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HÉLIO FERNANDES: Com quase 42 anos completados não existe a menor noticia de onde está o corpo do ex-deputado federal Rubens Paiva.A Aeronáutica jamais se pronunciou sobre o crime, o Exercito mentiu copiosamente.No dia 20 de janeiro de 1971, invadiram sua casa, começava sua tragédia e de sua família. Encapuzado, algemado, foi levado provavelmente para o Centro de Segurança da Aeronáutica, em frente ao Santos Dumont. Rubens Paiva foi amarrado a um jipe, com a boca imprensada ao cano de descarga, sua cabeça acabou explodindo no concreto.

Ao promulgar a Constituição Federal de 1988, o deputado Ulisses Guimarães soltou o brado cidadão: “A Constituição é Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram!” 42 anos se passaram – e os facínoras que mataram Rubens Paiva continuam impunes. Confira a análise de Hélio Fernandes, decano do jornalismo político no Brasil. (EC)

RUBENS PAIVA – Torturado na Aeronautica. Assassinado no Exército (Doi-Codi). A tortura investigada pelo general Geisel.

Helio Fernandes
TRIBUNA DA IMPRENSA ON LINE

Nesse caso fizeram tudo. Gravação telefônica ilegal, prisão violentíssima por militares que se identificaram como sendo da Aeronáutica, encapuzado e levado para um centro de torturas. Apavorados com sua morte iminente, foi transferido para o quartel da Barão de Mesquita, onde acabaram de liquidá-lo.

Isso tudo aconteceu com o engenheiro prospero e progressista, ex-deputado federal, Rubens Paiva. No dia 20 de janeiro de 1971, invadiram sua casa na Avenida Delfim Moreira, (logo depois do Jardim de Alá) começava sua tragédia e de sua tranquila família, tragédia que vai completar 42 anos dentro de uma semana.

Nesses 42 anos, rumores, boatos, informes, nenhuma informação. A Aeronáutica jamais se pronunciou sobre o crime, o Exercito mentiu copiosamente. Sem a gravação dos telefones, não poderiam tomar providências, a gravação era ilegal mas forneceu “pistas”. Tendo recebido ligações do Chile, onde estavam muitos cassados, inventaram uma historia que se transformaria em histeria. E logo na realidade de uma dezena de beleguins assaltando a residência de um cidadão acima de qualquer suspeita.

Encapuzado, algemado, amarrado, foi jogado dentro de um carro e levado provavelmente para o Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica, o Cisa, em frente ao Santos Dumont. A família foi ignorada, traumatizada, desesperada, sem saber o que fazer e com quem falar. Na Aeronáutica deram inicio à tortura, imitando o que se fazia muito na ditadura da Argentina e do Chile. (No dia seguinte a mulher Eunice e a filha de 15 anos foram presas e levadas para o Doi-Codi, onde ficaram vários dias).

Rubens Paiva foi amarrado a um jipe, com a boca imprensada ao cano de descarga, o jipe rodando pela área, sua cabeça explodindo no concreto que cercava as arvores do local. No inicio seu corpo balançava pela força da sobrevivência e pelo movimento do carro.

Mas ninguém pode resistir indefinidamente, o corpo parou, ficaram apavorados. Todo torturador é covarde, todo covarde é apavorado. Imediatamente constataram que Rubens Paiva não estava morto, mas estava morrendo. Decidiram então levá-lo para a central de torturas que fôra instalada numa parte do quartel da Polícia do Exercito.

Chama-se Doi-Codi ou Operação Bandeirantes, de São Paulo, aqui reduzida para Oban. Num exame rápido, constataram que o prisioneiro não estava morto, e como eram especialistas no assunto, acabaram por liquidá-lo. A partir daí, só se soube do seu desaparecimento, o corpo não apareceu jamais, apesar de todos os esforços das mais diversas pessoas e grupos.

As mentiras do Exército para
fingir que não sabia de nada

Despudoradamente, generais torturadores falsificaram os fatos da mesma forma como retalharam o corpo de Rubens Paiva. Com quase 42 anos completados não existe a menor noticia de onde está ou pode estar o corpo de Rubens Paiva.

Os generais começaram a fraudar os acontecimentos, com a versão de que um Volkswagen, com oficiais do Exercito, quase se chocara com grupos que perseguiam um carro no qual estaria, segundo eles, o deputado já desaparecido. Isso teria ocorrido no Alto da Boavista, segundo a versão quase oficial.

Tudo invenção rasteira, desengonçada, tremendamente distante da realidade. Oficiais do
Exercito nunca são transportados em Volks. O Exercito não tem nenhuma unidade no Alto da Boavista. Por que alguém perseguiria Rubens Paiva, já morto, e por que ele estaria no Alto da Boavista?

Rubens Paiva era de porte avantajado, não entraria num Volks. E mesmo que estivesse vivo, por que seria visto no Alto da Boavista? E mais duvidas ainda, praticamente impossível: por que estaria sendo perseguido? Cordial, humano, generoso, desprendido, só tinha amigos dedicados, as invenções do Exercito foram logo desmoralizadas. Pela falta de credibilidade e pela burrice.

Tudo nesse episodio trágico, dramático, insensato, cruel, é inacreditável. Mas pior ainda: o fato de não se descobrir o menor indicio do que foi feito com o corpo do deputado, depois de assassinado. Nem a excelente Miriam Leitão, que se transformou em especialista e referencia sobre tortura e torturadores, conseguiu desvendar o mínimo que fosse sobre o assunto.

Eunice, grande personalidade, mulher de Paiva, se formou em Direito, mas não pode (nem pôde) fazer nada, não há corpo nem o menor indicio para começar.

A tortura não esperou um dia sequer.
Começou violentamente, imediatamente.

Logo nos primeiros momentos do golpe, os torturadores se agruparam, se organizaram, se movimentaram. No Brasil todo surgiram denuncias de violências praticadas por oficiais do Exercito e da Aeronáutica. Mas suspeitas e comprovações se localizavam em grande numero, em Pernambuco e no Recife. Na capital, protagonizaram uma das mais espantosas crueldades.

A vitima foi o sargento Gregório Bezerra, amarrado, com o pescoço enlaçado por uma corda longa que era puxada por muitos oficiais. Eles obrigatoriamente andavam fardados, mais tarde, com o conhecimento das barbaridades que praticavam, esses oficiais, amedrontados, só andavam a paisano. Ao deixar os quartéis, tiravam a farda, colocavam roupas civis, eles mesmos apregoavam o medo de represálias, mais do que merecidas. (Foram eles que deram os primeiros tiros, fizeram as primeiras torturas, praticaram os primeiros assassinatos).

Gregório Bezerra foi arrastado pelas ruas do Recife, com os oficiais às gargalhadas, e o povo chorando e amaldiçoando, mas sem poder fazer coisa alguma.

Castelo manda Geisel
ao Recife, investigar

Não é que o “presidente” fosse contra a tortura. Mas é que a violência e a crueldade atingiram o próprio golpe que pretendiam “vender” como revolução. Ernesto Geisel era Chefe da Casa Militar, e posso dizer com mais do que reconhecida isenção e imparcialidade: “Fez um excelente trabalho de investigação”.

Ficou no Recife por mais de dez dias, apurou não apenas o crime contra Gregório Bezerra, foi a prisões, ouviu oposicionistas que mostraram marcas de tortura. O general Geisel, que seria “presidente” 10 anos depois, fez um relatório de 23 laudas, contando tudo que conseguiu apurar.

Chefe da Casa Militar, tinha acesso direto e imediato ao “presidente” Castelo Branco, a quem entregou pessoalmente o resultado do trabalho. Castelo leu surpreendido, lógico, não esperava aquilo. Escreveu: “Para arquivar”, como SIGILOSO e CONFIDENCIAL”.

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PS – Lógico, não sei por onde anda esse relatório, se soubesse já teria divulgado. Mas a Comissão da Verdade tem meios e poderes para descobrir, analisar e publicar o primeiro relatório sobre tortura, feito de dentro para fora.

1 Comentário

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  1. - Responder

    AINDA BEM QUE O BRASIL TEM A COMISSÃO DA VERDADE E TUDO VIRÁ A TONA MUITO BREVEMENTE. CERTAMENTE NÓS BRASILEIROS (AS) QUE NÃO COMUNGAMOS COM VIOLÊNCIA, DEVOTAMOS PROFUNDO RESPEITO AOS QUE COCARDEMENTE FORAM ASSASSINADOS POR POLÍCIAS E AGENTES DO ESTADO. TEM QUE PAGAR SIM. TEM QUE APURAR SIM. VAMOS ACOMPANHAR OS FATOS. “QUEM VIVER VERÁ”.

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