gonçalves cordeiro

GRANDE, COMO ELE É GRANDE – Publicado pela Editora Unicamp, nova edição do “Do vampiro ao cafajeste — uma leitura da obra de Dalton Trevisan”, da professora Berta Waldman, da USP, tem 17 novos artigos. Entre as teses que defende, Berta destaca o valor da repetição na obra de Trevisan, contista que, com linguagem popular e concisa ao extremo, conseguiu criar personagens de significado universal, especialmente o cafajeste Nelsinho, o vampiro de Curitiba, além de outros tantos “pássaros de cinco asas quebradas” que incluem uma multidão de funcionários públicos, lojistas, prostitutas, donas de casas, domésticas, profissionais liberais e trabalhadores da terra

A linguagem haicai de Dalton Trevisan, o Vampiro de Curitiba

Publicado pela Editora Unicamp, a nova edição do livro de 1982, “Do vampiro ao cafajeste — uma leitura da obra de Dalton Trevisan”, tem 17 novos artigos

De linguagem popular e concisa, Dalton Trevisan criou personagens de significado universal, especialmente o cafajeste Nelsinho, o vampiro de Curitiba, além de outros tantos “pássaros de cinco asas quebradas” | Foto: Julio Covello

De linguagem popular e concisa, Dalton Trevisan criou personagens de significado universal, especialmente o cafajeste Nelsinho, o vampiro de Curitiba, além de outros tantos “pássaros de cinco asas quebradas” | Foto: Julio Covello

Adelto Gonçalves
Especial para o Jornal Opção

Nascido como tese de doutorado na Facul­dade de Filo­so­fia, Le­tras e Ciências Huma­nas da Universidade de São Paulo (USP), orientada pelo lendário professor Antonio Can­di­do, o livro de 1982 “Do vampiro ao cafajeste – uma leitura da obra de Dalton Trevisan” (Hucitec, São Paulo), de Berta Waldman, professora-titular no Departamento de Letras Ori­entais da USP, ganha agora segunda edição acrescida de 17 artigos escritos nos últimos anos, com o título “Ensaios sobre a obra de Dalton Trevisan” (Editora Uni­camp, Cam­pinas), com apresentação de Hélio de Seixas Guimarães, prefácio de Modesto Carone e texto de orelha de Vilma Arêas.

Entre as teses que defende, Berta destaca o valor da repetição na obra de Dalton Trevisan, contista que, com linguagem popular e concisa ao extremo, conseguiu criar personagens de significado universal, especialmente o cafajeste Nelsinho, o vampiro de Curitiba, além de outros tantos “pássaros de cinco asas quebradas” que incluem uma multidão de funcionários públicos, lojistas, prostitutas, donas de casas, domésticas, profissionais liberais e trabalhadores da terra que, no dizer da autora, “contentam-se em sugar o outro, transformando-o à sua imagem e semelhança”. Para tanto, a professora compara o vampiro de Trevisan ao conde Drácula, especialmente o retratado no romance gótico “Drácula”, do irlandês Bram Stocker (1847-1912), publicado em 1897.

Neste percurso em que Trevisan transforma o célebre conde em cafajeste brasileiro, como observa o professor, jornalista, tradutor e escritor Modesto Carone no prefácio, Berta constrói um caminho que vai da metáfora — a metáfora do vampiro que se autorreproduz — para a descrição dos seus termos. Para Carone, com este livro, a ensaísta “põe as coisas no eixo e diz convictamente porque Dalton Trevisan é, afinal de contas, um autor sério — e sério, aqui, significa o escritor suficientemente desperto para inovar formas e, por intermédio delas, dar relevo estético e histórico para as coisas do seu tempo e lugar”.

A autora ressalta ainda o recurso do clichê utilizado por Trevisan como elemento construtivo e articulador da linguagem, com o uso abusivo de diminutivos, frases feitas, letras de hinos pátrios, músicas populares, cartas escritas sob a inspiração do consultório sentimental das antigas revistas femininas e ainda construções calcadas na imprensa marrom (veículos considerados sensacionalistas) e nos boletins de ocorrências das delegacias de polícia. “Nesse caso”, diz Berta, “o eu que fala e o tu, que se apresenta como interlocutor de uma fala vazia, ocupam o lugar de um ele, de uma não pessoa, na medida em que se nega ao sujeito o papel ativo na elaboração do próprio discurso”.

Para a ensaísta, como decorrência dessa ausência de sujeito, há nos contos de Trevisan uma “irresponsabilidade” com relação ao que se fala, a ponto de, em certos momentos, o leitor não conseguir identificar o emissor, que tanto pode ser o narrador, como uma personagem ou outra.

Publicado pela Editora Unicamp, a nova edição do livro de 1982, “Do vampiro ao cafajeste — uma leitura da obra de Dalton Trevisan”, tem 17 novos artigos

Publicado pela Editora Unicamp, a nova edição do livro de 1982, “Do vampiro ao cafajeste — uma leitura da obra de Dalton Trevisan”, tem 17 novos artigos | Foto: Divulgação

Prafrentex cafona

Como bem ressalta na apresentação Seixas Guimarães, professor livre-docente de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Clás­si­cas e Vernáculas da USP, especialista em Machado de Assis (1839-1908), Berta mostra que nas narrativas de Trevisan é frequente o uso do discurso indireto livre em que a voz do narrador é atravessada pela das personagens e aponta também o que define como “discurso direto livre”, “referindo-se à frequente interrupção, no discurso do narrador e sem prévio aviso, de frases das personagens”.

Diz mais: “Os sujeitos vampirizados são ventríloquos de discursos prontos, ready-mades, enunciadores de frases feitas, colhidas no meio da rua ou nos meios de comunicação de massa. Mas também não se limitam a isso, pois resta humanidade nos dentes que lhes faltam na boca, no acessório prafrentex e cafona, no sexo feito às pressas, no desejo de ser alguma coisa que não são e talvez nunca possam ser, o que imprime uma nota pungente e inconfundível às narrativas de Dalton Trevisan”.

Para Guimarães, Trevisan e Ma­cha­do de Assis agem como verdadeiros larápios, saqueando e recontextualizando as fórmulas esvaziadas dos mass media, no caso de Tre­vi­san, e da retórica, no caso de Macha­do. De fato, neste livro, como observa com percuciência a ensaísta e ficcionista Vilma Arêas no texto que es­creveu para a orelha, “a sofisticação do autor se encontra com o a­pu­ro da crítica, e assim se completam”.

Perfil memorável

Ao que parece, Berta Waldman nunca conversou diretamente com Trevisan, até porque o escritor mantém-se arredio até hoje àqueles que estudam sua obra ou mesmo a jornalistas ou admiradores. Preferiu assim “dialogar” com o autor da ú­ni­ca maneira possível, ou seja, estudando seus textos, apontando a tendência do contista para o enxugamento da linguagem, o que se comprova em suas mini-histórias e seus haicais e até mesmo na novela “A po­laquinha”, publicada em 1985, que conta a história de uma moça po­bre, de vida difícil, mas muito co­bi­çada pelos homens, como disse em entrevista a Ubiratan Brasil, em O Estado de S. Paulo, de abril de 2015.

Aliás, até hoje se conhece apenas uma entrevista que Trevisan tenha dado à imprensa e, mesmo assim, sem sabê-lo. Foi em 1980, quando o repórter Marcos Barrero, da revista Status, de São Paulo, destacado para escrever um perfil do escritor, ficou três dias em Curitiba à caça do autor, até que, por indicação de amigos íntimos da personagem, conseguiu se aproximar dele numa banca de jornais da Boca Maldita, zona central da cidade.

Apresentou-se como professor, o que de fato era, e com um gravador minúsculo no bolso de dentro do paletó, que usava como repórter da rádio Jovem Pan, de São Paulo, gravando uma conversa de quase uma hora com o autor de “Virgem louca, loucos beijos” (1979). Com a entrevista e as informações passadas por seus amigos e fotos cedidas às escondidas por Rosana, filha do contista, Barrero escreveu um memorável perfil que ocupou oito páginas na edição de maio daquele ano da revista.

Autora

Berta Waldman nasceu em São Paulo. Estudou Letras na Univer­sidade de São Paulo. Professora de Literatura Brasileira e Teoria Literária na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), dedicou-se também à literatura hebraica. Em sua bibliografia, além de “Do vampiro ao cafajeste – uma leitura da obra de Dalton Trevisan”, destacam-se: “A paixão segundo Clarice Lis­pector” (São Paulo, Editora Brasiliense, 1983), “Nelson Rodrigues: flor de obsessão” (São Paulo, Editora Brasiliense, 1985), em parceria com Carlos Vogt, e “Linhas de força: escritos sobre literatura hebraica” (São Paulo, Humanitas, 2004).

Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor, dentre outros, de “Os vira-latas da madrugada”.

Leia abaixo um memorial do escritor e jornalista Marcos Barrero sobre o perfil do escritor curitibano Dalton Trevisan, que ele escrevera em 1980 e publicara na revista paulista Status, onde trabalhava como repórter.

Meu encontro com o Vampiro

De Cássio Loredano, a caricatura acima mostra Dalton Trevisan, o “Vampiro de Curitiba”. Sua obra foi matéria-prima de Berta Waldman, autora que mostra o enxugamento da linguagem do contista

De Cássio Loredano, a caricatura acima mostra Dalton Trevisan, o “Vampiro de Curitiba”. Sua obra foi matéria-prima de Berta Waldman, autora que mostra o enxugamento da linguagem do contista

Foi uma das minhas grandes admirações. Hoje, nem tanto. Em 1979, porém, lia tudo que ele escrevia, e o que escreviam sobre ele. Assim, convenci o escritor Gilberto Mansur, diretor da revista Status — concorrente da Playboy — a me dar passagens e dinheiro pra caçar o escritor Dalton Trevisan, o “Vampiro de Curitiba”, em seu próprio território. Caçar como jornalista — ou seja, entrevistá-lo. Fui. Fiquei três dias em Curitiba, instalado num hotel do centro, na célebre Boca Maldita. E voltei com um perfil, longa entrevista e fotos raras e inéditas da infância do escritor. Deu oito páginas e chamada na capa da revista, edição de maio de 1980.

Não fui original nem genial. Fui jornalista. Obedeci a um princípio acaciano segundo o qual compete ao jornalista investigar, se jogar no fato e domá-lo assim como um toureiro, um El Cordobés, um Dominguín. Pra explicar melhor: fiz o contrário do que fazem hoje os repórteres pasteurizados, telefone em punho e produção na retaguarda. Minhas missões na profissão e na vida sempre foram solitárias. Prefiro assim. Pelo menos, erro sozinho e presto contas apenas ao espelho partido de cada manhã.

Recém-chegado e refestelado na cama do hotel curitibano, planejei o ataque ao Vampiro. Fiz ligações a amigos, tentei por eles uma aproximação com o escritor. Ninguém quis me ajudar, mas todos se candidataram a falar. Notei vaidade ali. Na mesma noite, madrugada alta, uns cinco ou seis amigos íntimos do escritor, cometiam inconfidências à minha volta numa mesa repleta de garrafas vazias e copos cheios. Onde? No bar do hotel — nem precisei sair, a notícia veio a mim. Sentou-se à minha mesa e falou. Disse tudo o que eu queria ouvir, o que eu sabia e o que jamais supunha, o que perguntei e — muito mais — o que nem imaginei inquirir.

Fiquei com o perfil quase pronto. Dia seguinte, fui à caça do Vampiro. Tinha um mapa, desenhado no papel, de sua rotina — hora a hora do seu dia a dia. Resolvi então cercá-lo numa banca de jornal na Boca Maldita. Ali, diariamente, ele comparecia para folhear, meio escondido, revistas pornográficas. A dica dos amigos foi perfeita. Deu certo — me apresentei como professor, que de fato era, e com um gravador minúsculo no bolso de dentro do paletó, que usava como repórter da Jovem Pan, gravei um papo de quase uma hora com o autor de Virgem Louca, Loucos Beijos.

Havia levado uma primeira edição de “Novelas Nada Exemplares”, de 1959, também recomendação dos amigos. Dalton enlouquecia com velhas edições de seus livros. Destruía todas que encontrava. Dizia que só valia a última. Quase insano, ele revisa todas suas obras a cada nova edição. Usei o livro como isca, apresentando-o para um autógrafo. O Vampiro ficou doido, propunha compra, troca, qualquer coisa pra ficar com o Novelas. E eu fiz o jogo, ganhei tempo, fui falando com ele e fazendo minha entrevista. Cedi, sim, mas quando quis — e troquei a edição da José Olympio Editora (a primeira do Vampiro por grande editora) por livros novos, também dele, autografados e dedicados a mim, ali mesmo na banca. Escreveu Marcos, vírgula, etc e tal, em letras miúdas. Despedimos-nos amigavelmente. Ok, venci — já tinha o perfil e a entrevista. Podia ir embora. Fiquei.

Como fazer uma boa reportagem para revista sem foto, um bom perfil sem documentação fotográfica das etapas da vida do meu personagem? Só a filha mais velha do Vampiro, Rosana, podia me ajudar — eu soube pela confraria daltoniana na mesa noturna do hotel. Fiz o mais simples. Se era Rosana, liguei para Rosana. E Rosana veio na noite fria de Curitiba com uma blusa azul de lã ajustada nos seios redondos e jeans enfiados em pernas longas e fartas. Bela filha tinha o Vampiro. Foi num bar, algo assim, e foi amizade à primeira vista. Ela ligou cedo na manhã seguinte — o que sempre é bom sinal — e revelou os planos para me ajudar. Tornara-se minha cúmplice. Iria subtrair as últimas fotos do Vampiro quando criança e quando jovem escondidas na casa de uma tia. Dalton Jérson Trevisan, cidadão curitibano da safra de 1925, havia queimado e rasgado todos seus retratos do passado e a tia era a guardiã do pouco que havia restado.

Vi Rosana mais algumas vezes nos dias em que passei em Curitiba e ainda trouxe-me um conto manuscrito em caderno pautado, que ela havia escrito. Subi num avião da Vasp e, dias depois, recebi pelos Correios uma pasta de plástico marrom com as fotos do Vam­piro. Rosana cumpriu a palavra. Minha reportagem estava pronta. Guardei a pasta — acredite —, mas as fotos se perderam pelos arquivos da Status. Depois da publicação, o diretor da revista, Gilberto Mansur, viu-se na pior cena de Dante. Dalton disparou mísseis — na forma de bilhetinhos no estilo Jânio Quadros ou haicais — capazes de ferir de morte. Metódico, por meses, o Vampiro remeteu os bilhetes para três endereços: redação da revista, Livraria Cultura (na qual Gilberto era editor de livros) e sua própria casa. Queria a certeza de que, se houvesse extravio, em algum lugar chegaria a mensagem vingadora. De um deles, ainda me lembro: “Agora, estais feliz, Gilber­to, à sombra de uma figueira, com 30 dinheiros na mão, Dalton”.

Sem comentários. Seja o primeiro a comentar

Assinar feed dos Comentários

Deixe seu Comentário

Seu endereço de email não será publicado.
Campos com * são obrigatórios.

quatro + 2 =