Nesta terça-feira, muita gente vibrou. O Jornal da Band finalmente exibiu, em rede nacional, a reportagem que Fábio Pannunzio concluira na quarta passada sobre os escândalos da Assembléia Legislativa e o possível desvio de quase 500 milhões de reais, identificados através de denúncias do Ministério Público que envolvem o deputado Riva e o conselheiro do TCE, Humberto Bosaipo, além de um grupo de 25 funcionários do nosso Legislativo. Em seu blog - o blog do Pannunzio - o repórter da Band divulgou mais algumas informações de bastidores sobre sua passagem por Mato Grosso. É mais uma dura denúncia do conluio mafioso que impera em nosso Estado. Pannunzio destaca o trabalho estóico desenvolvido por blogueiras como Adriana Vandoni em contraste com a atuação de canalha do jornalismo - do qual ele não cita o nome - mas que lhe teria dito para "largar mão desse idealismo babaca e pensar em ganhar dinheiro". Confira o texto de Fábio Pannunzio:
Mato Grosso II: como sobrevivem os jornalistas num Estado em decomposição
Por Fábio Pannunzio
Estive em Mato Grosso cinco dias na semana passada. Saí de lá muito mal impressionado com algumas coisas testemunhei. É um estado em que os jornalistas vivem em constante tensão, acossados pelos esquemas mantidos e nutridos à sombra da legalidade por políticos e empresários vigaristas.
Alguns jornalistas se acumpliciaram ao que há de pior. E outros tentam resistir a todo tipo de investida -- do suborno à coação mais abjeta. E conseguem, apesar do pântano em que se transformaram a política e a imprensa matogrossenses.
Vou falar primeiro dos que resistem. Eles merecem o meu respeito e a minha admiração. Gente como a blogueira Adriana Vandoni, que suporta todo tipo de pressão para manter informada a parcela da população que tem acesso à internet, única forma de saber o que está acontecendo na vizinhança.
Adriana é uma pessoa excepcional. Mantém o blog Prosa e Política sem nenhuma espécie de patrocínio. É honesta e aguerrida. Escreve tudo o que pensa -- salvo aquilo que não pode dizer por força da censura imposta judicialmente pelo deputado José Geraldo Riva e pelo diretor-geral do DNIT, Luiz Pagot, que ameaça inclusive prendê-la.
Adriana tem muitos admiradores. É respeitada e temida como deve ser qualquer bom jornalista. Também tem muitos inimigos. Quando alguém quer desqualificá-la, argumenta que a blogueira age por interesses políticos obscuros, o que não é verdade.
Ela é filiada a um partido, o PDT, e torce abertamente para que a candidatura de Pedro Taques ao Senado vingue e seja bem-sucedida. Como não esconde isso de ninguém, não há nenhum motivo para suspeitar de vínculos "obscuros" entre sua crítica contundente e eventuais benefícios pessoais que poderia dela auferir.
Torcer por Pedro Taques, num estado corrompido como o Mato Grosso, não pode desabonar ninguém. Foi ele quem, como procurador da República, botou na cadeia o Comendador Arcanjo Ferreira, o grande capo dei tuti capi do Centro-Oeste brasileiro. Graças à sua determinação, o maior bicheiro, traficante e agiota matogrossense está atrás das grades de um presídio federal do vizinho Mato Grosso do Sul.
Agora vou falar sobre os que capitularam. Conheci um deles vinte anos atrás quando cometi o maior pecado da minha vida profissional: trabalhar em uma campanha política. A pessoa a quem me refiro era um arguto repórter, idealista como todos nós, que tínhamos muitas reservas em relação a quem nos contratava e ao que estávamos fazendo. Vendo-o na semana passada, tive a impressão de estar vivendo um pesadelo.
O repórter idealista se transformou num instrumento a serviço da pior espécie de gente que habita aquele grotão. Fala sem nenhuma cerimônia "não sou santo", desvela cifras sempre sucedidas da unidade "milhão de dólar" para concluir que "eu também faço meus negócios". E é insultuoso o suficiente para recomendar a um colega "largar mão desse idealismo babaca e pensar em ganhar dinheiro". Ou ainda para mandar recados cobrando favores ilícitos supostamente prestados a amigos de seus interlocutores.
Há um fosso enorme entre a saudável militância profissional de Adriana Vandoni e as insinuações pornográficas do tipo que acabo de descrever. É nesse espaço, que confronta a militância abnegada e a descompostura plena, que habitam centenas de jornalistas que não estão nem de um lado, nem de outro. Que repudiam nas mesas de bar o conluio mafioso em que se transmutou a política local, se recusam a fazer parte das quadrilhas, mas não têm força suficiente para estampar os assuntos que conhecem tão bem nas manchetes dos jornais em que trabalham.
Não têm força, embora tenham o caráter rijo, simplesmente porque é gente como o tipo que descrevi acima que dirige as redações e controla o fluxo de informações. Não é por acaso que a imprensa de Mato Grosso não fala nada a respeito dos 118 processos civis e penais contra o presidente da Assembléia Legislativa, José Geraldo Riva, que dos jornais só merece elogios.
O ambiente de coação moral nas redações é infernal, de acordo com o relato de que se esfalfam de trabalhar para ganhar a vida honestamente num lugar onde honestidade está longe de ser um valor republicano. Esses colegas sofrem porque vivem sujeitos à sanha de chefes que ganham mais para esconder do público as safadezas de seus verdadeiros patrões do que para escancará-las, como se esperaria de todo jornalista que se preze.
E que efeito isso traz para os maiores interessados, que são os leitores e espectadores ? O pior possível. Sem informação, obrigado a consumir um jornalismo folhetinesco, o público não forma opinião, Não se conforma o espaço imanente da cidadania porque não há sequer uma "opinião pública" possível onde tudo é manipulação e pragmatismo.
O sistema funciona como um mecanismo retroalimentador das fraudes perpetradas contra a democracia. Jornalistas, políticos, juízes e uma parte da elite se aliam em benefício de seus interesses mais imediatos e menos morais. Tornam-se seres intocáveis. Usam o orçamento bilionário de instituições como o Legislativo estadual para calar os jornais e as emissoras com espantosas verbas publicitárias. Usam a caneta dos juízes acumpliciados para calar os blogs. E assim vão tocando a lucrativa atividade criminosa que enche bolsos privados enquanto esvazia os cofres do Estado.
Não fosse por um elemento novo na cena política de Mato Grosso e eu teria saído de lá com a sensação de que me salvei do Reino de Hades. A decisão do CNJ de limpar o Judiciário causou pânico entre os comparsas desse "sistema" institucionalizador de quadrilhas. Há uma semana há gente insone, desorientada, apavorada com a possibilidade de que juízes honestos tirem das gavetas processos que estão amarelando e prescrevendo, sobre os quais estavam sentados os magistrados corruptos.
A faxina saneadora continua esta semana com a aposentadoria provável de mais um juiz. E vai ainda mais longe quando o STJ apreciar uma denúncia mais grave do que a que já motivou a aposentadoria compulsória de três desembargadores e sete juízes. Ela trata da escandalosa venda de sentenças judiciais que grassa no judiciário matogrossense.
Não é por acaso que os que têm esperança de ver as instituições funcionando em benefício da cidadania estão saudando a interferência do CNJ como a senha para um novo tempo, que já chegou e logo começará a produzir efeitos saudáveis. Entre estes estão os jornalistas oprimidos por patrões corrompidos e chefes serviçais.
O recado que esse momento de transição deixa é o de que vale resistir. Recado endereçado para os jornalistas que vivem encantoados nesse corredor polonês da indecência, mas que não se vergaram nem aderiram.
O novo tempo já chegou. Alvíssaras!
fonte blog do pannunzio
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