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GRANDE, COMO ERA GRANDE: A escritora sul-africana Nadine Gordimer, Prêmio Nobel de Literatura em 1991 e engajada na luta contra o apartheid, morreu aos 90 anos.

Prêmio Nobel de Literatura Nadine Gordimer morre aos 90 anos

A autora de 15 romances e inúmeros contos teve três de seus livros censurados

FOLHAPRESS

Divulgação /

A escritora sul-africana Nadine Gordimer, Prêmio Nobel de Literatura em 1991 e engajada na luta contra o apartheid, morreu no domingo (13), aos 90 anos.

De acordo com um comunicado da família divulgado pelo escritório de advocacia Edward Nathan Sonnerbergs, Gordimer morreu durante o sono, em sua residência em Johannesburgo, ao lado dos filhos Hugo e Oriane.

“Seu maior orgulho não foi apenas ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em 1991, mas também ter testemunhado (no julgamento), em 1986, ajudando a salvar o vida de 22 membros do ANC (Congresso Nacional Africano), todos acusados de traição”, dizem os filhos no comunicado.
“Ela se importava profundamente com a África do Sul, sua cultura, seu povo, e sua atual luta para perceber sua nova democracia”.

Nascida em 20 de novembro de 1923, Gordimer era filha de imigrantes judeus oriundos da Europa Oriental. Ela cresceu em um bairro rico da pequena cidade de Springs, ao leste de Johannesburgo. Sua mãe, convencida de que ela sofria de uma doença cardíaca, retirou-a da escola.

Frequentou regularmente bibliotecas e começou a escrever aos nove anos de idade. Publicou o primeiro romance aos 15 anos em uma revista local.

“Anos mais tarde, eu percebi que se eu fosse negra, eu provavelmente não me tornaria uma escritora, uma vez que as bibliotecas que eu frequentava eram proibidas a eles”, disse ela ao receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1991.

Ela sempre se negou a deixar o país, mesmo nos momentos mais sombrios do apartheid, o regime de segregação racial que durou entre 1948 e 1994.

Autora de 15 romances e inúmeros contos, teve três de seus livros censurados pelas autoridades do regime, além de uma antologia de poemas de escritores negros sul-africanos, que ela mesma havia reunido e publicado.
No livro “O Conservador”, ela imagina o desconforto de um rico afrikaner que se vê com o cadáver de um de seus empregados negros nos braços. Em “July’s people”, de 1981, ela descreve o estado emocional de uma família branca obrigada a refugiar-se na casa de sua empregada doméstica por causa de uma revolução.
Próxima de Nelson Mandela (1918-2013), a escritora foi uma das pessoas que o líder sul-africano pediu para ver quando saiu da prisão, em 1990.
Em 1991, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura por seus romances sobre as tensões do apartheid. Na ocasião, ela foi chamada de uma das “maiores guerrilheiras da imaginação” pelo poeta irlandês Seamus Heaney (1939-2013), e de uma “magnífica escritora épica”, pelo comitê do Prêmio Nobel.
“Ela torna visível as condições de vida extremamente complicadas e completamente inumanas de um mundo de segregação racial”, disse a secretária da Academia Sueca Sture Allen quando entregou o prêmio.
Com a introdução da democracia em 1994, Gordimer não hesitou em apontar os erros dos sucessores de Nelson Mandela no poder e falou sem piedade dos males de sua sociedade. Ela criticou o atual presidente Jacob Zuma por um projeto de lei que limitaria a publicação de informação considerada “sensível”, pelo governo.
“Chamam-na lei para ‘proteção da informação’ -um outro jeito de dizer censura. Uma espécie de tribunal para a imprensa. Afeta também gente que escreve ficção, pois se você criar personagens que sejam parte do governo pode estar sujeito a uma condenação por supostamente revelar segredos de Estado”, disse à Folha de S.Paulo em 2012.

Ela esteve no Brasil em 2007, participando da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). O encontro foi lembrado por uma das fundadoras do evento, a inglesa Liz Calder, como um dos mais marcantes do festival.

“Lembro sempre de dois momentos: Nadine Gordimer e Amós Oz (em 2007), dois grandes escritores que não só tinham muitas coisas interessantes a dizer, mas que são grandes amigos. Aquela mesa foi emocionante. Era palpável a emoção do público”, disse.

Nadine Gordimer se casou duas vezes e teve um filho de cada matrimônio.

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Morre aos 90 anos a ganhadora do Nobel de literatura Nadine Gordimer

Em março, sul-africana havia revelado que tinha câncer no pâncreas.
Boa parte da obra era sobre situação social de seu país durante apartheid.

Do G1, em São Paulo

Nadine Gordimer, em 2007 (Foto: Walter Craveiro)
A escritora Nadine Gordimer, em 2007 (Foto: Walter Craveiro)

Morreu na noite deste domingo (13), aos 90 anos, a escritora sul-africana Nadine Gordimer, ganhadora do prêmio Nobel de Literatura e conhecida por combater o regime de segregação racial em seu país, informa a Reuters. De acordo com a agência de notícias, a autora estava em casa e acompanhada dos filhos, Hugo e Oriane.

Uma das principais vozes contra o apartheid, Nadine havia revelado em março que tinha câncer no pâncreas e que não conseguiria mais escrever um novo romance. “Talvez faça alguns contos, mas escrever me deixa mal e sou muito crítica, muito exigente com meu trabalho. Não acredito que aceitaria algum trabalho que não me satisfaça”, afirmou na época.

Sobre a doença, mostrava preocupação. “Sinto muita dor. Quando escrevi o meu último romance, não o tinha [câncer], ainda não tinha começado, e o que escrevi não tem nada a ver com a doença”.  Ela recebeu o Nobel de Literatura em 1991 e o Booker Prize em 1974, além de outros prêmios.

Em boa parte de seus mais de 30 livros, Nadine abordou a situação social na África do Sul. Ela ficou mundialmente famosa com o romance “A filha de Burger”, de 1980. Seu primeiro romance, “The living days”, saiu em 1953.

No Brasil, a editora Companhia das Letras publicou seis obras da escritora: “Ninguém para me acompanhar”, “A arma da casa”, “O engate”, “De volta à vida”, “Beethoven era 1/16 negro” e “O melhor tempo é o presente”.

Também lançou a coletânea de contos “Contando histórias”, organizada por Nadine. Com 21 histórias, o livro teve seus direitos revertidos para a TAC (Treatment Action Campaign), uma campanha para tratamento e prevenção da Aids.

Já o selo Biblioteca Azul, da Globo Livros, publicou “Tempo de reflexão 1 – De 1954 a 1989” e “Tempos de reflexão 2 – De 1990 a 2008”. Nas duas coletâneas de ensaios, Nadine retrata sua longa trajetória literária.

Em nota divulgada nesta segunda-feira (14), a assessoria de imprensa da editora reproduziu um trecho de “Tempo de reflexão 1”, justamente aquele em que a escritora relembra seus primeiros textos, ainda criança. “Quando comecei a escrever, com nove ou dez anos, eu escrevia com o que passei a acreditar ser a única verdadeira inocência – um ato sem responsabilidade”, afirma.

Em outra passagem, no livro “Tempo de reflexão 2”, ela cita o autor do polêmico “Os versos satânicos” para falar sobre libedade. “Salman Rushdie não tem sido visto por… quanto tempo? Ele se tornou um dos Desaparecidos, como aqueles que sumiram durante um período recente na Argentina e aqueles que desaparecem sob o apartheid na África do Sul”, comparou.

“Os governos repressivos têm o poder de destruir vidas nos seus países; quando as religiões adotam esses métodos, elas têm o poder de aterrorizar, por meio de seus fiéis, qualquer parte do mundo.”

Mandela
Em 2006, Nadine Gordimer foi a escolhida para entregar a Nelson Mandela (1918-2013) a distinção Embaixador da Consciência, atribuída pela Anistia Internacional. Na época, a agência de notícias France Presse reproduziu declarações da escritora durante a cerimônia.

“Mandela foi e é um revolucionário no melhor sentido da palavra”, afirmou sobre o ex-presidente da África do Sul. Ela destacou a independência intelectual de Mandela e sua aversão ao “politicamente correto”.

No ano seguinte, Nadine visitou o Brasil para participar da 5ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Naquela edição do evento, estiverma ainda nomes como Amós Óz, Robert Fisk, Mia Couto e J.M. Coetzee.

No final de 2011, Nadine Gordimer se destacou por criticar um projeto de lei sobre a informação na África do Sul, que para ela representava um retorno ao período no qual a liberdade de expressão estava suprimida pelo apartheid.

“As pessoas lutaram e morreram para conquistar a oportunidade de ter uma vida melhor, uma vida que atualmente está arruinada e prejudicada pela corrupção”, afirmou na ocasião. “As práticas de corrupção e nepotismo só podem ser denunciadas se tivermos liberdade de expressão.”

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