Guru do “Pasquim”, da contracultura e do movimento hippie e factótum na TV Globo durante 20 anos, escritor, jornalista e roteirista Luiz Carlos Maciel disse ao 247 que estamos vivendo em “um estado democrático de direita, onde tudo é possível”, no qual quem manda mesmo é o PMDB, apesar de o PT estar na presidência da República; “Cunha vai dançar”, previu; “Porque ficou muito caro para a direita”; e Temer, segundo ele, desistiu do golpe “porque tomar o poder agora não ajuda 2018”; Brizolista de quatro costados, espera que o STF corrija “anomalias jurídicas” da Lava Jato mais à frente e não tem dúvida de que o juiz Sergio Moro “é um boy do PSDB”

LUIZ CARLOS MACIEL AO 247: ‘VIVEMOS UM ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITA’

: Guru do “Pasquim”, da contracultura e do movimento hippie e factótum na TV Globo durante 20 anos, escritor, jornalista e roteirista Luiz Carlos Maciel disse ao 247 que estamos vivendo em “um estado democrático de direita, onde tudo é possível”, no qual quem manda mesmo é o PMDB, apesar de o PT estar na presidência da República; “Cunha vai dançar”, previu; “Porque ficou muito caro para a direita”; e Temer, segundo ele, desistiu do golpe “porque tomar o poder agora não ajuda 2018”; Brizolista de quatro costados, espera que o STF corrija “anomalias jurídicas” da Lava Jato mais à frente e não tem dúvida de que o juiz Sergio Moro “é um boy do PSDB”

Por Alex Solnik, do 247 – Guru do “Pasquim”, da contracultura e do movimento hippie e factótum na TV Globo durante 20 anos, escritor, jornalista, roteirista, Luiz Carlos Maciel disse, nessa entrevista exclusiva ao 247, que estamos vivendo em “um estado democrático de direita, onde tudo é possível”, no qual quem manda mesmo é o PMDB, apesar de o PT estar na presidência da República.

“Cunha vai dançar”, previu. “Porque ficou muito caro para a direita”. E Temer desistiu do golpe “porque tomar o poder agora não ajuda 2018”.

Revelou, também, o que aconteceu quando seu grande amigo Tarso de Castro foi jantar, em Nova York, com a namorada Candice Bergen e a amiga dela, Ali McGraw, e porque seu outro grande amigo, Glauber Rocha, trocou, em cima da hora, a socialite Regina Rozemburgo por Yoná Magalhães em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

Sobre LSD foi curto e grosso: “Tomei e só me fez bem”. Brizolista de quatro costados, espera que o STF corrija “anomalias jurídicas” da “Lava Jato” mais à frente e não tem dúvida de que o juiz Sergio Moro “é um boy do PSDB”.

Bom, a primeira coisa é que uma vez eu perdi um emprego por sua causa… ou seja os caras que me chamaram pra escrever um programa de TV recomendaram que eu fosse falar com você antes, no Rio, para você me orientar, mas como sempre tive medo de avião eu enrolei e não fui. Meu script foi reprovado e perdi o emprego… kkkkkk…
Se você não fizer questão de um papo tipo ao vivo, pode também me mandar as perguntas por e-mail e eu respondo.

Eu prefiro assim, escrevo aqui e você ali, isso se você tiver paciência e tempo, é que assim fica mais vivo, eu acho.
OK. Mas você ainda tem medo de avião, Alex?… Eu tinha, mas minha mulher entra num avião como se fosse na casa dela e, assim, me tirou o medo completamente. Com uma companhia relaxada no avião, você também relaxa e goza. Mas tudo bem, estou disponível. Se você quiser agora, manda ver.

Continuo com medo, só entro em avião em último caso…e como imagino que você não vai me emprestar a sua mulher para tirar meu medo vou continuar assim… kkkkkk… me diz uma coisa, por que não tem mais uma revista de humor no Brasil? Acabou o humor ou acabou a imprensa? Ou nenhuma das anteriores?
Ou ambas! Não há humor nem imprensa. Acho que o principal motivo é o abandono da liberdade, em nosso tempo em geral, e em nosso país em particular. O humor depende da independência, da liberdade, e, aliás, a boa imprensa também. Mas o que nos domina, hoje, é o temor, a ânsia por segurança, o ódio ao suposto inimigo, etc. Em suma, a neurose social é tanta que não temos o mínimo de liberdade interna para fazer humor nem um mínimo de liberdade externa pra fazer uma boa imprensa.

Se o “Pasquim” existisse o jornal seria contra o impeachment ou haveria divisões e brigas? Quais eram as brigas mais tradicionais? Tarso versus Millôr?
Se o “Pasquim” existisse provavelmente haveria quem fosse contra e quem fosse a favor do impeachment. Mas não haveria brigas. O segredo do sucesso do “Pasquim” foi a extrema liberdade que gozávamos, talvez pela necessidade de uma contrapartida em face da ditadura. Cada um fazia o que bem entendia e ninguém tinha nada com isso. O leitor sentia essa liberdade e por isso não passava sem o “Pasquim”. As brigas internas do “Pasquim” eram pessoais, no fundo eram uma só, essa que você citou, entre Tarso e Millôr. Era uma briga pessoal, pelo poder, simplesmente.

Como é que eram essas brigas? Esquerda contra direita? Algo nesse sentido? Ou diferentes pontos de vista?
Uma briga pelo poder que o Millôr acabou ganhando porque influenciava mais a maioria dos colaboradores, cartunistas como ele ou intelectuais como o Francis que era aliado dele. Poder-se-ia dizer que era direita contra esquerda porque o Millôr era de direita e o Tarso de esquerda. Mas não foi isso, foi pessoal, havia apoiadores do Millôr que eram de esquerda, o próprio Francis mesmo, que ainda não tinha tido a cabeça feita pelo Delfim. Era pessoal, os santos não combinavam. O Millôr queria porque queria mandar no “Pasquim”. Acabou mandando, mas para mandar o “Pasquim” ao naufrágio. Quem entendia o “Pasquim” era o Tarso porque, na verdade, o “Pasquim” era uma invenção do Tarso. Sem Tarso, o “Pasquim” não tinha alma. Millôr o abandonou assim que viu que o barco ia a pique, o Jaguar o manteve na UTI durante dez anos, mas não teve jeito. O “Pasquim” era o Tarso.

Eu fui muito amigo do Tarso depois do “Pasquim”. Na “Careta” aqui em São Paulo, depois n’ “O Nacional”… alguém seduziu mais mulheres belas do que ele?
Dificilmente. Tarso gostava da filosofia de um personagem de Jorge Amado que dizia que naturalmente não se pode comer todas as mulheres que se quer, mas que se deve “fazer um esforço”. Tarso fazia esse esforço o tempo todo. Me lembro que uma bela tarde, estou em casa e a campainha toca. Abro a porta e me deparo com o Tarso… com quem? A Candice Bergen. Ela entrou, sorriu, elogiou uma árvore que quase entrava pela janela da sala… Fiquei besta.

E tem umas histórias de que ele deu uma surra nela, algo assim, ou esnobou, lembra disso? Kkkkkk…
Acho que isso é folclore, Tarso nunca fez nenhuma das duas coisas. Se quisesse dar uma surra nela, ia apanhar, pois Candice era forte, uma atleta, e Tarso um alcoólatra fraco. Nem para esnobar ele teria o topete. Foi atrás dela em Nova York. Na primeira noite na Big Apple, saiu para jantar com Candice que convidou também a sua grande amiga Ali McGraw. Foram a um restaurante escolhido pelas duas. Tarso pagou a conta e, assim, acabou todo o dinheiro que tinha levado! No dia seguinte, não teve outro jeito, pegou o avião de volta ao Rio. E comentou comigo: “Mulher muito cara, pra mim não dá…”
Gostou da história?

Ótima! Lembro de uma frase dele: o homem não sabe porque está batendo, mas a mulher sabe porque está apanhando… foi antes do politicamente correto…ou politicamente careta…
A frase não é dele, é muito comum no estado machista do qual nós dois viemos, é uma piada machista, meu pai também falava isso. Tarso era metido a machão, mas era uma flor.

É verdade… já os baianos são mais malemolentes. Glauber também tinha essa obsessão pelo sexo oposto?
Não, só tinha obsessão pelo cinema mesmo, em matéria de mulher era sofisticadamente seletivo. Falava delas como grandes personalidades. Lembro do altar em que ele colocava a linda Regina Rozemburgo.

E a Danuza então? Me contaram que ela não conseguia decorar o script em “Terra em Transe” e então o Glauber cortou o script e manteve Danuza.
Claro, ele sofria demais quando era obrigado a fazer sofrer uma mulher. Ele prometeu o papel de Rosa, de “Deus e o Diabo”, para Regina. Mas o cinema era mais importante e ele tirou o papel dela para dá-lo a Yoná Magalhães para fechar um acordo para a produção do “Deus e o Diabo”. O produtor era o Gugu Mendes, marido da Yoná. Glauber sofreu à beça porque adorava a Regina. Mas se deu bem, porque Yoná era atriz de verdade (Regina era socialite) e fez o papel muito bem.

Gozado, à medida em que a gente vai falando percebe que, apesar da ditadura, naquele tempo o Brasil era mais divertido, não te parece? A gente não sentia a repressão. Por exemplo: tinha a turma do pó e a turma do fumo. Em plena ditadura. Uma vez eu estava hospedado na casa do Gustavo Dahl, às 9 da manhã chega o Carvana com um pacote do que parecia ser café… mas era fumo…em alguns filmes tinha verba reservada para o pó… ir ao morro pegar uns baseados era passeio sem riscos.
Não sei comparar épocas porque, na ditadura, eu era jovem e jovem, como se sabe, pode tudo! Mas havia uma grande diferença objetiva. As drogas foram uma surpresa para a qual a repressão militar não estava preparada. Eles sabiam pegar comunista, mas drogado não. A encarregada da repressão às drogas era a polícia civil que só se preocupava em faturar. Não havia riscos nos morros, pra pegar drogas, simplesmente porque os policiais encarregados da repressão estavam na folha de pagamento dos traficantes. Passavam todos os dias lá, pegavam a grana e se mandavam. Ainda é assim onde não tem UPP, ou seja, na imensa maioria das favelas cariocas, pois só tem UPP em menos de dez por cento delas.

Você também acha o LSD a droga das drogas, como o Domingos Oliveira? Fez boas viagens?
O LSD é um remédio psiquiátrico poderoso que devemos ao insigne Dr. Albert Hoffman, falecido há pouco, aos 102 anos de idade, e que consumiu regularmente o seu “problem child” (como ele chama o LSD no livro que dedicou ao assunto) por mais de trinta. Tomei e só me fez bem, entendo a visão do Domingos. Só tomando, como fizeram Aldous Huxley (“The Doors of Perception”) ou Alan Watts (“The Joyous Cosmology”) e tantos outros, para saber do que se está falando. Você já tomou LSD?

Mais ou menos. Tive duas viagens péssimas. Em outras fiz muitas poesias. Você se lembra de alguma viagem?
Segundo o psicólogo Timothy Leary, as chamadas “bad trips” são as que mais ensinam! Você deve ter aprendido bastante, mesmo que não saiba, com essas duas. Lembro de muitas viagens, antigas, mas de uns anos pra cá só tenho tomado ayahuasca, experiências que me dão lembranças mais recentes.

Tomei mescalina uma vez na casa do Andrea Tonacci…olhei um Cristo, daqueles de crucifixo e ele de repente começou a se mexer no suporte em que estava (uma placa de trânsito redonda) e eu disse pro Andrea: “O Cristo quer descer da cruz”.
E ele desceu?…

Não… também vi uma cena de guerra impressa numa gravura tomar vida, pessoas pisoteando outras etc tudo muito real… conta uma sua.
Que pena… Eu não conto publicamente minhas experiências psicodélicas. É uma espécie de pudor. Para mim, pessoalmente, é pior do que me pedirem para contar minhas experiências sexuais. Não conto minhas trepadas pra ninguém. Nem minhas “viagens”. Ambas fazem parte da minha intimidade, minha privacidade, invioláveis. Sorry.

Escuta, o que você está ouvindo aí nas ruas do Rio… ainda muita gente querendo impeachment ou a onda amainou?
Depende de onde você anda. Se for aqui pro Leblon, paraíso da classe média, ainda tem bastante gente querendo impeachment. Se for um pouco adiante e subir a Rocinha, bem menos. Agora, tenho a impressão que, sob o comando da mídia, a onda contra Dilma amainou para dar espaço à caça a Lula. Se derrubam a Dilma, quem assumir só vai fazer merda mesmo até 2018, porque neste mundo, do jeito que vai, só dá pra fazer merda mesmo, e aí o Lula leva de barbada. Então tem é que acabar com o Lula. Mas se não derrubaram a Dilma até agora, será que derrubam o Lula? É complicado.

Quando alguém defende o impeachment na tua frente você reage como?
Quando alguém defende o impeachment na minha frente, geralmente fico calado. Sei que não vai adiantar nada contra argumentar. Às vezes respondo perguntando quem vão botar no lugar dela. Temer? Aécio? Bolsonaro? E fico só avaliando o cara, para ver em qual tipo de imbecilidade ele se enquadra. Meu ídolo atual é o Bernie, com quem me identifiquei plenamente quando ele citou seus favoritos no jazz – Miles, Coltrane, Mingus e, como ele o chama, e eu também, “the great Duke Ellington”. Me senti uma alma gêmea do Bernie.

Também simpatizo com ele… Bernie Sanders me parece o mais confiável dos presidenciáveis americanos. Mas o Lula não tem como pegar. Sabe por que? Ele nunca teve celular… kkkkkkk…
Bernie é o único confiável. Agora, o Lula, esse cara é muito esperto. Um reles operário acaba se elegendo duas vezes presidente do país, e ainda o acham bobo?! Bobo é quem acha.

Mas o que diz a tua bola de cristal sobre o impeachment? O Cunha vai ter voto pra ganhar por 2/3? E o Senado vai dizer amém?
Não tenho bola de cristal, infelizmente. Mas acho que o Cunha vai dançar porque imagino que a direita deve achar que esse homem é muito caro, custa muito, feito a Candice para o Tarso. Acho que, feito o cálculo custo-benefício, ele dança. A direita é muito realista e, portanto, impiedosa.

Mas ele é ao mesmo tempo um grande ídolo da direita, não? Talvez o maior.
Não. Talvez da direita dos políticos. Na classe média ingênua que a sustenta, o “Fora Cunha” rivaliza com o “Fora Dilma”. Os políticos direitistas não se importam que Cunha seja corrupto – quem não é? Mas para a classe média idiota, a grande maioria dela, ser corrupto é feio. Até o Aécio anda pondo as barbas de molho. Quem eu acho que, no momento, está se dando bem é o Serra, com bolinha de papel e tudo.

Mas se deu mal ao levar vinho na cara. Foi um cala-boca com um cálice! Kkkkkkk…
A Kátia não está com essa bola toda. Já anda até dizendo que se arrependeu…

Concorda com Ferreira Gullar que outro dia escreveu que estamos numa crise igual à de 1929?
Não. Não quero ser injusto, mas admito que tenho pensamentos pecaminosos de que Ferreira Gullar é, na realidade, um terrorista de direita disfarçado. Pensamos muito diferente, desde 1968, quando ele defendia o reformismo inócuo do PCB cuecão da época. Nunca foi um verdadeiro revolucionário e agora passou para o outro lado com armas e bagagens, como muitos ex-esquerdistas, aliás. O líder dele, desde os tempos do Partidão, é o Roberto Freire, é mole ou quer mais?

Adorei sua definição…
Não defini o Gullar, para isso teria, antes de mais nada, de reconhecer que é um grande poeta, um poeta nato, uma vocação inegável. A “Luta Corporal”, seu primeiro livro, teve uma importância grande na minha formação. Tenho que reconhecer, pra mim sempre esteve num pedestal. Mas não sei porque diabos ele tem essa mania de se meter em política, onde sempre mete os pés pelas mãos.

A “Lava Jato” é linha auxiliar do impeachment ou são coisas independentes?
Tudo é linha auxiliar da direita. Vivemos um estado “democrático” de DIREITA. O fato de o PT ter a Presidência e algumas posições permitidas pelo PMDB não muda esse fato. Quem é mesmo o Ministro da Justiça e, portanto, chefe da Policia Federal? Pra você ver…

Você quer dizer que quem manda mesmo no país é o PMDB? E, portanto, o Temer?
O PMDB sempre mandou e fará tudo pra continuar mandando. Mas o Temer não é o PMDB, aquilo lá é um saco de gatos, o maior pega pra capar…

O Temer desistiu do impeachment?
Acho que sim porque percebeu que tomar o poder agora não ajuda 2018.

E o Sergio Moro? É contra ou a favor do impeachment? O que você acha dos métodos dele, tipo delação premiada e etc?
Sergio Moro é um boy do PSDB. A delação premiada dele é uma anomalia jurídica pior do que o domínio do fato e digna de sua suprema declaração filosófico-jurídica de que “condeno porque assim me autoriza a literatura jurídica”… Só no Brasil brasileiro mesmo…

Pois é, eu me pergunto como um juiz do seu nível toma a frente do processo mais importante da história do Brasil ou um dos mais. E como deixam. E como o STF concorda com ele.
Decerto acham que esse tal de “nível”, como você falou, não vem ao caso…

Até no trajar se vê que é deselegante… mas você acha que o STF vai engolir em seco ou quando os processos chegarem até lá eles vão desautorizar o Moro? O cara virou ídolo popular.
Não sei. Espero que desautorizem. O normal seria que desautorizassem. Mas, como eu disse, vivemos “um estado democrático de direita”, onde tudo é possível. Ídolos populares não faltam: o Safadão, o Kim, o Lobão, tem às pencas. O Moro é apenas mais um para o bloco.

Fora a musa da direita que tentou ficar nua no sambódromo de São Paulo e foi expulsa pela escola. Tem visto a turma do Pasquim? Ziraldo? Jaguar? Estão bem?
Vejo o Jaguar aqui no Leblon, via mais quando ainda tomava cerveja de verdade, agora tem de tomar cerveja sem álcool. É a velhice, cara, eu que o diga. O Ziraldo faz muito tempo que não vejo. Deve estar bem, se não estivesse já teria saído no jornal.

Fiquei surpreso porque eles não quiseram dar entrevista pra mim… não é esquisito? Logo eles que entrevistaram tanto?
Deve ser a velhice. Estão cansados.

Eram as melhores entrevistas da história da imprensa brasileira, lembra de alguma antológica?
Olha, no começo do “Pasquim” eu era o encarregado de tirar as entrevistas da fita gravada e botar no papel. Dava um trabalhão danado!!! As entrevistas variavam de, digamos, seis páginas ou até mais, até duas ou três, como foi o caso de uma famosa entrevista com o Tom Jobim em que todo mundo ficou muito bêbado e, quando fui tirar do gravador, não entendi nada porque todo mundo falava ao mesmo tempo. Mas se eu tiver de escolher uma daquelas entrevistas, voto na da Leila Diniz. Foi um barato!

Você estava na entrevista?
Cheguei mais pro fim, mas cheguei.

Onde foi?
Foi na casa alugada do Tarso com a Bárbara, em Ipanema, rua Paul Redefern, perto da praia. A entrevista de Leila foi parecida com a maioria das entrevistas do Pasquim da época, principalmente com a liderança do Tarso. O ambiente era alegre, a gente bebia um pouco (em algumas muito, como a do Tom), ria muito, etc. Leila era uma gracinha, era professora de crianças e tinha uma visão libertária de sua profissão, uma pessoa de vanguarda e uma mulher adorável. Mas olha sem querer ser velho, cansado e chato, o fato é que me chamam pro almoço. Será que não dá pra fazer uma pausa? A gente continua depois. Daqui a uma hora por exemplo. Sorry.

Claro, eu ia dizer a mesma coisa, ainda nem lavei os pratos hoje… te chamo daqui a uma hora…
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Já estou aqui, Alex. Mete ficha.

Escuta, você se dá com o filho do Tarso?
Não. Acho que encontrei uma vez, talvez outra. Mas se o encontrar na rua, não sei quem é.

Parece tão diferente dele, mas também tem a veia do humor. Você gosta do “Porta dos Fundos”? Alguns dizem que seria um filhote do “Pasquim”.
Não assisto, não sei. Mas admiro o Gregório Duvivier quando ele pinta com alguma coisa aqui no Face.

E o “Antonio’s”? Ainda existe?
Não. Há muito tempo, mudou de nome, etc. mas hoje não tem nada no local, nem restaurante nem nada.

Mas ficaram as histórias. Teve uma cena famosa Millôr versus Chico Buarque que o Jaguar conta. Você ia muito lá?
Não, ia só de vez em quando. Não vi esse confronto entre Millôr e Chico, que já é até mítico.

Parece que o pano de fundo era Millôr brizolista e Chico PT e teve cusparada e garrafa voando, nada diferente do que ocorre hoje.
Millôr brizolista??? Pra mim, é novidade… Eu era brizolista, o Tarso era brizolista… Mas o Millôr?… Acho impossível.

Não teve uma época que ele virou brizolista quando escrevia na “Veja”? Ou era ironia?
Não me lembro disso. Acho que devia ser ironia.

Você diria que com Dilma, cria do Brizola, de alguma forma o brizolismo chegou ao poder?
Não tem nada a ver com brizolismo, Dilma agora é PT e sabe que foi Lula que botou ela lá. Como Lula disse, ao escolhê-la, ela é “um animal político”, como ele, aliás, digo eu. Eles se entendem. Dilma é muito, mas muito esperta. Uma prova de burrice crassa, por exemplo, é chamá-la de burra, como vivem fazendo os verdadeiros burros.

Outra do “Antonio’s”: o Chico arrancou uma foto enquadrada do Boni da parede e pisou em cima dela e depois jogou na Lagoa, depois do festival da canção.
Não sei dessas aventuras do Chico no “Antonio´s”. Só sei do confronto entre o Millôr e o Tarso no “Pasquim” e que o Tarso ficou muito amigo do Chico, para o desespero da Marieta.

Ele amava o Chico… e a irmã também…kkkkkkk. E levava o Chico para o mau caminho com certeza.
Porque o Chico queria ir, claro.

Claro. Você escreveu muito pra TV?
Isso ainda é a entrevista? Agora é só bate papo de amigos, né?

Pra mim era entrevista, mas, você que sabe…essa entrevista é um bate papo de amigos…
Fiz coisas diferentes na TV, roteiros para o “Globo Repórter”, quadros para o Vannucci na linha de shows, assessoria pro Daniel Filho em musicais, controle de qualidade e análise de novelas com Mario Lucio Vaz, merchandising… Fiquei mais de vinte anos na TV Globo. Depois fiquei mais dez na Record como supervisor de novelas, oficina de roteiro para colaboradores, etc.

Gostou de trabalhar na “Globo”?
Me acostumei, estava sempre com grana em cima, ao contrário de hoje por exemplo…

Dizia-se antigamente que a “Globo” é “o ópio do povo”. Concorda?

A “Globo” é um dos ópios do povo. Depois que Marx descobriu essa função para a religião, os truques se multiplicaram: o futebol, o carnaval, as festas, os telefones celulares, as fofocas em rede, tanta coisa já existia e outras tantas foram e estão sendo inventadas, para que a tomada de consciência seja dissimulada e as maquinações do poder não só continuem como se aperfeiçoem com o passar do tempo.

Por que os hippies acabaram? Foram derrotados?

As intuições fundamentais dos hippies foram infelizmente ignoradas pela sociedade vigente. Costumo dizer que eles foram uma oportunidade perdida de aprendizado sobre o sentido da vida e, nela, o primado do espírito. Jogamos no lixo as suas pérolas. Os hippies, naturalmente, se retraíram e preferiram sumir. Não “foram” derrotados porque não tinham a índole de lutar. Acharam melhor simplesmente desaparecer do campo de batalha. Ao “Paz e Amor” preferimos “Guerra e Ódio”, conforme se vê por toda parte, aqui e no resto do mundo. Mas fomos nós que fizemos a escolha, os hippies simplesmente fizeram o que puderam.

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