HISTORIADOR SEBASTIÃO CARLOS: Sodoma. Como assim? A interpretação mais difundida sobre o maior pecado de Sodoma teria sido o da grande profusão de sexo entre homens. Assim é que o termo sodomia entra no vocabulário de todos os idiomas como sinônimo de homossexualidade. Estou curioso tanto quanto ao desdobramento da Operação em Mato Grosso, mas também para saber o do porque do nome dado. Se o nome guardar alguma relação histórica, pelo menos uma certeza temos: outras operações serão desencadeadas

Pedro Nadaf, Marcel Cursi e Silval Barbosa, presos na Operação Sodoma. Mas Sodoma por que?

Pedro Nadaf, Marcel Cursi e Silval Barbosa, presos na Operação Sodoma. Mas Sodoma por que?

Sodoma. Como assim?

Por Sebastião Carlos

Nos últimos anos o país vem assistindo a uma tentativa de limpeza da corrupção. A face mais visível desse processo tem sido certamente, as operações da Policia Federal. Não só por se tratar da etapa inicial, com os elementos de surpresa que reúne, mas também pelo componente de espetáculo cênico, a ação da policia atrai os olhares de todos. Acredito que nem a etapa final do processo com o julgamento e a possível condenação dos réus, que podem durar anos, desperte tanta atenção. Muitas vezes a mera suspeita de que haverá uma operação policial, mais ainda quando se trata da policia federal, já é suficiente para abalos psicológicos em muitos. Para deixar desafetos preocupados e inquietos alguns plantam noticias na imprensa, sobretudo nos fins de semana, “informando” de supostas operações que a qualquer momento serão desencadeadas. É a famosa guerra de nervos com que os poderosos medem forças.

Inegavelmente, um dos aspectos mais interessantes dessas operações que estilhaçam reputações, mantém a mídia animada, a população entre surpresa e comemorativa e todos em expectativa quanto aos possíveis desdobramentos (inclusive os adversários dos que estarão sob a mira) é a nomenclatura que se dá às operações. A Polícia Federal tem sido bastante criativa nas denominações de suas ações. A engenhosidade na escolha dos nomes vem chamando a atenção não apenas nas áreas política e jurídica, como também na ligada à publicidade. A ideia de se dar nome às operações se constituiu numa grande “sacada”, como se diz na gíria. Os nomes têm o sentido de criar uma espécie de marca de fixação, como se tratasse de um produto comercial. Assim, quando se fala, por exemplo, na Operação Lava Jato, com seus vários desdobramentos, todos já sabem do que se trata e de como ela teve inicio.

Essa tática, além de criar certo glamour em torno dos fatos que motivaram o desencadeamento da ação policial, tem ainda outros objetivos práticos. A denominação figurativa procura juntar a explicação do porque ou de como tudo começou. Isso contribui para fixar na opinião pública uma determinada ideia, as pessoas comentam e até criam chistes e ironias em torno, o que faz com que seja mais difundida ainda, e ajuda também a imprensa, sendo o bastante mencionar o nome da operação para economizar palavras no noticiário. Sem duvida, foi uma jogada de marketing de rara oportunidade. Por outro lado, se diz que a nomenclatura cifrada contribui para a manutenção do sigilo, por parte dos agentes envolvidos, inclusive junto aos colegas da corporação. Assim, informes estratégicos correm menos risco de chegar ao conhecimento dos suspeitos. Hoje, quando se fala numa operação da PF, logo se espera pelo nome. E quanto mais interessante e inusitado mais chamativo. Oficialmente, as denominações são dadas com antecedência pelo delegado que chefia a operação, com a colaboração dos demais delegados. Daí é que o nome, que deve fazer uma alusão ao objeto da investigação, demonstra também a criatividade ou o conhecimento histórico desse oficial.

Mas nominar as operações não é coisa que sempre existiu. Essa “sacada” é relativamente nova. A primeira vez que isso aconteceu foi em 2002. Consta que o responsável por iniciar esse marketing foi o então diretor executivo da PF, delegado Zulmar Pimentel. Evangélico, ele passou a nomear as operações com denominações que faziam referencias às historias bíblicas. Adivinhe agora a quem coube a primazia de ter sido batizado com a primeira operação da PF? É, meu caro, foi o nosso querido Mato Grosso. Lembra-se da Operação Arca de Noé? Pois é. Desbaratou o jogo do bicho e suas ramificações. O “achado” foi de uma absoluta felicidade. Veja: Bicho = Arca de Noé. E depois da arca, veio o dilúvio. Pelo menos para um dos personagens.

Nos anos seguintes vieram tantas outras operações policiais, em que se os nomes se alternam entre personagens da mitologia greco-latina, bíblicos, cômicos, misteriosos, de filmes. Mais de duas mil operações foram desde então deflagradas pela PF com um apelido. Dentre estas, chamaram bastante atenção, pelo inusitado dos nomes, a Satiagraha (caminho da verdade, em sânscrito), a Loki (deus da mitologia nórdica que simboliza a trapaça), a Big Brother (2005), a Galáticos (2006) que investigou quadrilha que praticava crimes virtuais, a Canção do Exílio (no MA) e, só neste ano, já foram deflagradas a Caverna de Platão, a Lewinsky, a Terra Prometida, a Ressurreição dos Mortos. Há algum tempo, como se vê, os nomes deixaram de ser bíblicos, mas a correlação com o objeto da operação foi sempre mantida, ou seja, o nome dado tem sempre uma referencia, ainda que oblíqua, com os fatos que se pretende apurar.

Daí que, foi tendo em vista essa característica típica, que me assustei com o nome dado à operação ora em curso em Mato Grosso, deflagrada em conjunto pela Polícia Judiciária Civil e o Ministério Público Estadual. No noticiário televisivo, ouvi uma segunda vez e, para tirar dúvidas, fui aos jornais. Operação Sodoma, não tem dúvida. Ai surgiu a dúvida … que persiste. Se os nomes das operações têm que guardar relação com o objeto, (ou não?), continuo sem ter explicação clara para o nome. Ou sou eu que estou defasado em relação a nossa realidade circundante?

Como muita gente sabe Sodoma, e sua irmã gêmea Gomorra, foram duas cidades hebreias destruídas por Deus (Jeovah) que fez cair do céu fogo e enxofre para castigá-las, porque eram tantos e tão graves os pecados daquele povo. Conta-se que a devassidão moral era total e absoluta. A corrupção, os atos imorais, os crimes superavam aos de todas as demais cidades conhecidas. A história está em Gênesis 19:1-11. Dois anjos, enviados por Deus, chegam à cidade, disfarçados de viajantes, para conferirem os fatos. Hoje talvez fossem chamados de auditores ou espiões. São recebidos por Ló, sobrinho de Abraão, que os leva para sua casa. Tão logo terminam o jantar a casa é cercada por uma multidão de homens que querem estuprá-los. Ao que Lot faz um apelo dramático: “Meus irmãos, rogo-vos que não procedais tão perversamente; eis aqui, tenho duas filhas que ainda não conheceram varão; eu vo-las trarei para fora, e lhes fareis como bem vos parecer: somente nada façais a estes homens, porquanto entraram debaixo da sombra do meu telhado”. No episódio, o texto bíblico se refere à tentativa de todos os homens da cidade, reunidos à frente da casa de Ló, de realizarem uma relação grupal e à força com os recém-chegados. Em reação, os anjos cegam aqueles homens e, em seguida, retiram o patriarca e sua família da cidade, dando-lhes peremptória ordem de seguirem sempre em direção das montanhas, sem nunca olharem para trás. No entanto, maldita curiosidade, a mulher de Ló desobedece. Como castigo é transformada em estátua de sal. Talvez esse fato tenha dado origem ao dito popular: “a curiosidade mata”. Então, diz o Gênesis, tem inicio a destruição de Sodoma.

A interpretação mais difundida sobre o maior pecado de Sodoma teria sido o da grande profusão de sexo entre homens. Assim é que o termo sodomia entra no vocabulário de todos os idiomas como sinônimo de homossexualidade. Alguns autores também dizem que o maior pecado teria sido a falta de hospitalidade, já outros afirmam que se trata de referencia a comum prática de estupro coletivo, mas sempre contra homens.

Enfim … chega de história do passado. Estou curioso tanto quanto ao desdobramento da Operação em Mato Grosso, mas também para saber o do porque do nome dado. Se o nome guardar alguma relação histórica, pelo menos uma certeza temos: outras operações serão desencadeadas. Na sequencia, certamente, virá a Operação Gomorra. E, considerando que estas duas eram parte de um conjunto de cinco cidades – estado localizadas à beira do Mar Morto, no vale de Sidim, e que se chamavam Admá, Zebolim e Bela ou Zoar, então isto pode estar indicando que haverá uma sequencia de Operações com esses nomes. Tremei pecadores.

Ah! outra lembrança: já houve uma operação da Policia Federal com essa mesma denominação. Ela teve inicio no dia 22 de janeiro de 2007 quando os agentes prenderam no Aeroporto de Vitória três mulheres integrantes de uma quadrilha que traficava pessoas para a Europa. Bem … nesse caso alguma relação existia.

E, antes que me esqueça, o delegado Zulmar, o criador dos nomes para as operações, o grande “bolador” desse marketing, foi afastado do cargo em maio de 2007. Uma operação da própria PF o investigou pela acusação de estar passando informações sigilosas a terceiros. O nome dessa operação? Navalha. Sério. A navalha fecha em si mesma e é feita para cortar quem a usa. Cortar na própria carne. Nome super adequado, convenhamos.

 

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sebastião-carlos-advogado-e-professor-mt-na pagina do E

Sebastião Carlos é historiador em Cuiabá, Mato Grosso.

 

 

2 Comentários

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  1. - IP 189.31.40.154 - Responder

    Talvez ; vejam bem, talvez , seja porque além de f… com a nossa vida ,com essas obras malfeitas e superfaturadas eles ainda faziam outras coisas que também começam com a letra f.
    Gente maldita.

  2. - IP 189.10.50.245 - Responder

    Pirotecnia à parte, o nome Sodoma foi bem bolado e não faz analogia (dos figurões presos) com o homossexualismo que havia em Sodoma. Acontece que antes da destruição Deus conversou com Abraão e revelou que faria chover enxofre sobre a cidade dos pecadores. Abraão implorou que Ele poupasse o lugar se ali houvessem 50 justos. Deus aceitou. Abraão sabia que não tinha tanta gente boa assim e baixou pra 45 e o Senhor manteve o perdão. Em seguida foi reduzindo pra 40, 35, 30… até chegar a 10 e Deus lhe assegurou que se houvessem 10, Sodoma não seria riscada do mapa. Acontece, que somente havia quatro justos, na casa de Ló (sobrinho de Abraão): ele, a patroa e as duas filhas.
    Trocado em miúdos: o MPE deu o recado que se houvesse um justo no governo de Silval, a estrutura do antigo governo não seria destruída

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