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HISTORIADOR GABRIEL TRIGUEIRO: Uma radical guinada à esquerda nos Estados Unidos

Trigueiro

Uma radical guinada à esquerda

Graças a Trump, socialistas democráticos estão se tornarndo uma força relevante na esfera pública norte-americana
Socialista, a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez derrotou importantes figuras de seu partido com um discurso mais radical à esquerda Foto: Jonathan Ernst / Reuters
Socialista, a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez derrotou importantes figuras de seu partido com um discurso mais radical à esquerda Foto: Jonathan Ernst / Reuters

Recentemente alguns podcasts de prestígio, como o FiveThirtyEight, do influente analista político Nate Silver, ou mesmo o da New Yorker, um dos mais respeitados semanários políticos e culturais dos EUA, argumentaram algo similar: estaria em curso um backlash à esquerda gerado pelo governo Trump. Ainda está cedo para tentar prever o que quer que seja, e qualquer exercício de futurologia é charlatanice irresponsável. Todavia, é possível mapear tendências e traçar analogias históricas.

Algumas campanhas políticas são importantes menos por conta de seus resultados imediatos, de curto prazo. E mais porque lançam algumas sementes que poderão frutificar lá na frente. A campanha de Barry Goldwater (anos 60) foi dar na eleição de Ronald Reagan (anos 80). As campanhas de Patrick J. Buchanan (ao longo da década de 90), deram na eleição de Donald Trump (em 2016).

Tanto Goldwater quanto Buchanan jamais conseguiram se eleger, mas geraram o cenário adequado para candidaturas mais bem adaptadas à cena política do que as deles próprios. Trocando em miúdos, foram candidaturas-movimentos. Embora Bernie Sanders tenha sido derrotado pela indicação de Hillary Clinton, ainda nas primárias de 2016, o fato insofismável é o de que ele acabou cavando caminho para algo ainda maior do que ele próprio.

A maior parte da agenda defendida por Sanders em 2016 era um conjunto de ideias completamente à margem do sistema. No entanto, em um espaço de meros três anos (incompletos) viraram mainstream . Basta pensar nas últimas midterms e na eleição de congressistas como Alexandria Ocasio-Cortez (Nova York) que conseguiu derrotar habilmente o insider Joe Crowley, muito mais afinado à estrutura partidária Democrata e ao establishment de ocasião.

Um mural, pintado pela artista Lexi Bella, no Lower East Side, em Nova York, homenageia a deputada Alexandria Ocasio-Cortez. Foto: Angela Weiss / AFP
Um mural, pintado pela artista Lexi Bella, no Lower East Side, em Nova York, homenageia a deputada Alexandria Ocasio-Cortez. Foto: Angela Weiss / AFP

Além de Ocasio-Cortez, outros nome de relevo da ala socialista-democrática do Partido Democrata conseguiram se eleger com uma plataforma, em alguma medida, derivada da campanha feita por Bernie Sanders ainda em 2016: Rashida Tlaib (Michigan), na Câmara, e Julia Salazar (Nova York), no Senado, por exemplo. A melhor análise histórica da presença do socialismo nos EUA é encontrada ao longo das mais de oitocentas páginas de The Socialist Party of America: A Complete History (2015) (O Partido Socialista da América: Uma História Completa, sem publicação no Brasil), obra na qual Jack Ross historiciza não apenas a trajetória do socialismo nos EUA, no plano abstrato das ideias, mas igualmente a sua transliteração na política partidária cotidiana: sobretudo a partir da análise do Socialist Party of America (SPA), que teve existência formal ao longo de 1901 a 1972.  De acordo com a interpretação de Ross, o erro primário cometido pelos socialistas norte-americanos foi o de buscar uma trajetória política dissociada dos sindicatos e associações agrícolas, ao contrário da maior parte de suas contrapartes europeias. Outro ponto enfatizado no livro é a experiência política ocorrida entre socialistas e comunistas nos EUA, permeada de altos e baixos – mais baixos do que altos, e repleta de contenciosos, é verdade. Para Ross, a variante norte-americana da tradição socialista era, por assim dizer, mais próxima do republicanismo de Thomas Jefferson do que de qualquer eventual simpatia marxista. Não é à toa, por exemplo, que Ross fala em “socialismo jeffersoniano”: uma tradição pautada por uma economia democrática e igualitária, cooperativismo e governo local. Algo, por um lado, em completo descompasso com a afeição ao centralismo burocrático comunista, e, por outro, tão americano quanto a torta de maçã.

O argumento apresentado em The Socialist Party of America equaciona a vitalidade do socialismo jeffersoniano ao seu americanismo e à sua capacidade de se manter, ainda que temporariamente, razoavelmente impermeável às disfuncionalidades do sistema bipartidário norte-americano. Desde pelo menos a experiência concreta da Guerra Civil que os socialistas jeffersonianos sabiam que a consequência mais tóxica do militarismo é a conjunção de centralismo e burocratização do Estado: um diagnóstico de impecáveis credenciais republicanas. No entanto, a ala comunista do partido, e demais marxistas doutrinários, avaliou com simpatia declarada a hipótese de fornecer apoio ao ingresso na Primeira Guerra Mundial, uma agenda Democrata da época, cujo campeão era Woodrow Wilson. Ao longo do século passado um sem-número de variáveis de origem externa e interna serviu para minar o lado socialista na correlação de forças da política partidária dos EUA. Agora, em pleno século XXI, os socialistas democráticos estão se mostrando uma força relevante na esfera pública norte-americana. Aliás, mais do que isso, há no momento todo um horizonte otimista de expectativas pela frente.

Pode não ser em 2020, nem tampouco em 2024, mas é cada vez mais crível a ideia de que, mais tempo menos tempo, os EUA terão um(a) socialista sentado na Casa Branca. Para uma tradição política que, ainda no ciclo eleitoral de 2014, se encontrava completamente submersa, há que se convir que se trata de uma virada drástica, imprevista e, no mínimo, intelectualmente interessante.

*Gabriel Romeiro Lyra Trigueiro é doutor em História pela UFRJ. Este texto foi publicado, originalmente, na revista Época, do Grupo Globo

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