HISTORIADOR SEBASTIÃO CARLOS: Quantos estão se autoindagando agora, sobre a gravidade do momento que estamos vivendo? Quantos olhares estão se dirigindo para uma realidade que se situa abaixo dos acontecimentos que lemos no jornal ou vemos na tv? Todos os ingredientes estão sendo colocados na panela dos infortúnios: um governo, e não apenas o atual, que não consegue atender minimamente os anseios da população. Uma classe dirigente, e não somente a constituída pelos petistas e seus aliados, que tem sido insensível aos clamores dos fatos, aos quais vem respondendo com demagogia, populismo, falta de compromisso com a Nação e desonestidade intelectual.

Sebastião Carlos, historiador mato-grossense

Sebastião Carlos, historiador mato-grossense

O que está sob a superfície?

Sebastião Carlos
Um dos elementos mais interessantes quando se debruça sobre os estudos históricos é a descoberta que se faz sobre o desconhecimento que os contemporâneos tinham sobre os fatos decisivos que estavam vivendo. Não me refiro apenas às consequências posteriores que eles provocaram, ou seja, os caminhos tortos e inesperados que tomaram. Não raras vezes um movimento político-social foi deflagrado tendo um determinado objetivo, mas que ao longo do processo deu largos passos em outra direção, muitas vezes opostos àquele inicial.

E o que nos impressiona ainda mais é quando percebemos a absoluta insensibilidade política com que as classes dirigentes encararam esses acontecimentos enquanto eles estavam em andamento. Não foram poucas às vezes em que, sob uma aparente tranquilidade, estava sendo gerado um furacão social. A não ser aqueles poucos mais diretamente envolvidos no processo político, a grande maioria nada percebia e nem pressentia. O governo agia como se nada indicasse a gravidade da situação, a elite – cultural, empresarial, política – não era capaz, salvo raras exceções, de extrair dos fatos correntes uma análise mais apurada, e o povo, bem … este levava a sua vidinha espremida e medíocre do cotidiano. Enquanto isso, as coisas fervilhavam por baixo, como se as cinzas encobrissem as brasas, que subjaziam.

Embora reconheça que nem sempre, ou quase nunca, os povos aprendem corretamente a lições da História, poderia aleatoriamente enumerar centenas de casos a demonstrar a insensibilidade ou a autentica ignorância. Ocorrem-me, ao livre buscar na memória, dois casos marcantes. Ambos acontecidos no calor de dois dos mais decisivos fatos da História Moderna. Nos últimos dias de junho de 1789, a Imperatriz Maria Antonieta (1755 – 1793) passeia pelas ruas de Paris com a sua imponente carruagem quando percebe uma agitada movimentação de populares, que se avoluma ao perceberem a sua presença. De modo indiferente, ela indaga ao cocheiro o porquê daquele alarido. Ao que o empregado lhe responde: “Majestade não há pão para comer”. E ela: “Se não tem pão, que comam brioches”. Ela não entendeu que o povo não comia pão porque a crise era tão grande que o produto escasseava e que não existia dinheiro para comprá-lo, supunha que não se comia pão por mera questão de gosto, daí recomendar-lhe que comesse um produto mais fino e muito mais caro. Não se garante que a frase tenha sido mesmo dita por ela, mas serve para exemplificar a insensibilidade daqueles que estão no poder. Poucos dias depois, em 14 de julho, o povo rebelado derrubava a Bastilha e nas semanas seguintes se dava o destronamento de seu marido Luis XVI, com o posterior guilhotinamento de ambos. Era a Revolução Francesa. O outro acontecimento, cuja gravidade no inicio poucos perceberam, se deu na primeira década do século XX. John Reed, em seu portentoso relato ‘Dez dias que abalaram o mundo’ mostra o ritmo frenético da movimentação que antecedeu a revolução bolchevique de outubro/novembro de 1917. Tão interessante quanto a agitação subterrânea dos revolucionários que atuavam nas sombras, é a descrição que ele faz dos burgueses e dos nobres, sobretudo em Moscou, que continuavam levando a vida de sempre de festas, de idas ao Bolshoi, de comemorações e de grandes gastos. Os parlamentares discutiam questões infindáveis e distantes do interesse direto do povo. Enfim, tudo normal na superfície. Mas no subterrâneo a lava da rebelião borbulhava. Meses depois o regime socialista estava implantado e a face do mundo mudada.

Por que todo este comentário? Quantos estão se autoindagando agora, neste exato instante, sobre a gravidade do momento que estamos vivendo? Quantos olhares estão se dirigindo para uma realidade que se situa abaixo dos acontecimentos que lemos no jornal ou vemos na tv? O governo está à deriva. E não culpemos apenas à presidente. Não é a exclusiva responsável. Trata-se de um conjunto de fatores, que não são de agora. Não nos enganemos, a História mostra também que muito embora haja um fato detonador de um acontecimento decisivo, ele é apenas consequência de um acúmulo de fatos anteriores. É como uma comporta que se rompe. Nada acontece por acaso. Nenhum dos fatos que relatei aconteceu do dia para a noite. Eles vieram acontecendo, e se agravando, e se acumulando, ao longo de anos e até de décadas. Um dia, até mesmo por uma coisa bem insignificante, a coisa explodiu. Então, deu no que deu.

Todos os ingredientes estão sendo colocados na panela dos infortúnios: um governo, e não apenas o atual, que não consegue atender minimamente os anseios da população. Uma classe dirigente, e não somente a constituída pelos petistas e seus aliados, que tem sido insensível aos clamores dos fatos, aos quais vem respondendo com demagogia, populismo, falta de compromisso com a Nação e desonestidade intelectual. Desrespeito à lei para os de cima, cinismo quando se trata de encarar indícios de improbidade, tanto no que diz respeito à gastança pública, o mau uso e desperdício do dinheiro, quanto na corrupção mais deslavada. E não de agora. Para suprir as burras estatais o caminho é um só: impostos, taxação. Com o conhecido perdão aos sonegadores e vista grossa aos inúmeros privilégios. Os parlamentares discutem o sexo dos anjos e, com raríssimas exceções, tratam de criar mais privilégios para si. O Judiciário, apesar de algum esforço, continua moroso ao extremo. A elite cultural e empresarial se calou e se acomodou. Sempre com as exceções de praxe. A elite econômica e social continua afastada dos problemas diretos do país, a mais das vezes perdida na futilidade em torno do próprio umbigo. Enquanto isso o populacho caminha no dia a dia sem muito sentido e cheio de angustias pelo amanhã. Um quadro muito assemelhado com o caldo de cultura que resultou nos terremotos políticos apontados.

O poeta e matemático Joaquim Cardoso, com a sensibilidade aguçada dos poetas, pressentiu que “As coisas estão se reunindo por detrás da realidade.” Não há como não subscrevê-lo.

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado, professor e historiador.

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