gonçalves cordeiro

HISTORIADOR SEBASTIÃO CARLOS, discutindo política, indaga: será que o brasileiro é atavicamente masoquista?

Sebastião Carlos

A SÍNDROME MASOQUISTA
Sebastião Carlos

 
Diante de tanta enganação pela qual passou o povo ao longo das últimas décadas, é espantoso constatar o quão difícil é o aprendizado das massas. É como se a maioria da população, mesmo com tanta decepção, dissesse, como a mulher do malandro: “me engane que eu gosto”. Ou toda essa situação deve passar necessariamente pelo reconhecimento de uma grande e atávica ingenuidade coletiva? Mas, me pergunto, como é possível, tantos serem ingênuos a tal ponto de apanharem e não quererem descobrir de onde vem o chicote, já que, pelo que sabemos, ele apenas vem sendo trocado de mão?
Não é com estupefação, e indignação, que estamos vendo um quase prisioneiro, réu por corrupção passiva e ativa em várias ações, estar em primeiro lugar nas pesquisas presidenciais? Com igual surpresa, e inquietação, presenciamos gente pedindo a “volta ao regime militar”, querendo nova “intervenção dos quarteis” e outras estupidezes, a imensa maioria destes sem saber do que está dizendo. Até porque, se estes tivessem um mínimo de curiosidade histórica iriam ficar sabendo que os principais líderes civis do movimento de 64, e depois alguns militares também, foram literalmente engolidos por ele. Sem falar em todos aqueles que ousavam pedir “a volta da Democracia” e bradaram pela “intervenção dos direitos dos cidadãos”.
De outra parte, estamos vendo pessoas, no Brasil quanto neste nosso Estado, que viveram da política e tiveram responsabilidade ativa em governos passados, e que agora, diante da maré montante, [pelo menos na superfície], que aponta para a renovação politica, começam a se aproximar da frente do palco se apresentando como paladinos da nova luta do povo. E assim estão agindo como se nunca tivessem sido responsáveis por muitos desastres econômicos e sociais. Isto é tão grave como os anteriores citados, só que o nome mais apropriado a ser dado para isso é, cinismo e desfaçatez. O curioso é que há um liame a ligar todos eles: a falta de memória coletiva.
Como se explica isso? Extrema falta de capacidade de discernimento, o que só uma boa dose de educação pode dar? Esse raciocínio nos conduz a outra indagação: temos que esperar que toda a população seja educada para só então termos a esperança de que haverá a rejeição total contra a corrupção e os abusos? Será que somente depois desse longo processo é que este país finalmente passará a ser uma nação de verdade em que o seu potencial econômico será colocado para transformá-lo em primeira linha?
Existe em todos nós uma absoluta falta de memória histórica. Isto será suficiente para explicar o porquê de, ao longo dos anos, continuarmos elegendo sempre as mesmas figuras ou seus assemelhados? Ou existe em cada brasileiro um “amor” ancestral ao sofrimento, isto é, que somos atavicamente masoquistas, “como é bom sofrer e viver atribulado”, além de “adorarmos” o papel permanente do ingênuo?
Que me diz o meu amigo leitor? Vamos refletir sobre isso? Quem sabe a milenar estória do sultão da Pérsia, que pretendo contar na próxima oportunidade, nos ajude com alguma luz.
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Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é advogado, historiador, professor.

2 Comentários

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  1. - IP 187.183.134.101 - Responder

    Modestamente para mim, as massas estão desde sempre sob o domínio do consumismo capitalista. A classe média – último reduto de resistência pensante na sociedade – vive sob o inquietante dilema de, ou participar ativamente da libertação intelectual das classes subalternas, ou lutar por sua própria ascensão social (afinal trocar de carro a cada três anos, adquirir imóvel em região nobre ou realizar constantes viagens internacionais continuam a ser o “must”). Enquanto tudo acontece, os detentores do capital ou do domínio do poder político, jurídico e social – os atores sociais de maior relevo – assistem satisfeitos uma sociedade desorientada que não incomoda ninguém. O problema, é que o Brasil não reconhece como nação.

  2. - IP 187.183.134.101 - Responder

    Modestamente para mim, as massas estão desde sempre sob o domínio do consumismo capitalista. A classe média – último reduto de resistência pensante na sociedade – vive sob o inquietante dilema de, ou participar ativamente da libertação intelectual das classes subalternas, ou lutar por sua própria ascensão social (afinal, trocar de carro a cada três anos, adquirir imóvel em região nobre ou realizar constantes viagens internacionais continuam a ser o “must”). Enquanto tudo acontece, os detentores do capital ou do domínio do poder político, jurídico e social – os atores sociais de maior relevo – assistem satisfeitos uma sociedade desorientada que não incomoda ninguém. O problema é que o Brasil não se reconhece como nação.

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