Produção e consumo frágil
Por HÉLCIO CORRÊA GOMES
A produção industrial brasileira teve queda de 7,4% (dados do IBGE - 2009). Trata-se de resultado industrial fragilizado. O pior desde 1990 - se a análise for apenas linear. Tal decréscimo produtivo, entretanto, deve ser minimizado em si mesmo. Afinal, decorre da situação estatística de dados parciais colhidos numa franca saída da crise mundial. E porque tem dez meses com altas na produção. E apenas dois meses com recuos significativos. Ressaltando, ainda, que novembro e dezembro/2009 a indústria sofreu os normais impactos do ano findo.
Aqui entram pagamentos de décimos terceiros salários, férias com acréscimos e outras despesas do replanejamento para enfrentar o ano novo. O que traz realmente preocupação e marcante são as baixas nas categorias de consumos nacionais internas e divulgadas pelo IBGE: de bens de capital com queda de 17,4%, de bens intermediários de 8,8%, de bens de consumo duráveis com 6,4%, de bens de consumo semi e não duráveis com declínio de 1,6%. Tudo demonstrando que ajustes sazonais governamentais de 2009 (isenções e incentivos) não foram suficientes. E não interromperam as perigosas quedas numa área que tende a afetar num futuro próximo o crescimento produtivo real nacional.
Dentre as economias emergentes saímos na pior situação de consumo interno entre 2008/2009. As economias outras e nossas concorrentes, que disputam o mercado internacional e subsidiário com o Brasil, não se revelaram com tal acentuação de queda débil no consumo interno. E quando os concorrentes (China, Índia e Coréia etc.) encerram o ano em melhor condição é preciso tomar redobrado cuidados.
Afinal, na área da competitividade mundial e mais agressiva, quase tudo reflete em postos de trabalho - aqui ou fora do país. Nas importações - por vias tradicionais ou paralelas. Tudo porque quem tem maior vazão no consumo interno compete melhor no exterior.
E acaba por reconduzir ou ter a deságua dos investimentos. Ficando numa melhor condição de alavancar seu desenvolvimento regional e econômico, obtendo níveis de vidas mais adequados e quiçá até mais altos.
Apesar do recorde de vendas de veículos de 2009 (292.1 mil unidades vendidas) no Brasil. Incentivos e isenções de impostos a produção automotiva recuou 2,2% entre outubro e novembro/2009. Tudo depois de acumular 107,6% nos dez primeiros meses. E que redundou num recuou de 8% na produção e pasmem 14,5% no consumo a partir de novembro/2009. E mesmo com a criticada isenção de IPI aos carros novos a indústria automobilística constituiu aparentemente na vilã do decréscimo.
Embora dos 27 setores produtivos pesquisados 15 representam a soma do recuo da produção industrial nacional, o que não significa uma crise automobilística, mas que a maioria do parque produtivo industrial nacional não foi bem. E refletiu no índice fragilizado de consumo - esperado, mas não na intensidade revelada, que foi detectada irrefutavelmente pelo IBGE.
É um momento propício de repensar nossa política industrial com maior aceleração do consumo regional e interno, sob pena de ocorrer produção e estagnação do produzido. É preciso esquecer por um instante ou um pouco as eleições presidenciais ou disputas partidárias inúteis. E dedicar mais seriamente frente às questões técnicas e políticas apontadas pelo IBGE e exigindo correções.
Afinal, a social-democracia nacional - por um (PT) ou por outro (PSDB) já está consolidada, precisando doravante refletir nos níveis de vidas dos brasileiros - além do programa bolsa família. E quiçá até refazer parte da classe média (consumidora real), que transita hoje desnuda e não pesquisando nas universidades, frágil nas prestações de serviços e, também, desejosa de um programa federal - bolsa de vida com mais dignidade.
HÉLCIO CORRÊA GOMES é advogado e diretor tesoureiro da Associação dos Advogados Trabalhista de Mato Grosso (Aatramat).
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