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GRANDE, COMO ERA GRANDE: Morreu nesta quinta(13), aos 97 anos, o poeta Manoel de Barros, nascido em Cuiabá, no Beco da Marinha. Esquerda brasileira perde um de seus mais destacados literatos. Já na faculdade de Direito, Manoel descobriu que o poeta “pode misturar todos os sentidos”, quando leu “Une Saison en Enfer” de Arthur Rimbaud e conheceu pessoas politicamente engajadas, leu Karl Marx e entrou para a ‘Juventude Comunista’. O filólogo Antonio Houaiss o compara a São Francisco de Assis, “na sua humildade diante das coisas”. Manoel foi definido por muitos como “o Guimarães Rosa da poesia”. “Desde Guimarães Rosa a nossa língua não se submete a tamanha instabilidade semântica”, disse o poeta Geraldo Carneiro sobre ele

CAMPO GRANDE 

Morre o poeta Manoel de Barros, aos 97 anos

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Morreu nesta quinta-feira, 13, o poeta cuiabano Manoel de Barros, aos 97 anos. Ele estava internado há duas semanas na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do hospital Proncor, em Campo Grande, após se submeter a uma cirurgia no intestino. Segundo boletim assinado pela médica Carmelita Vilela, o falecimento ocorreu às 8h05, horário de Mato Grosso do Sul, após uma falência múltipla de órgãos. Em 19 de dezembro, Manoel de Barros completaria 98 anos.

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em 19 de dezembro de 1916 no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, na capital do Mato Grosso. Filho de João Venceslau Barros e Alice Pompeu Leite de Barros,foi levado pela família para uma fazenda recém-adquirida no Pantanal da Nhecolândia, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, onde fincaria suas raízes e onde sua infância transcorreu até os oito anos.

Neguinho, como era chamado, foi educado pela tia Rosa Pompeu de Barros. Ainda criança, mudou-se sozinho para Campo Grande, após ser aprovado no exame de admissão do Instituto Pestalozzi (atual Colégio Dom Bosco), e em 1929 foi para o Rio de Janeiro, estudar no Colégio Lafayete, onde ficou por cerca de quatro anos. Em 1932, Manoel matriculou-se no Colégio São José, dos Irmãos Maristas, onde viveu “desvirginamento poético, sua maior descoberta” ao conhecer padre Ezequiel, que o introduziu na leitura do Padre Antônio Vieira, quando notou que “A frase para ele era mais importante que a verdade, mais importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando percebi que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança”, “Descobri que servia era pra aquilo: Ter orgasmo com as palavras.”

 Primeiros livros
Já na faculdade de Direito, ele descobriu que o poeta “pode misturar todos os sentidos”, quando leu “Une Saison en Enfer” de Arthur Rimbaud e, após isso, conheceu pessoas politicamente engajadas, leu Karl Marx e entrou para a ‘Juventude Comunista’. Aos 18 anos, Manoel escreveu seu primeiro livro, que não foi publicado, mas o salvou da prisão.

Ele havia pichado “Viva o comunismo” em uma estátua e, quando a polícia foi buscá-lo na pensão onde vivia, a dona do local pediu para “não prender o menino, tão bom que até teria escrito um livro, chamado ‘Nossa Senhora de Minha Escuridão'”, vendo o título, o policial decidiu deixá-lo livre, mas queria o livro; trocou o único exemplar de seu primeiro livro por sua liberdade.

Já em 1937, Manoel de Barros tem seu primeiro livro publicado. Intitulado “Poemas concebidos sem pecado”, a publicação foi feita artesanalmente por amigos do escritor e teve uma tiragem de apenas 20 livros, além do exemplar que ficou com ele.

Decepção com o Partido Comunista
Em abril de 1945, Luiz Carlos Prestes é solto após quase dez anos de prisão. Importante líder do Partido Comunista, seu discurso era esperado com ansiedade por Manoel, pois seria uma tomada de atitude contra o que os jornais comunistas chamavam de “o governo assassino de Getúlio Vargas”. O poeta vai ao Largo do Machado, onde Prestes falaria; foi lá sua grande decepção política: “Quando escutei o discurso apoiando Getúlio — o mesmo Getúlio que havia entregue sua mulher, Olga Benário, aos nazistas — não agüentei. Sentei na calçada e chorei. Saí andando sem rumo, desconsolado. Rompi definitivamente com o Partido e fui para o Pantanal”.

Antes de ficar definitivamente no Pantanal, preferiu passar uns tempos na Bolívia e no Peru, “tomando pinga de milho”, de lá foi direto para Nova Iorque, onde morou um ano e fez um curso sobre cinema e pintura no Museu de Arte Moderna, foi onde percebeu que a arte moderna veio resgatar a diferença, permitindo que “uma árvore não seja mais apenas um retrato fiel da natureza: pode ser fustigada por vendavais ou exuberante como um sorriso de noiva” e que “os delírios são reais em Guernica, de Picasso”.

Voltando ao Brasil, conheceu a mineira Stella no Rio de Janeiro e, após três meses de namoro, os dois se casaram. Os dois tiveram três filhos, Pedro, João e Martha Barros, que é artista plástica e faz as ilustrações dos livros do pai, e viveram juntos em Campo Grande até os últimos dias do escritor.

Obra

Manoel de Barros escreveu entre cerca de 35 livros publicados no Brasil, Portugal, Espanha e França. Em toda sua obra, chegou a apresentar caracteristicas do Modernismo brasileiro, Vanguardismo europeu e Oralidade brasileira. O filólogo Antonio Houaiss o compara a São Francisco de Assis, “na sua humildade diante das coisas”. Ainda segundo Houaiss, a poesia de Manoel de Barros, sob a aparência surrealista, é de uma enorme racionalidade: “suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais”. Manoel foi definido por muitos como “o Guimarães Rosa da poesia”. “Desde Guimarães Rosa a nossa língua não se submete a tamanha instabilidade semântica”, disse o poeta Geraldo Carneiro sobre ele.

O escritor recebeu pelo menos 13 prêmios importantes, entre eles dois Jabutis (1989, na categoria Poesia, com o livro O guardador de águas, e 2002, na categoria livro de ficção, com O fazedor de amanhecer).

 

Redação O POVO Online

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