GRANDE, COMO ERA GRANDE: Neste dia 31 de março se comemora o centenário do nascimento de Octávio Paz, escritor e prêmio Nobel mexicano. A riqueza do seu pensamento suscita a impressão de que só se ocupou de temas complexos, fundamentais, altamente sofisticados

Octavio Paz enla biblioteca de su csa en 1989. Foto: Fabrizio Leon DiezOCTAVIO PAZ: UM SÉCULO DE POESIA E PENSAMENTO

Octavio Paz: o intelectual total e sua definição clara do idioma

No dia 31 de março se comemora o centenário do nascimento do escritor e prêmio Nobel mexicano

Poeta, ensaísta, tradutor e pensador, é uma das figuras chave da literatura em espanhol.

Seu grande instrumento foi a linguagem cotidiana. Repetidas vezes, ele renovou seu idioma no acervo popular

, do EL País, México
Octavio Paz na Residência de Estudantes de Madri, em 1989.

Borges gerou a ilusão de que havia lido todos os livros e examinado todas as bibliotecas. Sua erudição parecia tão absoluta que, no seu caso, o esquecimento era uma forma de proximidade e espontaneidade. Sua destreza literária nos fez sentir que era assim. O singular é que esse intrincado universo dependia de certezas e paixões cotidianas. Em seu último relato, A memória de Shakespeare, o protagonista herda as lembranças do tumultuoso autor inglês e descobre que são, assombrosamente, tão comuns como as de todos os homens. Já Beatriz Sarlo assinalou acertadamente que o Borges metafísico, tão discutido, se apóia no Borges suburbano, menos valorizado.

Uma coisa parecida acontece com Octavio Paz. A riqueza do seu pensamento suscita a impressão de que só se ocupou de temas complexos, fundamentais, altamente sofisticados. O inventário de seus interesses inclui as lutas sociais do século XX, os pré-socráticos, a arte tântrica, Sor Juana e o Século de Ouro de Oro, Marcel Duchamp, o mito na Meso-américa, o estruturalismo, as vanguardas, o PRI (Partido Revolucionário Institucional), o erotismo, as drogas, o haiku (forma poética japonesa) e o expressionismo abstrato. Em livros como Blanco y Ladera Este sua poesia adquire elevada temperatura intelectual: versos que são ideias. Na opinião de Alejandro Rossi, foi um “apaixonado pela modernidade”. Não se recusou à experimentação nem ao diálogo com outras disciplinas. Enciclopédico e torrencial, parecia dedicado ao exagero de construir a civilização de um só homem.

Enciclopédico e torrencial, parecia dedicado ao exagero de construir a civilização de um só homem.

É fácil perceber a originalidade de Borges quando ele aborda a literatura fantástica como um ramo da filosofia. Mais complicado é perceber aí o eco de suas caminhadas pelo bairro. A imaginação é como a memória de Shakespeare: seu brilho distante depende de uma chispa que passa despercebida por ser demasiado próxima e que surge das asperezas diárias. A galáxia de interesses “pazianos” deriva de um mesmo estímulo: a linguagem que escutou com fervor crítico.

Quando criança, ouviu seu avô, o editor e político liberal Ireneo Paz, e se aproximou dos rumores da praça de Mixcoac, onde se misturavam os paroquianos da igreja, os vendedores ambulantes e os arautos da Revolução. Na Guerra Civil espanhola presenciou um confronto e descobriu uma lição de alteridade: inclusive o inimigo tem voz humana. Não foi por acaso que se interessou pela antropologia, desde os Tristes Trópicos de Claude Lévi-Strauss a A erva do diabo, de Carlos Castaneda.

Cazador de palavras, admirou a liberdade do surrealismo, mas, como Buñuel em Os esquecidos, quis devolvê-lo a uma realidade operada pelo inconsciente.

Seu grande instrumento foi a linguagem cotidiana. Não é por acaso que alguns de seus títulos provenham de refrãos ou de frases feitas: Las perras del olmoLibertad bajo palavra, . Águia ou sol? (outra forma de dizer “cara ou coroa?”). Sua maior realização nessa linha foi converter um termo de eletricistas numa opção intelectual: corrente alternada.

Em 1943 escreveu eloquentes artigos sobre a linguagem popular mexicana. Ali tratou do vacilón, a mexicaníssima maneira de brincar: “Ovacilón é uma espécie de espetada que murcha balões públicos e privados. É uma advertência contra a vaidade e a bazófia, contra as posturas excessivas e patéticas”. Ele dedicou outro texto ao ninguneo(“ninguenzisse”), exercício vernáculo que converte os outros em sombras, e antecipou as reflexões que, em O labirinto da solidão, dedicaria à chingada: “Os mexicanos, em vez de converter sua mãe em prostituta, a substituem por outra: o nada”.

Repetidas vezes renovou seu idioma no acervo popular, celebrando as “fantasias e delírios verbais dos mexicanos”

Uma notícia policial chamou a sua atenção: o suicida Juan Camacho tinha morrido exclamando: “que veneno saboroso”. Isso o levou a uma reflexão sobre os prazeres da morte, da mesma forma que o costume de vestir pulgas o levou a considerar que só um país de imensos vulcões poderia admirar tanto as miniaturas.

Repetidas vezes renovou seu idioma no acervo popular, celebrando as “fantasias e delírios verbais dos mexicanos”. Não por acaso escreveu o prólogo de Nueva picardia mexicana, de Armando Jiménez: “Aqui sim há linguagem em movimento, contínua rotação das palavras, insólitos jogos entre o sentido e o som, idioma em perpétua metamorfose”.

Alguns dos seus melhores textos representam um jogo de rotação entre o culto e o popular. No poema A palavras, escreve: “Vira-as,/ pega-lhes pelo rabo (chiem, putas),/açoita-as,/ adoça-lhes a boca às reguilas, […]/fá-las, poeta, faz que se traguem todas as tuas palavras”.

O lema aparece encarnado em outros textos: “Desta vez eu te esvazio a pança, te torço, te retorço, te viro e viro de cabeça para baixo, te arranco o pinto, te afundo o estero. Raivaraibabaca. Dona Campamochas come as sobras do membro cortado de don Campamocho”. (“Esta vez te vacío la panza, te tuerzo, te retuerzo, te volteo y voltibocabajeo, te arranco el pito, te hundo el esternón. Broncabroncabrón. Doña Campamocha se come en escamocho el miembro mocho de don Campamocho”). Afronta, riso, estrapolação: poesia de Octavio Paz.

Sua vasta obra foi, entre outras coisas, uma luz sobre o idioma. A profundidade e variedade das suas ideias provocaram que às vezes fosse percebido como um autor de gabinete, interessante apenas para um círculo de seletos especialistas, um espectador alheio ao fluxo da vida. Nada mais falso. Só alguém aberto aos mistérios da simplicidade poderia escrever este retrato de Miguel Hernández: “Eu o conheci cantando canções populares espanholas, em 1937. Possuía uma voz de baixo, um pouco selvagem, um pouco de animal inocente: soava a campo, a eco grave repetido pelos vales, a pedra caindo num barranco”.

Seu principal gesto poético foi capturar o momento como um lampejo carregado de outro tempo

Paz soube ouvir a queda das pedras, as vozes soltas, a onda do cotidiano. Em seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel, se referiu à vigência do mundo indígena: “Ele nos fala na linguagem cifrada dos mitos, das lendas, das formas de convivência, das artes populares, dos costumes. Ser escritor mexicano significa ouvir o que nos diz seu presente – essa presença. Ouvi-la, falá-la, decifrá-la: dizê-la”.

Seu principal gesto poético foi o de capturar o momento como um lampejo carregado de outro tempo. Vivemos facilmente na lembrança do passado ou na antecipação do porvir. Onde está o presente? Otávio Paz buscou esse esquivo momento. Em seu aniversário, o idioma completa um século de presente.

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VISITAS
Através da noite urbana de pedra e seca
o campo entra no meu quarto.
Estende braços verdes com pulseiras de pássaros,
com fivelas de folhas.
Leva um rio à mão.
O céu do campo também entra,
com o seu cesto de jóias acabadas de cortar.
E o mar senta-se ao meu lado,
estende a sua cauda branquíssima no solo.
No silêncio brota uma árvore de música.
Na árvore pendem todas as palavras formosas
que brilham, amadurecem e caem.
Na minha testa, uma caverna onde mora um relâmpago…
Porém, tudo se povoou com asas.
Diz-me: é deveras o campo que vem de tão longe,
ou és tu, são os sonhos que sonhas ao meu lado?
ÁGUA NOCTURNA
A noite de olhos de cavalo que tremem na noite
a noite de olhos de água no campo adormecido,
está nos teus olhos de cavalo que treme,
está nos teus olhos de água secreta.
Olhos de água de sombra,
olhos de água de fonte,
olhos de água de sonho.
O silêncio e a solidão,
como dois animais pequenos que a lua guia,
bebem nesses olhos,
bebem nessas águas.
Se abres os olhos,
abre-se a noite de portas de musgo,
abre-se o reino secreto da água
que emana do centro da noite.
E se os fechas,
um rio, uma corrente doce e silenciosa,
inunda-te por dentro, avança, torna-te obscuro:
a noite molha margens na tua alma.

DOIS CORPOS

Dois corpos frente a frente
são  às vezes duas ondas
e a noite um oceano
Dois corpos frente a frente
são às vezes duas pedras
e a noite um deserto
Dois corpos frente a frente
são às vezes raízes
na noite enlaçadas
Dois corpos frente a frente
são às vezes navalhas
e a noite um relâmpago
Dois corpos frente a frente
são dois astros que caem
num céu vazio
VIDA ENTREVISTA
Relâmpagos ou peixes
na noite do mar
e pássaros, relâmpagos
na noite do bosque.
Os ossos são relâmpagos
na noite do corpo.
Ó mundo, tudo é noite
e a vida um relâmpago.
FÁBULA
Idades de fogo e ar
Mocidades de água
Do verde ao amarelo
                                      Do amarelo ao vermelho
Do sono à vigília
                             Do desejo ao acto
Só havia um passo que davas sem esforço
Os insectos eram jóias vivas
O calor repousava na borda do tanque
A chuva era um salgueiro de cabelos soltos
Na palma da tua mão crescia uma árvore
Uma árvore que cantava ria e fazia profecias
Os seus vaticínios cobriam de asas o espaço
Havia singelos milagres chamados pássaros
Tudo era de todos
                                 Todos eram tudo
Só havia uma única palavra imensa sem reverso
Palavra como um sol
Um dia quebrou-se em fragmentos minúsculos
São as palavras da linguagem que falamos
Fragmentos que nunca se unirão
Espelhos quebrados onde o mundo se vê destroçado
A CHAMA, A FALA
Num poema leio:
“conversar é divino.“
Porém, os deuses não falam:
Fazem e desfazem mundos
enquanto os homens falam.
Os deuses, sem palavras,
jogam jogos terríveis.
O espírito desce
e desata as línguas,
porém não fala palavras:
fala lume. A linguagem,
pelos deuses acesa,
é uma profecia
de chamas e uma torre
de fumo e um colapso
de sílabas queimadas:
cinza sem sentido.
A palavra do homem
é filha da morte.
Falamos porque somos
mortais: as palavras
não são signos, são anos.
Ao dizer o que dizem,
os nomes que dizemos,
dizem tempo: dizem-nos.
Somos nomes do tempo.
Mudos também os mortos
pronunciam as palavras
que nós, os vivos, dizemos.
A linguagem é a casa
de todos, a casa suspensa
no flanco do abismo.
Conversar é humano.
PEDRA NATIVA   
A luz devasta as alturas
Manadas de impérios derrotados
O olho retrocede cercado de reflexos
Vastas terras como a insónia
Pedregais de osso
Outono sem fronteiras
A sede ergue os seus fontanários invisíveis
Uma última pirú prega no deserto
Fecha os olhos e ouve o cântico da luz:
O meio-dia aninha-se no teu ouvido
Fecha os olhos e abre-os:
Não existe nada nem sequer tu mesmo
O que não é pedra é luz
COLINA DOS ASTROS
Aqui os antigos bebiam o fogo
Aqui o fogo inventava o mundo
Ao meio dia
As pedras abrem-se como frutos
A água abre as pestanas
E a luz desliza pela pele do dia
Gota imensa onde o tempo se espelha
E sacia
SONHO DE PENAS
Para Maria José
A mão azul
tornou-se uma pena de desenho.
Lá em cima nasce o Fuji
vestido de branco.
Encosta coberta de erva alta.
Ali crescem três pinheiros e um fantasma.
Um par de andorinhas pergunta pela lua.
Em baixo, numa cama de veludo embotado,
dormem as penas de aço.
São sementes que sonham com a ressurreição:
amanhã serão fontanários.
Além, onde as fronteiras terminam e os caminhos se apagam. Onde o silêncio começa. Além, avanço lentamente e povoo a noite com estrelas, com palavras, com a respiração de uma água remota que me espera onde a madrugada começa.
Invento a véspera, a noite, o dia seguinte que se ergue do seu leito de pedra e com olhos límpidos percorre um mundo penosamente sonhado. Sustenho a árvore, a nuvem, a rocha, o mar, pressentimento de felicidade, invenções que desmaiam e vacilam perante a luz que se desagrega.
Depois , a serra árida, o casario de argila,  a realidade minuciosa de um charco e de um pirú ingénuo, de um bando de crianças idiotas que me apedrejam, de um povo rancoroso que me estigmatiza. Eu invento o terror, a esperança, o meio-dia,  – pai dos delírios solares, das falácias brilhantes, das mulheres que castram os seus amantes de uma hora.
Invento a queimadura e o uivo, as masturbações nas latrinas, as visões das estrumeiras, a prisão, o piolho e o cancro, a briga por causa de uma sopa, a denúncia, os animais viscosos, os contactos ignóbeis, os interrogatórios nocturnos, o exame de consciência, o juiz, a vítima, a testemunha. Tu és esses três. A quem apelar agora ? E que astúcia poderá destruir aquele que te acusa? Inúteis, os memoriais, os ais e as alegações. Inútil bater às portas emparedadas. Não há portas, há espelhos. Inútil fechar os olhos ou voltar para o meio dos homens: esta lucidez já não me abandona. Romperei os espelhos, rasgarei em pedaços a minha imagem  –  que em cada manhã restaura amorosamente o meu cúmplice e o meu informante. A solidão da consciência e a consciência da solidão, o dia a pão e a água, a noite sem água. Secura, campo arrasado por um sol sem pálpebras, olho atroz, ó consciência, presente puro, onde o passado e o futuro ardem sem brilho nem esperança. Tudo desemboca nesta eternidade, que nunca desemboca.
Além, onde os caminhos se apagam, onde o silêncio acaba, invento o desespero, a consciência que me concebe, a mão que me desenha, o olho que me descobre. Invento o amigo que me inventa, meu semelhante; e a mulher, meu adversário: torre que semeio com bandeiras, muralha que as minhas ondas de espuma escalam, cidade devastada que renasce lentamente sob o domínio dos meus olhos.
Contra o silêncio e o ruído invento a palavra, liberdade que se inventa e me inventa em cada dia.

 

 

 

octavio

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