Grande, como era grande! O Brasil se despede, neste final de semana, de um dos seus gênios musicais, Johnny Alf (1929-2010). Confira a triste noticia:
Johnny Alf era classe A, mas viveu no lado B
Avesso à badalação, trocou o Rio por SP e se tornou um dissidente, ficando fora da panela da bossa nova
Por Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo
SÃO PAULO - Caso típico de gênio cult subestimado pelo gosto popular, Alf, como a história da bossa nova, não parou nunca. E mesmo produzindo pouco, não se deteve no pedestal de pioneiro. Embora escassa, sua discografia é registro insuspeito de que esteve aberto às transformações de cada época (no disco Desbunde Total gravou até balada pop), sem perder a linha; e suas influências, tão notáveis, não permitem que sua fama seja reduzida à de precursor da bossa nova, mas um de seus motores constantes. Jamais deixou de soar moderno e estimulante. Está aí Mais Um Som, para quem quiser comprovar.
Com o pseudônimo de apelo internacional e o estilo sofisticado que namorava com o cool jazz, Alf poderia ter-se lançado à fama nos Estados Unidos - como o fizeram Sergio Mendes, Astrud Gilberto, Laurindo de Almeida, Moacir Santos, Eumir Deodato e Antonio Carlos Jobim. Isto se tivesse pelo menos aceitado o convite do compositor Chico Feitosa para se apresentar no Carnegie Hall, em Nova York, no evento que consolidou o sucesso da bossa nova no exterior, em 1962. Preferiu ficar no Rio.
Alf era classe A, mas viveu no lado B da bossa nova. "Ele não estourou porque chegou cedo demais", afirmou Roberto Menescal. Conta ponto também o fato de Alf ser avesso a badalação e o fato de ter trocado o Rio por São Paulo o fez situar-se como dissidente, ficando fora da panela da bossa nova em sua eclosão. "O que eu faço não é bossa nova, mas samba jazz", desconversou certa vez.
Alf era tímido, muito discreto e modesto. "Posso dizer que fiz alguma coisa um pouco antes do resto do pessoal", disse. Suas melodias e letras até meados dos anos 1960 eram carregadas de melancolia noturna: nada de barquinhos, manhãs de luz e tardinhas de cartão postal. O estilo de vida de então e, paralelamente o de sua música, destoava do padrão ensolarado de seus pares cariocas. Não estranha que tenha trocado a beira-mar pela então fria capital paulista, desestimulado que se sentia na terra da Garota de Ipanema. "Sempre estive afastado da patota, porque sou muito desconfiado das pessoas. Os problemas que tive na vida me criaram dificuldade de relacionamento. Em meio de grupinho, nunca estava seguro."
Tampouco surpreende o fato de que Ilusão à Toa, composta nos pouco liberais anos 50, seja considerada uma canção de amor gay enrustido. Uma das que vêem a letra por esse ângulo é a cantora Leila Maria, que lançou em 2007 um álbum temático, Canções do Amor de Iguais, que inclui a canção de Alf que inspirou Um Certo Alguém (Lulu Santos/Ronaldo Bastos) e Amor Mais Que Discreto (Caetano Veloso).
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Carlos Lyra (compositor e violonista): "A importância dele para nós é muito grande, porque ele foi um dos precursores da bossa nova. Eu conheci o Johnny em 1954. Ele tocava no Bar do Plaza, no Leme, e sempre que eu podia ia para lá, entrava escondido, porque era menor. Nós iamos todos pra lá, o Tom, João Gilberto, Silvinha Teles, Dolores Duran, Billy Blanco, toda essa turma ia para lá ver o Johnny tocar. Era era muito carinhoso, fino, bacana. Era um gentleman. A música dele era delicada, romântica, uma musica cool, de influência do jazz americano, que ele conhecia muito bem, e ele deixou isso para a bossa nova."
Joyce (cantora, compositora e instrumentista): "Acho ele o primeiro bossanovista de todos. Antes de qualquer um, do Tom, do João, antes de todo mundo, ele foi o inventor desse negócio. Ele nunca foi muito lembrado nessas efemérides todas da bossa nova, até porque ele era muito discreto, tímido. Mas acho que o tempo vai fazer justiça à importância dele."
Badeco (ex-Os Cariocas): "Ele deu uma nova dimensão na maneira de tratar a música. Já fazia esse estilo bossa nova desde "Rapaz de bem", num novo contexto, que não tinha nada a ver com os sambas lindos e bem feitos do Noel Rosa. Como pessoa e como compositor, cantor e pianista, abriu-se mais uma lacuna para mim. Gostava muito dele. Infelizmente, não vou poder mais ir a São Paulo tomar um chope com ele e ficar duas horas ouvindo música. Mas, na minha memória, tenho a figura do Johnny Alf fazendo música boa."
João Bosco (cantor e compositor): "As canções dele fazem parte da nossa história. Lembro que quando eu era jovem, tinha um sujeito na minha cidade, Ponte Nova, que cantava "Ilusão à toa". Ou seja, desde antes de eu vir para o Rio, ele já estava na minha vida, com Noel, Caymmi. Lembro também que Caetano, quando voltou do exílio em Londres, fez um show marcando seu retorno, no João Caetano. O show era meio performático, ele chegava a subir num andaime. Então, no fim, ele, extenuado, cantava "Eu e a brisa". Aquilo fazia parte da interpretação dele, Caetano entendeu que aquela música era para cantar ofegante: "Ah, se a juventude que essa brisa canta/ Ficasse aqui comigo mais um pouco" (cantarola). Era de uma beleza... Todos nós que fazemos música sabemos de sua importância na formação da moderna música brasileira. Numa das vezes em que Guinga esteve aqui em casa, ele tocou um arranjo seu para "Ilusão à toa". Um músico, quando toca para outro, quer mostrar algo bonito, tem que saber escolher. E ele escolheu Johnny Alf."
Sérgio Ricardo (cantor e compositor): "Ele significou uma coisa importantíssima para a música brasileira, deu uma contribuição lírica e harmônica muito importante. Desenvolveu um tipo de samba diferente do que se fazia na época, que serviu de parâmetro para a bossa nova. A síntese que João Gilberto fez vem de várias coisas, uma delas é o aprendizado com Johnny Alf. Era um revolucionário na construção das melodias e harmonias. Era tão importante que os locais onde tocava se enchiam de músicos que iam tomar lições, inclusive eu, que ia aprender composições e harmonias."
Emílio Santiago (cantor):"Além de ter sido um grande amigo meu, foi um compositor e um mestre que eu admirava. Gravei muita coisa dele, ''Eu e a brisa'', recentemente ''Olhos negros''... No ano passado, participei do show do aniversário de 80 anos dele, e ele já estava debilitado. Mas nos divertimos muito. Ele influenciou praticamente toda a bossa nova. João Gilberto, Tom Jobim, todos iam vê-lo tocar na boate Plaza, ver as suas dissonâncias nos acordes, as suas harmonias entortadas. Mas, quando foram fazer o show no Carnegie Hall, esqueceram dele. Mas ele foi a inspiração de muita gente, vai ficar uma lacuna."
Wagner Tiso (compositor e maestro): "Ele foi um dos primeiros grandes modernos, porque viu a possibilidade da união da música brasileira com o jazz. Tinha um bom gosto muito grande e uma maneira de cantar diferente de todo mundo. Talvez ele e Tom Jobim sejam as figuras mais importantes para a formação da bossa nova e da moderna música brasileira. Ele merecia muito mais reconhecimento do que teve, mas o problema é que, diferentemente de Tom Jobim e Vinicius (de Moraes), que tinham personalidades extravagantes, o Johnny era retraído e, em vez do estrelato, preferia cantar à noite em boates. Eu fiz vários arranjos para ele, e ele fez uma música para mim, chamada "Wagner waltz", que me deixou muito honrado."
Marcos Valle (cantor e compositor): "O Emílio me ligou com a notícia e fiquei muito triste. Estive com ele meses atrás. Fui à São Paulo e estive na Casa de Saúde. Achei ele muito deprimido. E, curiosamente andei pensando nele nos últimos dias. Ele foi a primeira pessoa que frequentou a minha casa. Tinha uma amiga que gostava do que eu fazia e me apresentou a ele, que me influenciou muito com suas harmonias diferentes, melodias incríveis. Não a toa, no meu primeiro, gravei "Ilusão à toa". E ele, mais adiante, gravou "Desejo do mar", minha e do meu irmão Paulo Sérgio. No geral teve uma influência imensa no trabalho de todos os mais importantes artistas da Bossa Nova como o Tom Jobim, o Carlinhos Lyra, o Roberto Menescal. Tudo o que ele fazia tinha o frescor da novidade."
Ed Motta (cantor e compositor): "Era uma figura espetacular. Era o grande compositor que o Brasil talvez não tenha prestado tanta atenção, e mesmo o público internacional. Uma jóia escondida para poucos e bons. É sabida sua influência nas melodias e harmonias da música brasileira. É um divisor de águas. Porque as pessoas pensam que a água dividiu na bossa nova, mas foi bem antes. E Johnny Alf foi o primeiro cantor no Brasil a usar a voz como instrumento, algo além de levar a mensagem das letras. Chegamos a fazer um show juntos em 2006, 2007. No contato pessoal que tive com ele, Johnny se mostrou extremente culto. Passamos uma tarde conversando sobre cinema, ele sabia trechos de milhares de musicais da Broadway. Ou seja, tinha referências, era ligado à arte, coisa rara no meio da música, já que os músicos acabam se fechando no seu universo."
Enock Cavalcanti nasceu em 18 de maio de 1953, em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, Estado do Rio de Janeiro. Filho de Manoel Paulo da Silva, vendedor autônomo e de Josefa Cavalcanti da Silva, a Dona... (continuar lendo)
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