HENRIQUE, O MAIS ALEGRE CANTOR DO RASQUEADO EM MATO GROSSO: Cantar sempre foi uma diversão para este artista mato-grossense que tem sabido sustentar seu sucesso com recordes na venda de discos

E1A - 1 - HENRIQUE POR EDSON RODRIGUES SECOM MTPERSONALIDADE

O mais alegre cantor do Rasqueado

Cantar sempre foi uma diversão para Henrique que tem sabido sustentar seu sucesso com recordes na venda  de discos

JOÃO BOSQUO

DIÁRIO DE CUIABÁ

Henrique Martins de Oliveira Neto, primeiro da dupla Henrique & Claudinho, depois do trio Pescuma, Henrique & Claudinho, é mato-grossense, natural de Itiquira, um pequeno município ao Sul, que está lutando para emergir economicamente, imagina agora em 1957, quando ele nasceu. Nesse lugarejo, a família fica até o final da década 60, quando muda para Rondonópolis e vai cursar o ginásio. O Cientifico, ou Ensino Médio, como se diz hoje, foi feito em Campo Grande, embora a família continuasse a morar em Rondonópolis. Vem para Cuiabá em 1976, faz o curso preparatório para o vestibular no Colégio São Gonçalo e passa no curso de Engenharia Elétrica. O registro da matrícula ele guarda até hoje: 78.1.220.167, e vai cursar até o terceiro ano quando abandona pela música.

A música, é bom que se diga, sempre esteve presente na vida de Henrique. O pai, Acelino Rodrigues de Oliveira, baiano, casado com a goiana Niltan Maria Martins, era músico, gostava de cantar sambas e fazia duo com a irmã e, quando morava em Rondonópolis, dava algumas canjas na Banda Marinho e seus Beat Boys, conjunto tradicional da cidade, com mais de 50 anos de atividade. Henrique conta que nos bailes que a banda tocava ficava por perto do palco esperando uma oportunidade para dar uma canja, que invariavelmente acontecia.

Corta. Quando estava estudando Engenharia Elétrica na UFMT, conhece o conjunto Requengue de Cuiabá, da turma “lá do Baú” e passou a fazer parte como cantor,  entre 1978 e 1984. Por conta do Requengue passa a cantar o Rasqueado cuiabano‚ que a nossa sociedade cuiabana pouco conhecia. E, na sequência, conhece o grande Mestre Bolinha e passa a cantar no seu conjunto, por volta de 1984 até 1988.

Ao perambular pela noite, no Passatempo Bar, conhece o Claudinho. O Claudinho era integrante da Banda Papillon, que fazia nos anos 60, a música dos Beatles – “como ninguém”, comenta Henrique. Papillon  eram, além do Claudinho, o Robertão e Alcir, três apenas que faziam uma orquestra e começou – novamente – a história da canja e contato era o Claudinho. “Quando eles passavam para a parte sertaneja participava com a banda, enquanto fortalecia a amizade, sem envolvimento profissional, apenas curtindo a noite”, conta. Os primeiros passos para a formação da dupla estavam dados.

No meio, misturado a tudo isso, Henrique conhece o empresário Nicolau Eid Neto,o  Balu, que vem a construir uma das casas míticas da noite cuiabana, a “Panaceia”.  A casa Panaceia, na região do Bairro Popular, tinha diversos ambientes – boate, sala de sinuca, pista de dança, área infantil, bar e foi para essa casa que se transferiu a banda Papillon, já com Henrique, numa decisão anunciada lá atrás. “Vou construir uma casa e vocês vão cantar lá”, avisou Balu.

O Rasqueado volta à tona. O que ele fazia com o Bolinha passou a fazer na Panaceia. Uma casa moderna, chique ouvindo “A lua quando vai saindo/ Por detrás da montanha/ É uma solidão /Até parece uma coroa de prata/ Coração da mulata/ Lá do meu sertão”, hoje de domínio popular, mas que a memória registra como de Zé Boloflô. “O marco da elite cuiabana conhecer o Rasqueado  foi lá na Panaceia”, acredita.

Por decisão única e exclusiva de Balu acontece também de Henrique gravar o primeiro disco. Inicialmente a ideia era fazer da banda, como um todo, mas Henrique optou para gravar apenas em dupla e foi produzido o LP “Cuiabá, Cuiabá”, com selo Panaceia e Roberto Lucialdo como produtor, que fez a escolha do repertório. Roberto Lucialdo também era da Panaceia, com sua banda, fazendo samba e MPB. O LP chegou a vender mais de 50mil cópias, tanto que a fábrica, BMG, de posse dos registros entregou o certificado. Não é coisa pouca vender 50 mil discos.

E1A - 1 - HENRIQUE POR LORIVAL FERNANDES

Não vamos falar das dificuldades para a gravação do LP, mesmo porque nenhuma se compara com a de Jacildo e seus Rapazes que, em 1964, saíram de Kombi, de Cuiabá até São Paulo, para gravar “Lenha, Brasa e Bronca”. O cineasta e produtor Rodrigo Piovezan bem que poderia começar a pensar em um “road movie”, pois a história é fantástica, digna de filme, realmente.

Voltemos ao Henrique. Ele, Claudinho e Roberto Lucialdo foram para São Paulo, com patrocínio da Universal Turismo, e nos estúdios tinham que cantar afinados, pois naquele tempo não se tinha as ferramentas digitais que tem hoje, que mesmo alguns desafinados – nada a ver com João Gilberto – são ‘vendidos’ como cantores.  Henrique, conta o maestro Julião, no ato da gravação, ficava com uma orelha regendo a orquestra e o outra atenta na dupla. Não tinha colher, não.

A divulgação, claro, visita aos programas de rádios, nas madrugadas, como o programa do Compadre Crispim. E as rádios abriram as portas para o LP e veio o grande sucesso. Os LPs seguintes, claro, não tiveram a mesma performance, mas nunca ficaram abaixo de 10 mil e assim foi até o sétimo trabalho, já CD, gravado pela gravadora Atração.

E na mesma gravadora Pescuma gravava um CD solo. Se fosse combinado não daria certo. Henrique & Claudinho, de um lado com um CD novo, e do outro Pescuma, com o seu primeiro disco solo. Veio a ideia de fazerem a divulgação juntos, já que ambos, a dupla e o cantor, interpretavam o mesmo universo musical, ou seja, a música de Mato Grosso.  Combinado, alugaram um apartamento em São Paulo para servir de base e passaram a percorrer as rádios, se mostrar e fazer shows. Às vezes, era a dupla que convidava Pescuma, ora era Pescuma que convidava a dupla.

A ideia de juntar os três foi de uma quarta pessoa, Zezé Di Camargo, de quem ficaram amigos. Uma amizade que se transformou em parceria na música “Tá faltando alguém aqui”, que vai integrar a trilha do filme “2 Filhos de Francisco” e Zezé e Lucialdo fazem uma participação mais que especial no DVD “Raqueia Brasil”, principalmente na música “Pixé”, de Pescuma e Moisés Martins.

Retomando: com o estouro do LP Cuiabá, Cuiabá, os artistas viraram atração obrigatória nos eventos promovidos pelo Estado. Um deles era a Feira dos Estados, em Brasília, cuja barraca de Mato Grosso era comandada pela então primeira dama, hoje prefeita, Lucimar Sacre de Campos, no governo Jaime Campos, na hora da apresentação da dupla precisava de reforço do Corpo de Bombeiros para não deixar a multidão invadir o estande, que lotava. “O rasqueado é uma música cativante, assim como o forró, ninguém consegue ficar parado”, avalia.

O primeiro CD do trio foi o “Love, Love Rasqueado”, cuja música tem também a assinatura de Otaviano Costa e participa das gravações, em 2001 e começa a odisseia de Pescuma, Henrique & Claudinho. Além do “Rasqueia”, o trio produziu o show “Cantos do Brasil”, com a Orquestra do Estado de Mato Grosso, gravado ao vivo na Praça das Bandeiras e 16 outros shows.

Segundo Henrique, a música mato-grossense, com o Rasqueado como ponta-lança, ajuda a divulgar a cultura de uma cidade, de um estado, de uma nação.  Mas ela precisa de incentivo, de ajuda para superar as próprias barreiras do mercado.

A música baiana, é bom que se diga, se é todo esse sucesso, lá atrás, com mão de ferro de Antônio Carlos Magalhães, as emissoras de rádio só recebiam patrocínio do governo do Estado se tocassem a música axé, além de Caetano, Gil, Bethania e Gal – que estão em outro diapasão. Hoje o axé é uma explosão mundial, por quê? Por causa do incentivo, segundo a opinião deste modesto repórter.

Henrique me conta que o atual governador, quando senador, foi até São Paulo para prestigiar o show dos três. Esse entusiasmo com a cultura local é que se espera com a música. Mesmo porque o secretário, Leandro Carvalho, é ‘musical’.

Em setembro, agora, junto com a primavera, Henrique e seus parceiros voltam aos estúdios para gravar mais um CD. O repertório está sendo finalizado, mas com certeza alguns eternos sucessos e alguma ou outra coisa nova, além do sertanejo.

HENRIQUE POR MARCOS BERGAMASCO NA PAGINA DO ENOCK

 

1 Comentário

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  1. - Responder

    Personagem importante da música cuiabana como compositor e produtor Pineto Bonilha não foi citado nesta matéria, uma pena, pois estiveram juntos nesta jornada, onde não basta ser dotado de talento para ter espaço e fazer sucesso.

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