PREFEITURA SANEAMENTO

GRANDE, COMO ERA GRANDE – Esquecido, morre Meirelles

Dante tinha fama de esquerdista mas foi o seu vice, o militar coronel José Meirelles, quem tentou implantar, em Cuiabá, uma experiência de democracia direta, nos moldes sonhados pelos esquerdistas e libertários. Acabou fulminado pelo maioria dos vereadores e tendo sua administração inviabilizada

O prefeito que tentou democratizar a administração municipal em Cuiabá e fortalecer a organização popular em Cuiabá morreu esquecido pelo povo e afastado das atividades políticas. Na noite desta terça-feira faleceu em Cuiabá, vítima de um choque hemorrágico decorrente de um aneurisma, o coronel aposentado José Meirelles.

Meirelles foi um visionário que passou pela nossa prefeitura. Vice-prefeito de Dante, no pouco tempo em que governou Cuiabá (de 1994 a 1996), sucedendo Dante quando o Dante se afastou para virar governador do Estado, Meirelles ousou tentar democratizar a gestão da Prefeitura. Ele tentou transferir parte do poder de decisão do gabinete do prefeito para as entidades populares, associações de moradores, clubes de mães, etc.

Acabou se desgastando muito, porque a disputa interna que grassa nessas microcélulas de poder que são as entidades organizadas da sociedade civil não permitiu que o processo sonhado por Meirelles fosse levado muito adiante. Os vereadores da época também ficaram tiriricas com esta política que o Meirelles tentou implantar. Tanto que acabaram rejeitando as contas de Meireles, o que lhe tirou a condição de disputar, mais adiante, novamente, um cargo político em Cuiabá. Acabou, então, por se recolher, definitivamente, às suas atividades privadas. Vez ou outra, participava de um evento da comunidade espírita. Uma lástima.

Até agora, ninguém se preocupou em estudar mais a fundo aquela tentativa de descentralização do poder desenvolvida pelo José Meirelles, que deu com os burros nágua mas que foi uma tentativa corajosa, apesar de utópica, tendo em vista o período em que foi tentada e os personagens que envolvia.

O certo é que perdemos, na noite desta terça-feira, um grande homem.

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PARA ENTENDER MEIRELLES

Coronel Meirelles, uma vida guiada pela razão e retidão

EDUARDO GOMES
DIÁRIO DE CUIABA – 25.11.2001

Homem de forte temperamento, mas sempre disposto a ouvir a voz da razão, o coronel José Meirelles recuou diante do conselho expressado por uma frase dita por sua mulher, Zulmira: “Não faça isso, senão você nunca mais se reencontrará”. Ele não questionou, desistiu da idéia de renunciar à prefeitura de Cuiabá e continuou prefeito até o fim do mandato, enfrentando aquilo que chama de fisiologismo da Câmara.

Em 1992, o coronel Meirelles foi eleito vice-prefeito de Cuiabá pelo PSDB na chapa encabeçada por Dante de Oliveira, então no PDT. Dois anos depois Dante renunciou para concorrer e vencer a eleição ao governo e Meirelles assumiu a prefeitura. Naquele momento o país fazia a transição do Cruzeiro para o Real. Isso dificultava a administração e, para complicar, o caixa do município estava em frangalhos.

Prefeito, Meirelles encontrou duas barreiras de difícil transposição: a surda pressão do empresariado e a escancarada faca que a Câmara apontava ao seu peito. Desencantado com as injunções e com a classe política, decidiu que renunciaria. Zulmira o impediu de levar adiante esse plano.

Experiência no campo político nunca deu certo para Meirelles. O governador Carlos Bezerra (PMDB 87/90) o nomeou presidente da estatal Cemat. No cargo, arrumou inimigos poderosos por suas idéias de administração descentralizada e moralizadora.

À época, a Cemat era o principal cabide de empregos do governo. Meirelles criou desconforto na estatal ao anunciar que descentralizaria a administração da empresa, criando núcleos regionais. Sem saber, com isso, cavou sua cova.

O golpe final contra ele foi dado pela então secretária de Obras – à qual a Cemat era subordinada – Inês de Oliveira, irmã do atual governador Dante de Oliveira.

Meirelles vestiu a camisa da eletrificação rural. Para tanto, planejou implantar redes de distribuição com posteamento de madeira. Isso foi a gota d’água. Inês vetou a proposta; ele ainda resistiu, mas foi vencido pela palavra final de Bezerra, que avalizou o posicionamento da secretária, afinal ninguém menos que Armando de Oliveira, irmão dela e de Dante, era o grande beneficiado na venda de postes de concreto à Cemat.

Nem mesmo Meirelles sabe explicar como a política entrou por suas veias. “De repente eu estava na Adesg (Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra) batendo no governo, falando a língua do MDB”, tenta se explicar o coronel.

Quando deixou a ativa do Exército, em 76, Meirelles foi convidado a se filiar ao MDB por padre Raimundo Pombo e Vicente Bezerra Neto. Aceitou com naturalidade e passou a atuar nos bastidores, porque entendia que “milico não deve se meter em política enquanto candidato”.

Em 86, o PMDB conquistou o poder em Mato Grosso. Situacionista, Meirelles foi aproveitado pelo partido na área social e assumiu a Legião Brasileira de Assistência, a LBA. Sua atuação junto ao movimento comunitário o credenciou a disputar a prefeitura, em 88. Foi lançado candidato a prefeito com chances de vitória, mas a fragmentação da oposição, com ele, Serys Slhessarenko (PT) e Roberto França (PTB), facilitou a eleição de Frederico Campos (PFL).

Hoje, distante do burburinho político, Meirelles trabalha no voluntariado da assistência social na Creche São Francisco de Assis e reúne dados para um livro ainda sem título, que pretende escrever.

Sua grande paixão, depois da família, é falar sobre a construção da rodovia BR-163, a Cuiabá-Santarém, obra que executou no trecho de 1.100 quilômetros, de Posto do Gil à serra do Cachimbo (PA), no período de 1971 a 73, época em que comandava o 9º BEC.

Discreto, sem vaidade, disciplinado militarmente, não se cansa de dizer que simplesmente cumpriu uma missão na BR-163. Credita o mérito da obra ao Exército. Mesmo assim, seus antigos comandados e seus ex-funcionários civis o chamam respeitosamente de “Pai da Cuiabá-Santarém”.

2 Comentários

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  1. - IP 187.88.224.179 - Responder

    Meus pêsames à família do Cel Meireles, figura lendária do 9º BECnst, quartel a que tive o privilégio de servir por quase 11 anos (de 1997 a 2008)…não sabia dessa faceta semi-revolucionária do primeiro comandante do Becão…que sua alma descanse em paz, a paz que, certamente, não existe na consciência da imensa maioria dos políticos matogrossenses e brasileiros…

  2. - IP 177.43.82.70 - Responder

    Parabéns Enock por desfraldar com rara sensibilidade a personalidade solidária e libertária do cel. Meirelles neste breve artigo, para que as gerações atuais e futuras de cuiaban@s possam conhecer e/ou reconhecer o Prefeito mais Socialista que esta cidade já teve… Que serviu a Pátria sem jamais se servir dela.

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