A vida e as lutas de Nivaldo Queiroz, sindicalista exemplar

nivaldo queiroz, radialista e jornalista da UFMT

Meu caro amigo Nivaldo!
Por Keka Werneck

Muitos se lembram do jornalista Nivaldo Queiroz do tempo em que o Partido dos Trabalhadores (PT) era símbolo imaculado de honestidade e esperança política. Nessa época, para Nivaldo, como ele mesmo disse, qualquer toco de tronco de árvore era palanque para convencer o povo, no melhor estilo gramisciano, que o Brasil tinha jeito, que vinha aí uma turma revolucionária, que tudo ia dar certo, mas para isso era preciso não ter medo de ser feliz, tomar coragem, votar diferente.

Na década de 80, era esse o sinal dos tempos. Nivaldo acreditou nessa verdade política ao ponto disso se confundir com a vida pessoal e profissional dele e da vida virar quase que só militância, em um eterno dormir e acordar visceral de luta por um outro país. Não foi bem assim que tudo aconteceu e a história recente desmonta muito desse sonho acalentado por ele.

Nesse despertar de um sonho-pesadelo, Nivaldo adoeceu. Ficou triste, deprimido. Chorou, até mesmo sem chorar, que nem eram necessárias lágrimas. O certo mesmo era a dor funda da frustração. Isso até não importa mais. O PT encontrou o rumo possível. O rumo que quis. O câncer, porém, se alojou em um pulmão jamais visitado pelo tabaco, a não ser como boa parte de todo mundo, que fuma passivamente. Isso também não importa. Esse diagnóstico já não mais o assusta. Já se vão seis, sete anos. Agora o que importa é outra luta, a luta pela vida em si, pragmática, a vida hoje em sua plenitude, a chance de conviver com a neta por mais um tempo, de ver o filho pequeno virar moço, de comer uma comida gostosa, de continuar trabalhando no que aprendeu e ama fazer: o jornalismo.

Nivaldo não tem medo de morrer; só de viver a vida feito um bobo.

Pois não é que outro dia ele mudou de lado?! De entrevistador para entrevistado. Essa não é uma boa para jornalistas. Melhor mesmo era ficar assim, atrás da câmera, relatando o que acontece somente com os outros, porque a gente sempre acha que o mal está longe, que é coisa de ver na TV.

Não foi o câncer de pulmão que colocou Nivaldo na berlinda do noticiário. O câncer é como qualquer problema grave que acontece. Tem que encarar, tem que tratar, tem que tocar a rotina.

O que colocou Nivaldo na berlinda foi um Estado omisso e não só com ele. Nivaldo, aos 55 anos, virou notícia porque o Estado não garante a ele o medicamento Tarceva. Conforme os médicos, é só isso que prolongará a permanência dele entre nós.

Foi esse Estado omisso que fez esse meu amigo virar notícia toda hora, que nem um pedinte, atrás do Tarceva.

O tempo passa e todos nós temos prazo de vida. Um cidadão que se acha um ser qualquer e um cidadão que se acha autoridade. Somos uma coisa só, uma mão segurando um fio aceso, que pode se apagar a qualquer vento. Tive um bebê que viveu só seis meses de gestação. Tem gente que vai aos 104 anos, como o grande arquiteto Oscar Niemayer, outro incansável militante brasileiro.

O sonho político de Nivaldo não vingou. Na política ainda perseveram alguns vermes, que fazem da vida pública um poço obscuro.

Mas tem coisas que não esperam mais reflexão. Tem coisas que gritam já! Cadê o Tarceva do Nivaldo, Estado?

O moço vai ficar até quando dependendo de briga judicial para conseguir um medicamento, que falta também para outros na mesma condição de enfermidade dele. Então, não se trata de um pedido individual, mas sim um apelo coletivo.

Eu não quero ver meu amigo Nivaldo despedir-se dessa forma, apelando por um direito, que é seu, que é nosso, que já deveria estar garantido. Morrer porque não teve acesso a um medicamento?

Espero ver Nivaldo, ainda por muitos anos, como ele é em sua essência, acreditando que um mundo melhor é possível, grande amigo, grande pai, um jornalista que deixa o coração pulsar e há muito anos escolheu um lado, o lado dos bons.

Keka Werneck é jornalista em Cuiabá

6 Comentários

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  1. - IP 179.216.204.219 - Responder

    Conheci Nivaldo nas trincheiras da década de 80, e, ao lado dele e de outros grandes companheiros, fomos e somos cooperários da onírica construção de uma sociedade justa, fraterna e igualitária. Um companheiro “pau pra toda obra”, entusiasta, fervoroso, arrojado, apaixonado pelo socialismo.
    A paixão experimental tem nos ensinado muito, sobretudo a amarga lição de que a mudança de paradigma não ocorre na velocidade que ambicionam os nossos sonhos. Há períodos de intercadentes cevadura, onde os altos ideais trabalham entre renascimento e apatia, dias e noites, primaveras e outonos, vigílias e sonhos.
    Nesta linha de pensamento não há motivos, Keka Werneck, para desilusões. A luta continua e, hoje, o Nivaldo assimilou e ressignificou o seu estado de saúde para empunhar outras bandeiras, igualmente importantes para a coletividade.
    Obrigado, Nivaldo!

  2. - IP 201.15.105.146 - Responder

    Belas palavras querida keka! Temos que exigir nossos reais direitos, já que somos cumpridores do nosso dever! Pagamos elevados impostos e cadê o retorno caramba??? CHEGA!!! BASTA!!! Gritemos, esperneemos, soltemos a boca no trombone. Rufemos e bumbo pra fazer barulho PRA ACORDAR AS AUTORIDADES!!! Tem gente morrendo minha gente devido à omissão e insensibilidades do poder público!!!

  3. - IP 177.41.82.205 - Responder

    Coitado do Nivaldo, pois partiu sabendo que o partido que ele ajudou a criar se transformou em um antro de mensaleiros salfrários e apologistas de bandidos condenados como o Zé Dirceu, Zé Genoíno, João Paulo Cunha, enquanto o Lullão vai responder o inquérito policial em liberdade.

    • - IP 177.41.82.205 - Responder

      Só retificando: O Nivaldo está aí lutando pela vida, contra o câncer e um sistema falho de distribuição de medicamentos de uso contínuo e/ou de alto custo.

  4. - IP 177.41.93.191 - Responder

    Obrigada por divulgar o artigo, Enock. Um abraço.

  5. - IP 187.28.151.66 - Responder

    Na luta eu tive muitos professores. O Nivaldo foi um deles. Companheiro de luta, que nos meus anos de UFMT, como estudante (1990-1994), participamos ativamente da defesa de uma Universidade Pública e de Qualidade. Foram batalhas que saíram dos muros da UF, participando inclusive do “Fora Collor” juntos.

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