HISTORIADOR SEBASTIÃO CARLOS: “Não importa que (os politicos brasileiros) não tenham lido o livro “O Leopardo”. Existem certas coisas atávicas que parecem não ser necessárias serem ensinadas ou que mesmo precisem da literatura. E uma destas coisas é certamente a arte da sobrevivência. De modo que a afirmativa ancestral, tão bem exposta por Lampedusa, “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”, é a primeira lição aprendida por certos políticos profissionais. O que se assiste então agora (no Brasil)? Todos se dando as mãos para tentarem se salvar da indignação popular. Falam em reformas que nunca virão”

Sebastião Carlos, historiador

Sebastião Carlos, historiador

A FICÇÃO COMO REALIDADE

Sebastião Carlos

 

Já se disse que algumas vezes a realidade supera a ficção. E que esta, não raro, por mais absurda que possa ser, se empalidece diante dos fatos. Dias atrás, diante de dois fatos políticos passados nas altas esferas do país, fez-me recordar um romance que li ainda na juventude. Acho que irei relê-lo. Embora relatando fatos que se passam há quase dois séculos, o romance tem sido muito atual. O que mostra que o ser humano muda pouco. A tecnologia e a ciência avançam, o homem continua o mesmo.

Vamos primeiro aos fatos recém-acontecidos. Se tivéssemos que elencar um rol de temas sobre os quais os políticos se dizem preocupados, sobretudo em épocas eleitorais ou de crise, a reforma política-partidária ocuparia destaque nesse ranking. FHC, Lula e agora Dilma prometeram fazê-la. A atual presidente no auge das passeatas de junho do ano passado falou até em convocação de um plebiscito para decidir sobre a questão. Caiu no ridículo, claro. Fernando Henrique introduziu a excrescência da reeleição, conseguida sob o peso de denuncia de compra de votos, que agora o seu Partido em peso rechaçou. O PT que veio renegando tudo o que tinha acontecido antes deste Pedro Álvares Cabral (“nunca antes na história deste país”, lembram-se?), embora de bom grado tenha aplicado os mesmos fundamentos econômicos do governo tucano, quando chegou ao poder não disse um pio quanto a revogar a reeleição. Aliás, esta tem sido a marca registrada desse partido: fazer exatamente o contrário do que antes na oposição dizia que iria faria tão logo alcançasse ao poder. A “herança maldita” que, como dizia, estaria recebendo foi para o lulismo bem outra coisa. Aqui, sim, é adequada a expressão: nunca antes na história deste país um partido foi tão contraditório, nunca tantos foram tão enganados. Sob o lulo-petismo o presidencialismo de conveniência foi mantido e ampliado em larga escala. Enfim, tudo continuou como dantes no quartel de Abrantes.

Nos primeiros meses do novo Congresso voltou à baila o projeto de reforma política. Nomeou-se uma comissão na Câmara para estudar e propor um novo projeto político. Os interesses foram tantos e tantos foram os desencontros que ela foi atropelada, informalmente dissolvida, e levada ao plenário um arremedo de reforma. Resultado final, um risco n’água. Com exceção da derrubada da reeleição, nada mudou. Os nossos políticos gostam disso, assim terão o mesmo assunto para ser tratado, por anos a fio.

O outro fato, este sim, pelo menos no meu entender, mais surpreendente. O STF abriu larga porta para enfraquecer a democracia representativa. Decidiu que Governadores e Senadores poderão sair e entrar, entrar e sair, dos Partidos quando bem lhes aprouver. Aos demais, contudo, permanece vedada a troca de Partido, sob o risco da perda do mandato. Incrível. Ora, precisamente aqueles que, por representarem a totalidade da população, deveriam dar o exemplo de fidelidade partidária e aos princípios de lealdade, a esses, sob que fundamento? lhes foi concedido o direito de virarem a casaca quando tal lhes for de interesse e conveniencia. Não é preciso dizer que foguetes de imediato espocaram aqui e acolá. Assim a mais alta Corte de Justiça criou políticos de duas classes. Enquanto isso a legislação sobre o critério de financiamento das campanhas, dormita. Então, a estória (sem H) da reforma política necessária para o país, etc. etc, (o discurso é bonito) vai continuar.

Onde entra a novela que me atraiu em época que vivi de tantas expectativas? No final dos anos 1950 foi publicado “O Leopardo” (Il Gattopardo). Nesse romance o italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa (18961957), magistralmente relata o declínio da aristocracia da Sicilia no contexto do Risorgimento. O conservador e autoritário príncipe Fabrizio Corbera é provocado pelo príncipe Tancredi, seu sobrinho, um cínico bon vivant, a abandonarem a lealdade que tradicionalmente mantinham com a família dos Bourbons. Diante dos fatos que indicavam para a inexorável derrocada dos Bourbons, aquela aliança se tornara não só indesejável como perigosa. Era, pois, o momento de transferirem a lealdade para a família dos Saboia, que estavam em ascensão, e da qual até então haviam sido inimigos. Para o sobrinho era a única maneira de salvaram a pele e o pouco da fortuna que ainda lhes restava. A fala de Tancredi é memorável: “A não ser que nos salvemos, dando-nos as mãos agora, eles nos submeterão à República. Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”.

Não importa que não tenham lido o livro. Aliás, que livro mesmo leêm os nossos mandatários e representantes? Imaginar que conhecem ou mesmo que apreciam literatura já é querer muito. Mas existem certas coisas atávicas que parecem não ser necessárias serem ensinadas ou que mesmo precisem da literatura. E uma destas coisas é certamente a arte da sobrevivência. De modo que a afirmativa ancestral, tão bem exposta por Lampedusa, “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”, é a primeira lição aprendida por certos políticos profissionais.

O que se assiste então agora? Todos se dando as mãos para tentarem se salvar da indignação popular. Falam em reformas que nunca virão. A não ser na superfície. Na aparência as coisas mudam, na essência permanecem as mesmas. Atenção, leitor, esta situação não é apenas em âmbito nacional. É só dar uma olhada nas alianças que são formadas para ganhar eleições. Na aparência, e na imprensa, parece ter havido mudança, mas passado o tempo, observando-se melhor, então se percebe que não se saiu do lugar, que a tinta da casa foi trocada, mas a estrutura permanece a mesma.

Ps. 1. Em 1963 o romance virou filme do diretor Luchino Visconti, tendo como estrelas, entre outros, Burt Lancaster, Alain Delon e Claudia Cardinali.

  1. Ah! o dito, “Está tudo como dantes no quartel d’Abrantes”, é do século XIX, e é usada para indicar que, apesar da aparente movimentação havida, nada mudou.

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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é professor de Direito e historiador. Autor de, entre outros, ‘A primeira crítica teatral no Brasil’.

Adaptação de "O Leopardo" para o cinema, dirigida por Luchino Visconti, ganhou a Palma de Ouro, no Festival de Cannes

Adaptação de “O Leopardo” para o cinema, dirigida por Luchino Visconti, ganhou a Palma de Ouro, no Festival de Cannes

 

 

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