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HISTORIADOR SEBASTIÃO CARLOS: Neste domingo, 1º, a Espanha viverá um momento histórico. A realização do plebiscito na Catalunha

Sebastião Carlos

ESPANHA E CATALUNHA: UNAS
Sebastião Carlos

    Neste domingo, 1º, a Espanha viverá um momento histórico. A realização do plebiscito na Catalunha representa um momento crítico para esse país. Os ânimos estão acirradíssimos. A reivindicação separatista é antiga. Os catalães consideram que carregam o resto do país nas costas. Segundo eles, pagam grande parte dos impostos e recebem pouco em troca. Representam 19% do PIB e possuem 16% da população do país. Imagine vocês São Paulo querendo ser independente do Brasil. Mas lá a coisa não é tão simples assim. Além da questão econômica há, sobretudo, um forte pano de fundo cultural e histórico. A Catalunha tem uma língua própria, o catalão, e toda uma longa tradição de rebeldia ao governo central. Quem já leu o clássico e emocionante relato de George Orwell, ‘Lutando na Espanha’, sabe perfeitamente do que estou falando. Toda essa indomável tradição ficou sufocada durante os quarenta anos de regime franquista. A língua, a literatura e a cultura estiveram proibidas. A Catalunha foi o bastião da resistência às tropas franquistas durante a Guerra Civil, e mesmo nos anos imediatos ao triunfo de Franco. Hoje o catalão é falado nas ruas e ensinado nas escolas e há um forte movimento cultural e literário. A indústria e o comércio mais ativos da Espanha lá se encontram.
    O governo central, que eles chamam “Governo de Madrid”, a meu ver, cometeu o erro de proibir a realização do plebiscito que já havia sido vetado pelo Tribunal Constitucional, prendeu os lideres do movimento e confiscou urnas e propagandas. Só serviu para radicalizar. Há três anos lá estive e participei de algumas passeatas contra a independência. Nos primeiros anos de 2000 morei na Espanha, na região de Valência, que é uma Comunidade Autônoma. Embora tenha também uma língua própria, o valenciano, e uma cultura que remonta aos romanos, a ideia independentista não tem, contudo, a mesma atração que em Barcelona. Mas lá já chegavam os ecos. Há três semanas estava em Barcelona e iria participar de uma passeata contra a independência. Mas os ânimos já eram outros e estavam radicalizados. Tinha menos pessoas na passeata e, em conversa com estudantes, fui desaconselhado a participar, como fizera três anos antes, porque havia ameaça de confronto com os grupos favoráveis, que se tornaram cada vez mais numerosos depois da decisão do governo de proibir o plebiscito. É o resultado da disposição para reprimir claramente manifestada pelo governo central. Existe agora radicalização de ambas as partes.
    O governo de Rajoy cometeu grave erro, embora esteja agindo dentro da lei. É que o Tribunal Constitucional proibiu o plebiscito por ferir a Constituição, que não prevê o direito de separação e estabelece que a “soberania nacional prevalece sobre o povo espanhol”, e eles só podem ser convocados pelo rei e precisam ser propostos pelo chefe de governo com autorização do Legislativo. Além disso, a Comunidade europeia já se pronunciou contra e, importantíssimo, uma pesquisa encomendada pelo governo local e divulgada e junho indica que cerca de 50 por cento dos catalães eram contra a independência. No entanto, personalidades do mundo esportivo, artístico e cultural já se manifestaram contra e a favor. Entre nomes conhecidos no mundo todo que são contra a independência estão o escritor Mario Vargas Llosa e a guatemalteca Rigoberta Menchú, ganhadores do Prêmio Nobel, o tenista Rafael Nadal, o ator Antonio Banderas, os catalães Juan Marsé, romancista que ganhou o Prêmio Cervantes em 2008, o popularíssimo ex-jogador Pep Guardiola, atual técnico do Manchester City, o cantor e compositor Joan Manuel Serrat, a cineasta Isabel Coixet, vencedora de quatro prêmios Goya, a atriz Marisa Paredes, uma das musas de Pedro Almodóvar e outras.
    A pergunta que será feita no plebiscito é: “Quer que a Catalunha seja um Estado independente sob a forma de república?”.
    Tomara que esse evento não deixe sequelas mais profundas. A Espanha é um belo país para ficar dividido.

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    Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás.

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