HISTORIADOR SEBASTIÃO CARLOS: Toda censura é odienta. A arte é o contraponto do conformismo e do acomodamento mental.

Sebastião Carlos

Sobre censuras
Por Sebastião Carlos

 

Toda censura é odienta. A arte, em sua essência, é o contraponto do conformismo e do acomodamento mental. E isso não de agora.

Quem minimamente conhece a história da arte sabe que ela surge como elemento de inquietação, de questionamento, de provocação. Neste ponto, Ocidente e Oriente se encontram.

É bem verdade que não é (somente) por este aspecto que ela se valoriza, ou se eterniza. Outros elementos transportam um quadro, uma escultura, uma peça teatral ou um livro para o patamar da qualidade que transpõe os séculos.

Não estou em Cuiabá há várias semanas, portanto não vi a exposição do Gervane. Soube pela imprensa da sua abrupta retirada, mal fora aberta.

Sobre este artista, que conheço há décadas, posso afirmar, em sã consciência, que se trata de um dos melhores e mais produtivos da breve historia das artes plásticas em Mato Grosso.

Encerrar abruptamente uma exposição de arte, o que equivale a recolher um livro ou impedir uma encenação de teatro, é uma manifestação de obscurantismo.

No caso, pode-se argumentar que o local, por ser público, era impróprio pelo que se mostrava. Correto. Mas aqui a “culpa” já não é do artista.

Cabe a quem organizou a exposição encontrar o espaço mais adequado ou, se for o caso, indicar previamente o que considera a idade adequada para o visitante.

Ademais, ninguém é obrigado a ver um filme, assistir a uma peça ou percorrer uma exposição de arte. Daí que é inadmissível simplesmente retirar o artista e a sua obra como se inadequados fossem ao conjunto das pessoas.

Impedir que alguns, ainda que minoria tenha acesso a um filme, uma exposição ou a leitura de um poema é de um obscurantismo imperdoável.

Inaceitável, portanto, numa Democracia. Como teria dito a sensualmente desbocada, nem por isso menos inteligente e sedutora Marilyn Monroe, ícone de uma época: “O problema com a censura é que eles se preocupam se uma garota tem peito. Deviam se preocupar se ela não tivesse.”

Há duas semanas, estive no Museu Egípcio de Barcelona. Há nele, por exemplo, toda uma ala dedicada ao erotismo. E isto com esculturas de há 4000 anos antes de Cristo.

Caso Gervane: encerrar abruptamente uma exposição de arte, o que equivale a recolher um livro ou impedir uma encenação de teatro, é uma manifestação de obscurantismo

A humanidade não tem sido diferente ao longo dos séculos. E, mesmo em plena Idade Média, com o domínio absoluto do puritanismo religioso, havia os espíritos inconformados, rebeldes.

Nos séculos seguintes, para só citar um exemplo, entre tantos, um veneziano de nome Zorzi Baffo [1694-1768] se torna com os seus sonetos-crônicas o observador por excelência daquela Veneza, ao mesmo tempo pudica e libertina.

E, neste caso, foi tanto execrado e difamado como celebrado. Artistas, poetas, novelistas alguns hoje completamente esquecidos ou outros que o tempo consagrou não deixaram de abordar temas considerados por seus contemporâneos como escabrosos.

No já licencioso ano 1800, Coubert, Daumier, Toulose-Lautrec e outros foram ignorados e depois combatidos pelas boas e ricas famílias de uma França que se tornava o centro cultural do mundo. Hoje são celebrados.

Uma tela de Picasso, [1881 – 1973], “Mulher de virtude fácil”, de 1903, já na modernidade do século XX, causou enorme escândalo, ou mesmo “O Sonho”, de 1932, um retrato erótico de sua jovem amante Marie-Therèse Walter, espantou e foi detestada.

E nem se fale nas várias telas do surrealista Salvador Dali [1904 – 1989], como, por exemplo, a denominada [os pudicos saltem esta linha] “O Grande Masturbador”, que se encontra exposta no Museu Nacional Centro de Arte Moderna e Contemporânea Reina Sofia, em Madrid.

Ambos se tornariam em mestres consagrados, disputadíssimos por marchands e colecionadores endinheirados do mundo todo e expostos nos principais museus símbolos da civilização.

Tanto estes dois espanhóis, bem assim como aqueles que os antecederam nos século anteriores, enfrentaram o fundamentalismo da censura. Não da crítica, que esta é sempre bem vinda, mas da censura que não quer convencer, mas derrotar, destruir, fazer desaparecer.

Mas não são apenas aquelas obras tidas como pornográficas ou atentatórias à moral, que são hostilizadas pelos censores. Eles se preocupam, e muito, quando a obra fere questões sociais que incomodam os bem postos na vida.

Assim, atenção, a censura às vezes começa em um ponto tendo um objetivo especifico e não tarda, seja pela velada aquiescência ou omissão de muitos, a estender seu manto sobre outros aspectos da obra de arte. Não vamos longe nos vários exemplos.

Fiquemos com um de nossos grandes. Cândido Portinari [1903 – 1962] com os seus quadros e murais de forte denuncia social, e quem não se impacta diante de “Criança Morta” ou “Os Retirantes”, ambos de 1944, foi um perseguido, censurado e até exilado político.

Com isso, Portinari seria primeiro reconhecido fora do Brasil. Hoje é um nome dos mais respeitados da pintura mundial.

A censura tem quase sempre duas características básicas: por um lado, presta subordinação e atende aos interesses dos grupos dominantes, sejam eles políticos, religiosos ou econômicos; e, por outro, é sempre apresentada como uma medida que visa ao bem comum, de interesse coletivo da sociedade.

O estadista que foi Mário Soares, vitorioso após 40 anos da ditadura salazarista, constatou: “De todos os mecanismos repressivos, a Censura foi sem dúvida o mais eficiente, aquele que conseguiu manter o regime sem alterações estruturais durante quatro décadas.”.

Impedir um artista de expor seus quadros ou esculturas ou um escritor de publicar ou fazer circular seus livros seja pela força bruta ou por esquemas de pressão burocrática, seja pela mal disfarçada censura econômica, representa uma faca na cabeça do artista ou uma tesoura aberta na garganta do poeta.

Todavia, a Historia mostra que não será por esse mecanismo que se impedirá o surgimento de manifestações artísticas. Para a arte, a força bruta nada vale, apenas adia a sua emergência.

Mesmo porque o que a faz sobreviver é só o verdadeiro talento. E não é a censura que faz essa escolha. Esse tipo de contraste existirá sempre. Faz parte da vida.

O artista tem que demonstrar com determinação que o seu talento vencerá a perspectiva transmontana vigente em todas as épocas. Este é um processo argumentativo dialético.

Bom lembrar Picasso: “Não se consegue convencer um rato de que um gato pode trazer boa sorte”.

Como sabemos, o futuro sempre se pronuncia sobre quem fica na História: o censor ou o criador.

Desnecessário dizer que os censores vêm perdendo essa batalha.
 
SEBASTIÃO CARLOS GOMES DE CARVALHO é advogado e professor, membro da Academia Mato-grossense de Letras

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4 Comentários

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  1. - IP 189.59.33.155 - Responder

    Escrever sem ter visto e ainda sem nem saber onde ,então deixe te desenhar ,era pornográfica ,em um shopping,isto é, local publico e de livre acesso,e não era arte de qualidade e sim manifestações pobres e sem conteúdo de pessoas que se acham artistas,Mas esqueceram de combinar com os críticos e o povo.

  2. - IP 200.169.175.110 - Responder

    Particularmente, não sou fã do trabalho do Gervane! Porém , arte é sentimento, e arte também serve para provocar, fazer pensar. Só que vivemos um momento delicado política e socialmente. No Brasil e em grande parte da América e Europa, vemos ressurgir movimentos de extrema direita, fascistas e nazistas. A sociedade está cada vez mais conservadora e reacionária. Nelson Rodrigues tinha razão”Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos.”

  3. - IP 179.95.231.61 - Responder

    Exatamente,e nos transformamos em um país sem referência,tudo é politicamente incorreto, até proibir uns desviados de expor baixarias em local publico vira debate.Quando deveria ser simples,não pode ,Vá expor em outro local adequado a publico adulto.Mas não,vamos debater sobre liberdade,chegaram a falar até em nazismo,mas eram gravuras de putaria,só isso, não era arte e nem eram artistas.So queriam chocar e se vitimizar.E os idiotas caem nessa e vem a público defender , porque é legal e é moda.

  4. - IP 187.54.207.45 - Responder

    Não, Osmir e seus amigos jamais dominarão o mundo.

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