Rubens de Mendonça, os 100 anos de um ilustre cuiabano

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ESPECIAL

Rubens de Mendonça, o mestre sem diploma

Reportagem especial conta um pouco da história e homenageia este ilustre historiador cuiabano, cujo centenário se comemora nesta segunda-feira

ALECY ALVES
Diário de Cuiabá

Nesta segunda-feira, 27, comemora-se o centenário de um dos mais ilustres cuiabanos, o historiador Rubens de Mendonça (que morreu em 1983, aos 67 anos).

Sem nenhum diploma de faculdade, Rubens tornou-se um mestre, ou o Mestre, reverenciado no campo da história, geografia, jornalismo, poesia, trova, além de exímio conferencista e orador.

Um jovem autodidata que, ao contrário dos filhos das famílias da classe média cuiabana de sua época, preferiu permanecer na capital mato-grossense a ir estudar no Rio de Janeiro.

Além de “estudar fora” não fazer parte de seus planos, ele não era dado a viagens longas, especialmente se tivesse de embarcar em avião.

Autor de mais de 30 livros, ocupou a cadeira de número 9 da Academia Mato-grossense de Letras. Mas Rubens de Mendonça não fez história somente em Mato Grosso, onde retratou como ninguém a cultura e os costumes de seu povo.

Também elevou seus feitos, e o nome do Estado, claro, a outras nações ao integrar organismos internacionais como a Sociedade de Geografia de Lisboa, o Instituto Antônio Cabreira, também de Lisboa, e o Instituto de Cultura Americana, de La Plata (Argentina) e Centro Intellectual Augustin Aspiazu, de La Paz (Bolívia).

Mas aqui, em solo cuiabano, as reverências a ele vão além da personalidade do homem culto cuja vida e obras contribuíram e contribuem com a cultura mato-grossense.

Quem teve o privilégio de conhecê-lo e gozar de sua amizade, orgulha-se do aprendizado, lealdade e das divertidas tiradas do “Rubinho”, como os mais íntimos costumavam tratá-lo.

Vinte anos mais novo, ou “mais criança” (como diria o cuiabano tchapa e cruz) que o historiador, o médico e ex-reitor da UFMT Gabriel Novis Neves o teve como um grande amigo.

“Alegre, irônico, generoso, solidário, leal…” a lista de qualidades atribuídas por Gabriel ao amigo é longa. Conta que desde os 10 anos recorria a Rubens de Mendonça para fazer as tarefas da escola.

“Sim, posso lhe ajudar Bugrinho”, respondia Rubens ao vê-lo com os cadernos em mãos na porta de sua casa. “Qual é a tarefa de hoje? Português, geografia…?” E assim o pequeno estudante, vizinho do jovem mestre, concluía os trabalhos escolares com a certeza de que asseguraria mais um 10 no boletim. “Eu só tirava 10 quando tinha a ajuda dele”, recorda.

E esse não era um privilégio apenas de “Bugrinho”, apelido de infância de Gabriel Novis (herdado do pai, Bugre). Praticamente todas as crianças da Rua do Campo (hoje Barão de Melgaço) tinham Rubens de Mendonça como o professor voluntário de reforço, especialista em tudo.

Gabriel, assim como boa parcela dos jovens, foi estudar no Rio de Janeiro. Aos 16 anos deixou a capital mato-grossense para fazer Medicina e só reencontrava o amigo-mestre nas férias escolares.

Formado, retornou a Cuiabá onde, além de grande amigo, tornou-se o médico de confiança do historiador. Com consultório vizinho a casa do amigo, conta que “Rubinho” dava socos na parece todas as vezes que queria conversar com ele.

Muitas vezes, o médico parava a consulta, pedia licença ao paciente, para atendê-lo ou, como na maioria das vezes, apenas ouvi-lo. Na década de 80, os dois enveredaram pelo campo da política.

Candidatos a cargos distintos, faziam reuniões juntos, mas não sabiam pedir votos. “Eu falava de saúde e ele de educação, só que ao final não pedíamos o voto [risos]. Fomos derrotados, claro”, completa.
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Noivado com Ivone durou 23 anos

Da Reportagem

Boemia, paternidade com responsabilidade e matrimônio com companheirismo e respeito. Essa parece ser uma associação de três ingredientes incompatíveis à vida daqueles que gostam da noite, de viver de bar em bar.

Não no caso do escritor Rubens de Mendonça, especialmente porque encontrara a esposa ideal. Ivone Badre é descrita por Adélia Brade Mendonça de Deus, a única filha do casal, como uma grande admiradora e companheira do marido.

Aos 17 anos, Rubens ficou noivo de Ivone, mas os dois somente se casaram 23 anos depois, quando ele tinha 40 anos. A filha se recorda que o pai costumava chegar em casa com os amigos, no meio da madrugada, depois que saiam do bar.

A mãe, com um bom humor que impressionava Adélia, não só acordava para receber o marido e os amigos como atendida a todos com lanches.

A paixão dele pela vida noturna, pela convivência com os amigos nos bares cuiabanos famosos da época, entre os quais “do Bugre” e Internacional, não o afastava da família. Adélia garante que o pai era carinhoso e presente na vida dela e da mãe. E enchia a casa de alegria. “Meus pais não brigavam, quando meu pai via alguém triste inventava uma brincadeira ou escrevia algo para alegrar o ambiente”.

Na mente de Adélia, a principal obra do reverenciado escritor não seus primores literários, mas o legado afetivo. “A figura paterna é sua maior obra”, avalia. “Ele era um homem à frente do seu tempo, conseguia cativar crianças e jovens de todas as idades, nossa casa vivia cheia porque todos queriam conversar com ele”. (AA)
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Tranquilo, gostava de andar armado

Da Reportagem

O dia em que Rubens de Mendonça foi detido por porte ilegal de arma também faz parte da história do escritor, um registro pitoresco que talvez não esteja nos livros e poucos o conheçam.

A detenção ocorreu no aeroporto de Brasília, em 1969, quando o historiador retornava de uma viagem na companhia de Gabriel Novis Neves, então secretário de Educação.

Rubens, assim como muitos cidadãos de bem, tinha o hábito de portar arma. Ele só não contava que poderia ser pego pela polícia, principalmente a Federal, durante revista aeroportuária.

Gabriel Novis conta que foram juntos a um evento político para o qual seguiram viagem em um avião militar. No retorno, em voo doméstico, ocorreu a revista.

Quando viu o amigo sendo detido, diz, ficou sem saber o que fazer. Por sorte, avistou o então deputado federal por Mato Grosso, Gastão Müller. Com muito custo o parlamentar conseguiu reverter a situação e convencer os policiais a liberá-lo, fazendo relato sobre a história e vida do escritor.

Gabriel diz que sabia que o amigo gostava de arma, mas também pelo temperamento tranquilo, alegre e apaziguador. “Eu acho até que ele nem sabia atirar, que nunca disparou um tiro com a arma que carregava”, opina. (AA)
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Academia fará homenagens ao imortal

Da Reportagem

O centenário de Rubens de Mendonça será celebrado nesta segunda-feira, a partir das 19h30, na Casa Barão de Melgaço (na Academia Mato-grossense de Letra e Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso).

A programação é extensa, porém promete ser agradável. Inclui o lançamento da edição especial (número 75) da revista digital do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso dedicada à vida e obras do escritor, editada pela professora-pesquisadora-escritora e imortal Elizabeth Madureira.

Também será lançado o hyperlink vinculado à fanpage do instituto, que passará a ser alimentado frequentemente com fatos, relatos e outros eventos relacionados ao autor e ao seu centenário.

Haverá, ainda, a apresentação da fortuna crítica do autor, ou seja, um estudo sobre a obra e vida dele, da Unemat, instituição a qual caberá resguardar tal trabalho. Já a imortal da AML, Marília Beatriz de Figueiredo Leite, apresentará a contemporaneidade das poesias, crônicas e trovas de Rubens de Mendonça.

HOMENAGENS PERMANENTES – O nome de Rubens de Mendonça está gravado em regiões nobres e periféricas. Em Cuiabá, empresta o nome à avenida com o metro quadrado mais caro da capital, também conhecida como Avenida do CPA. Em Várzea Grande, seu nome está em uma rua do Bairro São Mateus. Também é nome de escola e outros monumentos. (AA)
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Amigo fala do funcionário sempre pontual

Da Reportagem

Chefe de Rubens de Mendonça na extinta Superintendência do Plano Econômico da Amazônia (Spvea), o advogado Ivan Pedrosa, hoje com 86 anos, também se tornou grande admirador e amigo.

Carioca que veio para Cuiabá em 1965 para assumir a direção da Spvea, Pedrosa diz que foi recebido no aeroporto por Rubens de Mendonça e Frederico Campos (ex-governador), também funcionário da instituição.

A empatia ente ambos foi imediata, recorda. “Ele aparentava ser um homem formal, mas só na maneira de se vestir, sempre de terno e gravata”, descreve.

De competência e dedicação incontestáveis, o único problema que Pedrosa enfrentava na relação com servidor era com o horário de trabalho. É que, além de eficiente, Rubens era pontual, rigoroso com o próprio horário.

Ele chegava à repartição impreterivelmente as 7h30, um drama para o chefe recém-chegado da vida carioca, na qual estava habituado a sair da cama depois da 10h para começar a labuta somente ao meio-dia.

Superada essa etapa, chefe e funcionário viram a amizade de fortalecer a cada dia. Quando ficou noivo e marcou a data do casamento, no topo da lista de padrinhos de Pedrosa estava o nome do amigo Rubens. (AA)

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