PREFEITURA SANEAMENTO

GRANDE, COMO ERA GRANDE: No início de 2015, Paulo Ronan e eu fizemos plano conjunto para tirar Alfredo da Mota Menezes de “A Gazeta”. Nossa conspiração, infelizmente, falhou. Agora, com Paulo Ronan morto, não há mais o que planejar. Só chorar o desaparecimento desse intelectual privilegiado, e talvez, por isso mesmo, homem de esquerda tão gentil, tão tranquilo

Paulo Ronan

Paulo Ronan

Um homem de esquerda, que não perdia seu bom humor, mesmo nos cenários mais adversos. Um homem com uma enorme coração e sempre disposto à cordialidade. Um homem geneticamente gentil. Essa a memória que me fica do amigo Paulo Ronan, gordo e patusco como uma viúva machadiana, como diria Nelson Rodrigues. A gordura talvez tenha contribuído para a sua morte, mas não consigo imaginar um Paulo Ronan magro.

Desde que conheci Paulo Ronan, nos idos dos anos 90, quando ele foi um dos primeiros a empenhar a bandeira da social-democracia, em Mato Grosso, nos gostamos. E nos gostamos até esse final melancólico que vem por causa das complicações do diabetes.

Sim, o economista Paulo Ronan Ferraz Santos, faleceu na madrugada desta quinta-feira, 3 de março de 2016, após 11 dias de internação na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Santa Rosa.  Logo, logo, como Jejé de Oyá e João Sebastião, há poucos dias, ele será página virada.

Sempre que me encontrava, o Paulo me saudava ou eu o saudava: “Viva o contraditório”. Era o nosso jeito de apoiar a argumentação em favor da mais ampla liberdade de pensamento e da necessidade de uma crítica permanente dos pensamentos dominantes, que tanto nos agradava.

Nesses tempos em que tucanos e petistas andam às turras por todos os quadrantes do Brasil, o encontro com Ronan era, para mim, sempre um momento de descontração e de sossego. Com ele, não havia sectarismo. Ele sabia bem dos caminhos e descaminhos dos ideólogos do PT e do PSDB.

Em uma das últimas vezes que nos vimos, no início de 2015, fomos à sua casa, no Jardim Petrópolis, onde ele me mostrou sua coleção de quadros de artistas regionais que estava interessado em vender, para fazer caixa, em face da crise econômica que se abatera sobre as suas atividades de consultor econômico. “Como é que você acha que devo fazer?”, me perguntava ele, rondando pela casa, com paredes atulhadas de quadros. Mas quem sou eu para dar conselhos sobre a venda de obras de arte para quem quer que seja? O que lhe disse foi que, tendo reunido tantas pinturas de Irigaray, Espíndola e outros mais ele deveria é se esforçar para preservar aquele patrimônio cultural, pois as crises acabam passando – e Irigaray e Espindola haverão de permanecer para sempre.

No final, ao invés de definir a melhor forma de vender seus quadros, Paulo Ronan acabou me enchendo o banco do carro com alguns livros que ele acumulava, e achava que eu devia ler. Textos de Sarte, novos e obscuros romancistas europeus, vários livros sobre cinema.

Sujeitos utópicos, fizemos planos para participar do processo de recuperação do Diário de Cuiabá. Propus a ele tentar atrair o professor Alfredo da Mota Menezes das páginas de A Gazeta para as páginas do DC – e Ronan, como um velho conspirador, achou a proposta escandalosamente inovadora. Chegamos a levar o Alfredo para uma conversa com o Gustavo Capilé na acanhada redação do Diário, ainda no Boa Esperança. Os argumentos eram muitos, mas faltava fôlego para convencer o experimentado cronista que é o Alfredo de que o Diário poderia lhe garantir espaço mais generoso do que ele já conta, seja na Gazeta, seja na TV Centro América.

Alfredo Menezes acabou indo embora, depois de fazer cena comigo, batendo boca em torno do futuro da esquerda brasileira, e continuou com seus altos voos naqueles outros veículos enquanto nós, aqui, no Diário, nos mantemos em uma espécie de inferno do Dante (o Alighieri), esperando pelo chegada do socorro de uma cavalaria que talvez exista só em nossa imaginação.

“Eu fico triste ao ver o Gustavo, o Anselmo, o Rodrigo Vargas, tanta gente boa sem um espaço verdadeiro para a prática do jornalismo de que são capazes”, me disse, no fim daquela tentativa, o Paulo Ronan, entre um gole de cerveja e outro. Ele riu porque eu preferi beber água de coco. Como se a água de coco pudesse me livrar do destino que, nesta quinta-feira nos roubou esse amigo tão tranquilo.

 

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