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GRANDE, COMO ERA GRANDE: Morre Dom Evaristo Arns, 95 anos, religioso notável na resistência à ditadura dos militares

EXEMPLO DE VIDA

Morre dom Paulo Evaristo Arns, símbolo da resistência e luta pelos direitos humanos

Aos 95 anos, o homem que enfrentou a ditadura e dedicou a vida em prol da justiça e da população humilde, morreu nessa quarta-feira (14), vítima de complicações pulmonares
Da Rede Brasil Atual
© FABIO BRAGA/FOLHAPRESS

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Arcebispo emérito de São Paulo, o cardeal dom Paulo Evaristo Arns foi homenageado pelos seus 95 anos, completados em 14 de setembro

São Paulo – Símbolo da luta pelos direitos humanos no Brasil, “amigo do povo”, como certa vez disse que gostaria de ser lembrado, o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns morreu na manhã de hoje (14), aos 95 anos, no Hospital Santa Catarina, na capital paulista,, onde estava internado desde o dia 28 de novembro com um quadro de broncopneumonia.

Nascido em 14 de setembro de 1921 em Forquilhinha, colônia de imigrantes alemães na região de Criciúma, em Santa Catarina, Paulo Evaristo Arns era o quinto dos 14 filhos de Gabriel Arns e Helena Steiner.

Entre 1956 e 1966, foi professor de teologia no seminário franciscano de Petrópolis (RJ), período em que atuou nos bairros pobres e favelas da cidade serrana. Em seu livro autobiográfico de memórias “Da Esperança à Utopia – Trajetória de uma Vida”, definiria a época em Petrópolis como a mais feliz da sua vida.

Em 1966 foi nomeado bispo, por decisão pessoal do papa Paulo 6º. No mesmo ano foi escolhido para ser bispo auxiliar do cardeal de São Paulo, Agnelo Rossi, homem aliado à ala conservadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e que logo o enviou para atuar na região de Santana, na zona norte da capital paulista.

Ali começou a visitar e conhecer a situação dos presidiários da Casa de Detenção do Carandiru, além de criar núcleos da pioneira experiência das comunidades eclesiais de base (Cebs). Um dia, por orientação do cardeal, dirigiu-se ao presídio Tiradentes para checar as condições de frades dominicanos presos por razões políticas, entre eles frei Beto e frei Tito. Foi quando viu com os próprios olhos a deplorável situação de frei Tito, barbaramente torturado pela ditadura civil-militar que um ano antes, em 1968, havia engrossado a repressão e a perseguição política com a instauração do Ato Institucional nº 5.

O contato com os presos políticos no presídio Tiradentes e a constatação das torturas praticadas pelo regime, marcaria dali em dia, definitivamente, a vida e a trajetória de d. Paulo como defensor incansável dos direitos humanos e dos presos políticos.

Em 1970, com a transferência do cardeal Agnelo Rossi para Roma, d. Paulo Evaristo Arns assumiu como o novo arcebispo de São Paulo, novamente a convite do papa Paulo 6º. A admiração entre ambos era recíproca.

Em 1972 instalou a Comissão Justiça e Paz, cujo objetivo era prestar atendimento às vítimas e perseguidos políticos da ditadura. Tendo o jurista Dalmo de Abreu Dallari como primeiro presidente, a comissão funcionava na Cúria Metropolitana e logo se tornou ponto de refúgio para familiares de mortos e desaparecidos. No ano seguinte, o papa Paulo VI elevou-o a cardeal.

Símbolo da resistência, admirado e amado pelo povo, d. Paulo Evaristo Arns era, por outro lado, de certa forma odiado pelos líderes militares e civis da ditadura. Em 1975, após o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, comandou na Catedral da Sé um ato ecumênico que entraria para a história da luta pela democracia e o fim da ditadura no Brasil.

Em 1998 o cardeal se afastou do comando da Arquidiocese de São Paulo e, desde então, passou a manter uma vida discreta, em recolhimento, ao mesmo tempo em que recebia inúmeras homenagens por sua vida dedicada à luta pelos direitos humanos. Em maio de 2012 ainda recebeu a vista da então presidenta Dilma Rousseff, na Congregação Franciscana Fraternidade Nossa Senhora dos Anjos, em Taboão da Serra (SP). No encontro, Dilma lhe falou da instalação da Comissão da Verdade, criada dias antes.

Com a saúde bastante frágil, passou os últimos anos de vida dedicado às orações e aos estudos.

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ENTREVISTA

Dom Paulo, a Jimmy Carter: ‘É verdade que a CIA nos ensinou a torturar?’

“Conversei com o Médici uma vez e fui muito mal recebido. Ele me disse: ‘O sr. cuide da sacristia e eu cuido do país’, com uma brutalidade tal que eu temi pelo Brasil inteiro, e não só por mim mesmo”
por Redação RBA publicado 14/12/2016 14:45, última modificação 14/12/2016 15:18
MEMORIAL DA DEMOCRACIA
Carter

Geisel recebeu Carter em 1978. Dom Paulo esteve com o presidente norte-americano e o cobrou contra violência da ditadura no Brasil

São Paulo – “Uma vez, estando em um carro, sozinho com o presidente dos Estados Unidos e sua esposa, no Rio de Janeiro, quando ele nos visitou, eu perguntei: ‘Muita gente diz que a CIA nos ensinou a torturar, sobretudo a tortura psicológica. O sr. acha que isso pode ser verdade?’. Ele se voltou para a esposa e perguntou: ‘O que que eu vou responder?’ Eu, que entendo inglês, disse: ‘É bom dizer toda a verdade’. E ele então disse: ‘Pode ser que isso seja verdade’. Então eu disse: ‘Se pode ser que isso seja verdade, então, para mim, é verdade. E sr. Deve ajudar-nos a vencer esse período de violação de direitos humanos da forma mais cruel’. Ele disse: ‘Para isso eu vim ao Brasil’”.

Esta narração é trecho de uma entrevista concedida por dom Paulo à repórter Marilu Cabañas, por ocasião da comemoração Nos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (dezembro de 1998). Ele se refere ao presidente norte-americano Jimmy Carter (1977-1981), que visitou o Brasil em 1978.

Como descreve Marilu, dom Paulo, o “papa dos direitos humanos” personifica a resistência contra a ditadura militar e a luta contra as desigualdades sociais no Brasil. Sua palavra tocou torturados e poderosos, ricos e pobres. Indicado pelo Prêmio Nobel da paz em 1989, o catarinense de Forquilhinha, Criciúma (SC), utilizou em favor dos injustiçados e oprimidos todo seu conhecimento, que não é pouco. Formado em Teologia e Filosofia, do Paulo fez especialização e pós-graduação em Pedagogia, Sociologia, Letras e Cultura Antiga, Estudou na Sorbone, na França, e fez estágios na Alemanha, Bélgica Inglaterra, Holanda, Estado Unidos e Canadá.

É doutor honoris causa em 12 universidades. Escrevei 48 livros e foi tema de cinco. Ganhou o Prêmio Juca Pato de intelectual do ano em 1990, com o livro Clamor do Povo pela Paz.

A conquista da democracia e a organização popular no Brasil são frutos de toda uma vida pela valorização do homem. Mas a sociedade ideal está longe de existir no país. Mas em sua sabedoria, dom Paulo recomenda, como sempre, a luta.

“Depois ao Ato institucional número 5 (AI-5, de 13 de dezembro de 1968), entrou o (presidente) Médici, em 1969, que ficou até 1964. Esse foi o período mais terrível da ditadura. Insuportável, em todos os sentidos”, lembra dom Paulo. “Eu até pensava, muitas vezes: tudo aquilo (técnicas de prisão e tortura) que Hitler inventou na Alemanha, ensinaram aos brasileiros; e os brasileiros ainda aprenderam outras coisas através da CIA americana, e quem sabe outras escolas ainda.”

“Eu conversei com o Médici uma vez e fui muito mal recebido. Ele me disse ‘o senhor cuide da sacristia que eu cuido do país’. Ele me disse isso com uma brutalidade tal que eu até temi pelo Brasil inteiro, e não só por mim mesmo.”

Vale a pena ouvir a entrevista completa de dom Paulo a Marilu Cabanãs, reprisada em outubro na Rádio Brasil Atual.

Categorias:Cidadania

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