trocado a beira-mar pela então fria capital paulista, desestimulado que se sentia na terra da Garota de Ipanema. "Sempre estive afastado da patota, porque sou muito desconfiado das pessoas. Os problemas que tive na vida me criaram dificuldade de relacionamento. Em meio de grupinho, nunca estava seguro."

Tampouco surpreende o fato de que Ilusão à Toa, composta nos pouco liberais anos 50, seja considerada uma canção de amor gay enrustido. Uma das que vêem a letra por esse ângulo é a cantora Leila Maria, que lançou em 2007 um álbum temático, Canções do Amor de Iguais, que inclui a canção de Alf que inspirou Um Certo Alguém (Lulu Santos/Ronaldo Bastos) e Amor Mais Que Discreto (Caetano Veloso).

**************



Carlos Lyra (compositor e violonista): "A importância dele para nós é muito grande, porque ele foi um dos precursores da bossa nova. Eu conheci o Johnny em 1954. Ele tocava no Bar do Plaza, no Leme, e sempre que eu podia ia para lá, entrava escondido, porque era menor. Nós iamos todos pra lá, o Tom, João Gilberto, Silvinha Teles, Dolores Duran, Billy Blanco, toda essa turma ia para lá ver o Johnny tocar. Era era muito carinhoso, fino, bacana. Era um gentleman. A música dele era delicada, romântica, uma musica cool, de influência do jazz americano, que ele conhecia muito bem, e ele deixou isso para a bossa nova."


Joyce (cantora, compositora e instrumentista): "Acho ele o primeiro bossanovista de todos. Antes de qualquer um, do Tom, do João, antes de todo mundo, ele foi o inventor desse negócio. Ele nunca foi muito lembrado nessas efemérides todas da bossa nova, até porque ele era muito discreto, tímido. Mas acho que o tempo vai fazer justiça à importância dele."

Badeco (ex-Os Cariocas): "Ele deu uma nova dimensão na maneira de tratar a música. Já fazia esse estilo bossa nova desde "Rapaz de bem", num novo contexto, que não tinha nada a ver com os sambas lindos e bem feitos do Noel Rosa. Como pessoa e como compositor, cantor e pianista, abriu-se mais uma lacuna para mim. Gostava muito dele. Infelizmente, não vou poder mais ir a São Paulo tomar um chope com ele e ficar duas horas ouvindo música. Mas, na minha memória, tenho a figura do Johnny Alf fazendo música boa."

João Bosco (cantor e compositor): "As canções dele fazem parte da nossa história. Lembro que quando eu era jovem, tinha um sujeito na minha cidade, Ponte Nova, que cantava "Ilusão à toa". Ou seja, desde antes de eu vir para o Rio, ele já estava na minha vida, com Noel, Caymmi. Lembro também que Caetano, quando voltou do exílio em Londres, fez um show marcando seu retorno, no João Caetano. O show era meio performático, ele chegava a subir num andaime. Então, no fim, ele, extenuado, cantava "Eu e a brisa". Aquilo fazia parte da interpretação dele, Caetano entendeu que aquela música era para cantar ofegante: "Ah, se a juventude que essa brisa canta/ Ficasse aqui comigo mais um pouco" (cantarola). Era de uma beleza... Todos nós que fazemos música sabemos de sua importância na formação da moderna música brasileira. Numa das vezes em que Guinga esteve aqui em casa, ele tocou um arranjo seu para "Ilusão à toa". Um músico, quando toca para outro, quer mostrar algo bonito, tem que saber escolher. E ele escolheu Johnny Alf."

Sérgio Ricardo (cantor e compositor): "Ele significou uma coisa importantíssima para a música brasileira, deu uma contribuição lírica e harmônica muito importante. Desenvolveu um tipo de samba diferente do que se fazia na época, que serviu de parâmetro para a bossa nova. A síntese que João Gilberto fez vem de várias coisas, uma delas é o aprendizado com Johnny Alf. Era um revolucionário na construção das melodias e harmonias. Era tão importante que os locais onde tocava se enchiam de músicos que iam tomar lições, inclusive eu, que ia aprender composições e harmonias."


Emílio Santiago (cantor):"Além de ter sido um grande amigo meu, foi um compositor e um mestre que eu admirava. Gravei muita coisa dele, ''Eu e a brisa'', recentemente ''Olhos negros''... No ano passado, participei do show do aniversário de 80 anos dele, e ele já estava debilitado. Mas nos divertimos muito. Ele influenciou praticamente toda a bossa nova. João Gilberto, Tom Jobim, todos iam vê-lo tocar na boate Plaza, ver as suas dissonâncias nos acordes, as suas harmonias entortadas. Mas, quando foram fazer o show no Carnegie Hall, esqueceram dele. Mas ele foi a inspiração de muita gente, vai ficar uma lacuna."

Wagner Tiso (compositor e maestro): "Ele foi um dos primeiros grandes modernos, porque viu a possibilidade da união da música brasileira com o jazz. Tinha um bom gosto muito grande e uma maneira de cantar diferente de todo mundo. Talvez ele e Tom Jobim sejam as figuras mais importantes para a formação da bossa nova e da moderna música brasileira. Ele merecia muito mais reconhecimento do que teve, mas o problema é que, diferentemente de Tom Jobim e Vinicius (de Moraes), que tinham personalidades extravagantes, o Johnny era retraído e, em vez do estrelato, preferia cantar à noite em boates. Eu fiz vários arranjos para ele, e ele fez uma música para mim, chamada "Wagner waltz", que me deixou muito honrado."

Marcos Valle (cantor e compositor): "O Emílio me ligou com a notícia e fiquei muito triste. Estive com ele meses atrás. Fui à São Paulo e estive na Casa de Saúde. Achei ele muito deprimido. E, curiosamente andei pensando nele nos últimos dias. Ele foi a primeira pessoa que frequentou a minha casa. Tinha uma amiga que gostava do que eu fazia e me apresentou a ele, que me influenciou muito com suas harmonias diferentes, melodias incríveis. Não a toa, no meu primeiro, gravei "Ilusão à toa". E ele, mais adiante, gravou "Desejo do mar", minha e do meu irmão Paulo Sérgio. No geral teve uma influência imensa no trabalho de todos os mais importantes artistas da Bossa Nova como o Tom Jobim, o Carlinhos Lyra, o Roberto Menescal. Tudo o que ele fazia tinha o frescor da novidade."

Ed Motta (cantor e compositor): "Era uma figura espetacular. Era o grande compositor que o Brasil talvez não tenha prestado tanta atenção, e mesmo o público internacional. Uma jóia escondida para poucos e bons. É sabida sua influência nas melodias e harmonias da música brasileira. É um divisor de águas. Porque as pessoas pensam que a água dividiu na bossa nova, mas foi bem antes. E Johnny Alf foi o primeiro cantor no Brasil a usar a voz como instrumento, algo além de levar a mensagem das letras. Chegamos a fazer um show juntos em 2006, 2007. No contato pessoal que tive com ele, Johnny se mostrou extremente culto. Passamos uma tarde conversando sobre cinema, ele sabia trechos de milhares de musicais da Broadway. Ou seja, tinha referências, era ligado à arte, coisa rara no meio da música, já que os músicos acabam se fechando no seu universo."

Comentários
Marcelo Câmara - 10/03/2010 00:40
O genial Johnny Alf Com a partida do estelar Johnny Alf, com quem tive o privilégio de conviver e trabalhar no início dos anos 1970, escrevendo e produzindo shows, volta a se divulgar mais uma tolice, mais um falso bordão da famigerada “história oficial da Bossa Nossa”, cheia de ficções, mentiras e deturpações de toda ordem. A reincidente besteira consiste em chamar Johnny Alf de “precursor” da Bossa Nova. Grave e medonho erro. São três osprincipais compositores, os três pilares autorais, composicionais, da Bossa Nova, estética nascida na segunda metade da década de 1950. Três músicos geniais. O pianista e compositor Newton Mendonça (1927-1960), o mais importante compositor do estilo, quem mais alto e longe foi na estruturação composicional, na sistematização melódica e harmônica da Bossa Nova, quem verdadeiramente foi vanguarda, mais ousou, mais transgrediu e promoveu mais invenção. Foi grande amigo de Johnny Alf. Este foi quem, pela primeira vez, me falou de Newton, e com muito entusiasmo, carinho e admiração. O outro é Tom Jobim (1927-1994), primeiro e fundamental parceiro de Newton, que a este sobreviveu 34 anos e com quem formou a principal dupla criadora da Bossa Nova. A parceria New-Tom compôs os hinos, as fundamentais e mais influentes matrizes da Bossa Nova. E o terceiro pilar, anterior a Newton e Tom, e deles mestre, foi Johnny Alf (1929-2010), pianista virtuosíssimo, cantor único e compositor precioso, que cometeu as primeiras ousadias melódicas, harmônicas e rítmicas e, mesmo antes da batida definidora de João Gilberto, é responsável pelas criações basilares do estilo. Negro, pobre e órfão de pai, nascido no Morro da Mangueira, Alfredo José da Silva, filho de uma empregada doméstica, criado em Vila Isabel, incrivelmente parece ser a mais nobre dissonância, culta, sofisticada e afinadíssima, de um tipo de música que surgiu entre os meninos brancos, de classe média alta, da Zona Sul carioca. O sintetizador de todo o processo desenvolvido na década de 1950, o criador do novo ritmo e estilo, da batida rítmica, o definidor da revolucionária harmonia, do novo samba, foi João Gilberto (1931), discípulo também de Johnny Alf. Os jovens Newton, Tom e João Gilberto, assim como Carlos Lyra, Menescal, João Donato, Luiz Eça, Ronaldo Bôscoli, entre outros, formavam a mais assídua platéia do pianista e cantor Johnny Alf nas boates Mandarim (onde revezou com Newton), Clube da Chave, Drink e Plaza. As canções de Johnny Alf, Newton Mendonça e Tom Jobim favoreceram e estimularam a revolucionária criação de João Gilberto. As músicas dos três compositores se adequaram perfeitamente à forma de João Gilberto tocar e cantar. Suas estruturas e características pareciam ter sido feitas especialmente para João, que as acolheu, assumiu-as, vestiu-as com a nova batida e inusitada interpretação, e construiu definitivamente a estética, transformando o baiano de Juazeiro no maior e insuperável intérprete da Bossa Nova. Tom Jobim declarou, por algum tempo, que, se querem dar “um pai” à Bossa Nova, ele é Johnny Alf. Deixe um comentário
+ Comentar artigo
Campos em negrito são obrigatórios.

Nome:
E-mail:
Comentário:

« Voltar

Perfil

Enock Cavalcanti nasceu em 18 de maio de 1953, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, Estado do Rio de Janeiro. Filho de Manoel Paulo da Silva, vendedor autônomo e de Josefa Cavalcanti da Silva, a Dona... (continuar lendo)

Quebra torto

Na mira Debate na TV

Plantão

Defensoria de Mato Grosso pede melhorias em cadeias

Advogada é presa por desacato a magistrado em Juara

Prefeito de Tangará é condenado a devolver R$ 120 mil em MT

Pegadinha do Faustão gera indenização de 5 mil para casal que aparecia em brincadeira na TV

Comunidade Terapêutica Valor da Vida abre unidade feminina - “Olhamos para o ser humano que está por detrás da droga”, e que este homem e esta mulher tenham em si mesmo a oportunidade de mudar o estilo de vida, abraçando novas possibilidades.

Links

A Gazeta (Cuiabá)
A Politica, de Alexandre Apra
A Tribuna (Rondonópolis)
Adunemat
Alexandre César
Alfredo Menezes
Altamiro Borges
Antonio Cavalcanti Filho - Ceará
Assembléia Legislativa de MT
BAR DO BUGRE (Blog de Gabriel Novis Neves)
Barra Garcense
Blog Carlos Ferreira - Juiz de Fora
Blog de Dorjival Silva
Blog de Giselle Carvalho, advogada
Blog de Wandre Andrade
Blog do Eduardo Gomes
Blog do Gilmar Lisboa
Blog do Leal (Alta Floresta)
Blog do Roseno
Blog Eduardo Guimarães - S.PAULO
Blog Folha de Paranatinga
Bruno Boaventura
Cáceres Notícias
Caldeirão Político
Câmara Municipal de Cuiabá
Campinápolis Agora
Campinápolis News
Carlos Abicalil
Carlos Maldonado
CBN
Cena Onze
Circuito Mato Grosso
Confraria dos Atores
Conversa Afiada - Paulo Henrique Amorim
Correio de Mato Grosso
Correio Noroeste
CPA FM
CUFA MT
Dia a Dia News (Jaciara)
Diário da Serra
Diário de Cuiabá
Diário MT
Direito e Opinião
Diretorio Central dos Estudantes - UFMT
Domínio Público
É Política
Eficiência News
Eficiência News
Expresso MT
Fala Sério Mix
Fala Sério Mix
Folha de S. Paulo
Folha do Estado
Folha do Trabalhador
Folha Livre
Futebol Press
Generino Arte e Entretenimento
Governo do Estado de Mato Grosso - Secretaria de Comunicação
Guerrilheiros Virtuais
Imprensa de Sinop
João Bosco
João Negrão
Jornal Centro Oeste Popular
Jornal Correio de Várzea Grande
Jornal da Chapada
Jovem News
Juara Net
Juína Vermelha
Justiça e Solidariedade (Blog de Juacy Silva)
Luciana Serafim
Lúcio Dia e Noite
Lúdio Cabral
Luis Nassif
Luiz Poção
Mato Grosso Mais
MEG Rádio
Mega Debate
Mega Pop
Mexe o Doce
Ministério Público de Mato Grosso
MT 24 Horas
MT Urgente
MT Urgente
Nortão Noticias
Noticia Virtuais - Sinop
Noticias NX - Rádio RNX (Nova Xavantina)
O divisor
O Estado de S. Paulo
O Independente
O Parlamento
OAB MT
Observatório da Imprensa
Olhar Direto
Onofre Ribeiro
Parecis Online
Plantão News
PNB On Line - Blog do Antero
Poconet - Rádio América FM
Politica Jovem
Porra, Blairo!
Portal do Cidadão - TCE MT
Portal Fora do Eixo
Porto Notícias
Primeira Hora (Rondonópolis)
Primeira Hora Noticias (Juara)
Procuradoria da República em MT
Programa VIP
Prosa e Politica
Rádio CPA FM
Radio Serra FM
Rádio Web Cuiabá
RD News
Reinaldo Azevedo
Revista Forum
Revista RDM
Revista Única
Roteiro Noticias (Guarantã do Norte)
Senadora Serys
Show de Notícias (Juara)
Sindicato dos jornalistas MT
sindojus
Sinjusmat
Sintep - MT
Só Noticias - Sinop
Tribunal de Justiça de Mato Grosso
TV Centro América
TV Cidade Verde (Cuiabá)
TV Rondon
UFMT
Unemat
Unemat
Unic - Universidade de Cuiabá
Varanda Cuiabana
Vermelho
VG News
VG Noticias

Publicidade

Submarino.com.br


Submarino.com.br