HISTORIADOR SEBASTIÃO CARLOS: As ideias conspirativas contra o presidente da República encontraram em Mato Grosso terreno fertilíssimo. O governador Corrêa da Costa que já trabalhava o meio civil desde a sua eleição em 1961, recebeu com grande satisfação a transferência do Coronel Carlos de Meira Mattos para comandar o 16º Batalhão de Cavalaria. Elemento afinadíssimo com os conspiradores nacionais, Meira Mattos tão logo chega a Cuiabá passa a articular abertamente a contestação armada ao governo central

JANGO MARIA TERESAMATO GROSSO E O GOLPE DE 1964 – II

SEBASTIÃO CARLOS

Em Mato Grosso, as oligarquias locais vinham, com tranquilidade, se revezando no poder desde a redemocratização em 45. Aliás, como acontecera, embora com outros nomes, na República Velha. O PSD e a UDN, não obstante partidariamente se digladiassem nas disputas locais, em âmbito nacional, no campo do comprometimento ideológico, estavam mais que afinados com as forças mais conservadoras e de direita do país. Afinal, a oposição significativamente mais numerosa ao governador era comandada pelo senador Filinto Müller, conhecida figura nacional da direita. A terceira força política, representada pelo PTB, o partido do presidente da República, era apenas incipiente e, no que tinha de representativo como quadro partidário, era liderado por outra figura conservadora, por sinal o irmão de Filinto, o ex-interventor federal (1937-1945) Júlio Strubing Müller. É bem verdade, que esse partido estava começando a por a cabeça de fora, mas ainda sem musculatura suficiente para oferecer, naquele momento, alternativa aos dois maiores. É digno de nota, porém, assinalar-se que em seu interior estava se firmando um grupo, autodenominado “novo PTB”, em que elementos de esquerda, particularmente no sul do Estado, estavam tendo forte presença. O maior representante desse grupo era o médico e coronel da reserva da FAB, Wilson Fadul que, então deputado federal, fora candidato ao governo em 1958.

Enquanto que aqueles plenamente identificados com o presidente da Republica, representados pelo Partido Trabalhista Brasileiro, era um grupo numericamente insignificante, e constituído em sua expressiva maioria por profissionais liberais e alguns poucos líderes estudantis, formando uma minoria dentro da própria agremiação, já que a chefia partidária era conservadora, as forças no campo da oposição a Jango eram hegemônicas e constituíam uma estreita e sólida aliança entre a oligarquia política e a mais forte estrutura econômica existente no Estado.

Em contraponto à fragilidade daqueles, estas últimas vinham, desde há muito, se articulando. Na montante da contestação comandada por poderosos setores do meio rural e industrial, e de políticos com forte penetração na classe média, além dos estamentos militares, as ideias conspirativas contra o presidente da República encontraram em Mato Grosso terreno fertilíssimo. O governador Corrêa da Costa que já trabalhava o meio civil desde a sua eleição em 1961, recebeu com grande satisfação a transferência do Coronel Carlos de Meira Mattos para comandar o 16º Batalhão de Cavalaria. Elemento afinadíssimo com os conspiradores nacionais, Meira Mattos tão logo chega a Cuiabá passa a articular abertamente a contestação armada ao governo central sendo o principal e mais importante elo entre militares e civis em Mato Grosso e sua eficaz ligação com o comando nacional dos conspiradores.

A articulação sediosa na capital era feita a céu aberto. Rubens de Mendonça, em seu Histórias das Revoluções em Mato Grosso, reproduz artigo de Meira Mattos, no qual, falando na terceira pessoa, diz claramente que, “desde sua chegada, em principio de outubro de 1963, preocupou-se em fazer pregação, entre os seus oficiais e amigos civis, sobre  necessidade de se estar preparados para apoiar-se um movimento de salvação de nossa democracia e de restauração dos costumes políticos, movimento este em gestação nas principais capitais do país”. Vê-se, pois, que antes mesmo dos fatos que são comumente alegados como justificativa para a deflagração do movimento, ou seja, o comício da Central do Brasil, no dia 13 de março, ou a reunião de Jango com os marinheiros, o que efetivamente se constituiu numa imperdoável quebra da hierarquia, a conspiração para a deposição já estava em marcha há muito tempo.

Por sua vez, o governador, tendo dado “o apoio decidido e franco” ao coronel Meira Matos, agia febrilmente para arregimentar todas as forças políticas e econômicas do Estado. Um dos mais fieis aliados de Corrêa da Costa e convicto conspirador era o advogado Demosthenes Martins. Posteriormente ele relataria em suas memórias A poeira da jornada: “Nos primeiros dias de março, o Governador Fernando Corrêa deslocou-se de Cuiabá para Campo Grande a fim de melhor esquematizar, com elementos vinculados à reação, as providências a serem desenvolvidas e aguardar a designação da data da reunião dos governadores do Centro-Sul, na qual se traçaria a ação a seguir”.

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sebastião carlos advogado e professor mt

Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é historiador e advogado. É membro do Instituto dos Advogados Brasileiros (RJ) e da Academia Mato-Grossense de Letras.

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