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GRANDE, COMO ELA É GRANDE: Impedida de cantar no Brasil durante a ditadura militar, Joan Baez, aos 73 anos, finalmente fez shows em diversas capitais brasileiras. Em São Paulo, levou ao palco Geraldo Vandré e Eduardo Suplicy. No Rio, cantou “Cálice”, com Milton Nascimento e Gilberto Gil

No palco, Joan Baez e Geraldo Vandré, dois mitos dos tempos em que as canções de protestos arrastavam multidões em todo o mundo

No palco, Joan Baez e Geraldo Vandré, dois mitos dos tempos em que as canções de protestos arrastavam multidões em todo o mundo

Joan Baez tira Geraldo Vandré da toca e reaviva canções de protesto

Primeira turnê da cantora no Brasil mostra uma intérprete no auge de seu domínio vocal

Jotabê Medeiros – O Estado de S. Paulo

 

Vandré e Baez se encontram em show, em São Paulo - Jotabê Medeiros/Estadão
Jotabê Medeiros/Estadão
Vandré e Baez se encontram em show, em São Paulo

Estão esgotados os ciclos dos governos militares na América Latina, mas domingo à noite, na Barra Funda, parecia que a canção de protesto era a música da moda. Entoados pela diva folk e ativista norte-americana Joan Baez, em show no Teatro Bradesco, canções como Gracias a La Vida (Violeta Parra),Cálice (Chico Buarque) e Deportees (Pete Seeger) deram o ar de sua graça, como se os anos de chumbo tivessem voltado – e orgulho da resistência também.

Mas o mais emocionante foi quando o hino maior dos opositores do regime militar, Para Não Dizer Que Não Falei de Flores (Geraldo Vandré) foi cantado em coro pela plateia. Detalhe: com a presença do próprio Vandré, de 78 anos, um notório misantropo, no palco. “Eu vou convidar para subir ao palco um mito. Ele não gosta disso, prefere ser somente um homem. Ele virá aqui, mas não vai cantar, vai ficar do meu lado”, disse Joan Baez.

Vandré entrou sob aplausos demorados, toda a plateia em pé. De temperamento arredio, quase invisível na cidade de São Paulo há quatro décadas, o cantor e compositor não grava um disco desde 1971. Foi Vandré quem tomou a iniciativa de procurar a cantora. Por intermédio de um amigo comum, ele contatou o repórter do Estado com um recado: queria encontrar-se com ela e lhe propor a gravação de um disco em espanhol. Foi feita a ponte com a produção, que agendou o encontro. Os dois se avistaram pela primeira vez domingo, às 14 h, e Joaz insistiu para que ele cantasse com ela, mas não teve jeito.

De preto, com uma echarpe vermelha, silhueta esguia, Joan Baez trouxe também o Verão do Amor de volta, cantando duas canções que interpretou em agosto de 1969: Swing Low, Sweet Chariot e Joe Hill. A primeira, ela disse, tornou-se uma canção que “cantamos quando marchamos, quando oramos, nas igreja, nas ruas”. E soltou sua voz de soprano pela arcada do teatro, um momento excepcional.

É o primeiro show da cantora no Brasil – ela foi proibida de se apresentar em 1981 pela ditadura. O espetáculo, mais do que tudo, mostrou uma intérprete de grande refinamento e no auge de sua potência vocal aos 73 anos. Em músicas como La Llorona e Diamonds and Rust (Joan Baez), alcança sofisticação interpretativa ímpar. Mesmo nos clichês, comoThe House of Rising Sun, o resultado é primoroso. Ao lado dela, o multi-instrumentista Dirk Powell (que toca acordeão, violino, banjo, violão baixo, piano) cria belas almofadas sonoras para o canto de suave dramaticidade de Joan espalhar-se pela plateia. Foi fantástico o número dos dois juntos no bluegrass Cornbread (que ela já interpretou também com Marcos Mumford, do grupo Mumford & Sons).

Joan Baez ainda fez a festa dos locais com canções tradicionais brasileiras, como o xaxadoMulé Rendera (Zé do Norte) e a marchinha Acorda Maria Bonita, sucessos eternos nas versões de Luiz Gonzaga. No limiar das linguagens, entre o folk e o forró, acabou inventando um ramo alternativo, o “folkrró”. Foi delicada ao convidar a assistente de palco, Grace, para cantar consigo. “Ela cuida dos meus violões, dos meus pijamas. E também canta”, disse.

Do ex-namorado, Bob Dylan, ela cantou Farewell Angelina e It’s All Over Now, Baby Blue. Ao convidar o senador Eduardo Suplicy ao palco, o resultado não foi tão unânime quanto a presença de Vandré. Ouviram-se uma ou duas vozes de protesto. “Suplicy, não!”, gritou o jornalista Sérgio Vaz, que estava na plateia.

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Geraldo Vandré reaparece e se recusa a cantar hino de resistência à Ditadura Militar

Cantor e compositor exilado ficou em silêncio ao lado de Joan Baez


FAMOSIDADES

Manuela Scarpa/Photo Rio News

FAMOSIDADES

Por FAMOSIDADES

SÃO PAULO – Depois de quatro décadas afastado da mídia, Geraldo Vandré – um dos ícones da resistência à Ditadura Militar (1964-1985) -, reapareceu ao lado da cantora americana Joan Baez, num teatro de São Paulo, no último domingo (23).

Discreto, o compositor se recusou a cantar a música “Pra não Dizer que Não Falei das Flores” – composta por ele durante o período militar – e ficou ao lado de Joan parado, em sinal de protesto.

“Eu vou convidar para subir ao palco um mito. Ele não gosta disso, prefere ser somente um homem. Ele virá aqui, mas não vai cantar, vai ficar do meu lado”, disse Baez, que também foi impedida de cantar pelo regime militar da época.

Para quem não sabe, em 1968, Geraldo Vandré foi obrigado a exilar-se após a implantação do Ato Institucional Número 5 (AI-5).

Ele passou dias escondido na fazenda de Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, viúva de Guimarães Rosa, depois seguiu para o Chile, Alemanha e França.

Vandré retornou ao País apenas em 1973, e atualmente vive em São Paulo. Em entrevista dada em 2003, o cantor explicou que não se apresenta mais, pois sua imagem de “Che Guevara [líder da Revolução Cubana] Cantor” abafa sua obra.

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Com Joan Baez, Eduardo Suplicy cantou a sua já conhecida versão de "Blowing in the Wind", de Bob Dylan

Com Joan Baez, Eduardo Suplicy cantou a sua já conhecida versão de “Blowing in the Wind”, de Bob Dylan

 

 

Crítica: Censurada pela ditadura, Joan Baez canta ‘Cálice’ com Gilberto Gil e Milton no Rio

  • Três décadas depois de sua primeira visita ao Brasil, na qual foi impedida de cantar pelo regime militar de exceção instaurado em 1964, musa da canção folk política presta contas com o passado

SILVIO ESSINGER, de O GLOBO

Joan Baez canta com Gilberto Gil e Milton Nascimento Foto: Divulgação
Joan Baez canta com Gilberto Gil e Milton Nascimento Divulgação

RIO – Teve a sua boa (e particularmente emocionante) dose de acerto de contas com o passado o show que a americana Joan Baez fez na noite de sexta-feira no Rio de Janeiro, no Teatro Bradesco. Três décadas depois de sua primeira visita ao Brasil, na qual foi impedida de cantar pelo regime militar de exceção instaurado em 1964, a musa da canção folk política se viu no palco, junto com Gilberto Gil (artista exilado pela ditadura) e Milton Nascimento entoando os duros versos, que ela leu num papel, de “Cálice”, canção de Gil e Chico Buarque que combatia e que foi combatida nos anos 1970 pelos detentores do poder. Saudada pelo artífice do Clube da Esquina como “uma deusa nossa”, Joan já tinha sinalizado suas intenções, antes do encontro, ao entoar “Pra não dizer que não falei das flores (caminhando)”, de Geraldo Vandré. E, no declarado propósito de não deixar a oportunidade passar em branco, ela seguiu com os dois na celebração de utopias de “Imagine”, de John Lennon. Momentos altos de um show que teve política, mas também muito boa música.

Aos 73 anos de idade e mais de 50 de carreira, Joan Baez não é só uma veterana do inconformismo. É a voz que – ainda incrivelmente cristalina e rica – ecoa nas de gerações e gerações de seguidoras, mesmo as muito jovens, da novíssima cena do folk. Pequena e esguia, apenas com os cabelos grisalhos a dar pista do seu setentismo, Joan adentrou o palco só com violão e abriu a noite com “God is God” (de Steve Earle), recorrendo à primeira de uma série de leituras de papéis com bem-humoradas sinopses em português das canções que interpretaria. O toque econômico e inconfundível nas cordas se manteve em “Farewell, Angelina”, a primeira das canções de ex-namorado Bob Dylan que ela mostraria na noite. No terceiro número, “Flora”, canção tradicional irlandesa, entraram em campo seus dois músicos: o multinstrumentista Dirk Powell (empunhando, nessa, um banjo) e o percussionista Gabriel Harris, filho da cantora.

Multicultural por toda a sua carreira, Joan apresentou no show muitas das canções em espanhol de seu repertório, como “La llorona”, “El preso número nueve” e, como não poderia deixar de ser, o seu grande sucesso “Gracias a la vida” (da chilena Violeta Parra). “Mulher rendeira” e “Acorda, Maria Bonita”, conhecidos temas compostos pelo cangaceiro Volta Sêca, do temido bando de Lampião, representaram o Brasil no apanhado do folk mundial que a cantora faz em seu show.

Teve ainda o momento para lembrar o festival de Woodstock e toda a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos (“Swing low, sweet charriot”), mais canção política (“The day after tomorrow”, “Deportees”), um outro Dylan (“It’s all over now, Baby Blue”) e algumas boas brincadeiras, como uma bluesy “House of the rising sun” e uma animada “Cornbread”, em que Joan dançou alegremente com Dirk Powell com o acompanhamento solitário da percussão. Outro momento de descontração foi o de “Stagger Lee”, com Dirk no piano boogie, e Gilberto Gil indo atrás, no violão e nas intervenções nas altas regiões da voz. Não demorou muito, e lá estava Milton fazendo seus vocalises e reforçando com Gil os coros de “top of the world!”. Uma jam inesperada e deliciosa.

Nesse embalo, o tempo voou, e quando o público (coalhado de cabecinhas brancas) se deu conta, estava na hora de ir embora. Foi aí que o comportamento até então pacato de um show civilizado de sexta-feira se transmutou num vigoroso coro pela volta de Joan Baez ao palco. E ela não fez doce, mandando um Dylan de responsa (“Blowin’ in the wind”). Diante da insaciabilidade da plateia, rolou ainda um segundo bis, com “The boxer” (Simon & Garfunkel) e um inevitável “Diamonds and rust”. Dava para acreditar que ali estavam, como disse Gil, um punhado de setentões meramente relembrando o seu tempo? Parafraseando outro setentão, Paulinho da Viola, o tempo de Joan Baez, de Gil, de Milton é hoje.

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ENTREVISTA ANTES DA CHEGADA AO BRASIL

 

Joan Baez fala da carreira e dos shows que fará no Brasil

Musa da canção de protesto nos anos 1960, artista quer encontrar o senador Suplicy

30 de janeiro de 2014 |
Jotabê Medeiros – O Estado de S. Paulo

Aos 73 anos, desembarca enfim no País para uma turnê regular uma das mais famosas vozes da música de protesto dos anos 1960 e 1970, a cantora norte-americana Joan Baez, responsável, entre outras coisas, por revelar em 1963 o cantor Bob Dylan. Ela cantou no primeiro Newport Festival e também foi uma das figuras-chave de Woodstock.

Veja também:
link Confira seleção de canções de Joan Baez

Joan Baez - Andrea Comas/Reuters
Andrea Comas/Reuters
Joan Baez

Nascida Joan Chandos Báez em Staten Island, Nova York, em 9 de janeiro de 1941, ela sofreu preconceito na infância por causa da pele mais escura, decorrência da sua herança mexicana. Por outro lado, a formação religiosa quaker da família a impulsionou a uma militância humanista radical.

Joan traz a turnê Gracias a La Vida a São Paulo no dia 23 de março, às 18 h, no Teatro Bradesco (ela toca também no dia 19 de março em Porto Alegre, no Auditório Araújo Vianna, às 21 h; e no Rio de Janeiro no dia 21, no Teatro Bradesco Rio, às 21 h). Antes, Joan Baez faz um retorno triunfal à América Latina que, no auge de suas ditaduras, a expulsou daqui: canta na Argentina, no Uruguai e no Chile.

A cantora falou ao Estado por telefone, no final da tarde de ontem. Está relançando o álbum Gracias a La Vida, no qual canta em espanhol e que gravou em 1974 em homenagem às vítimas da ditadura de Pinochet, no Chile, e em tributo a Violeta Parra. Bem-humorada e simpática, só demonstrou mesmo um certo desagrado quando foi questionada sobre a relação com Bob Dylan.

Há 33 anos, você deveria ter tocado em São Paulo, no Tuca. O que aconteceu?
Foi exatamente isso o que eu perguntei a todos os que foram na coletiva de imprensa que eu dei aí em São Paulo: o que aconteceu? Tudo o que eu queria era que me deixassem cantar, que me deixassem levar minha mensagem.

É verdade que três agentes da Polícia Federal foram até o seu hotel para ameaçá-la?
Sim. Eles me disseram que eu não poderia cantar e que, se insistisse, seria presa. Era algo que já tinha acontecido com outros músicos e não havia a quem recorrer. No final, o que nós fizemos foi legal. Alguém aí de São Paulo, me desculpe se não lembro o nome, inventou de fazer um ato no qual eu me misturava com a plateia. Acabei cantando duas canções no meio, estava sem o violão mas cantei assim mesmo.

É verdade que aqui você se tornou muito amiga de um militante brasileiro chamado Eduardo Suplicy?
Sim, é verdade. Ele está por aí? Como faço para conseguir o contato dele? Tem como você dizer para ele se colocar em contato com meus agentes quando eu estiver aí? Quero muito vê-lo.

Você teve também um confronto muito forte com a ditadura chilena naquela época, não?
Eu estava fazendo o que todos os americanos com consciência política estavam fazendo, me solidarizando com os povos sob ditaduras aqui, na Argentina, no Brasil e no Chile. Também fui proibida de atuar no Chile e fiz uma apresentação clandestina numa igreja (no município de Ñuñoa), acompanhada por outros músicos.

Li uma entrevista sua à imprensa chilena em que você diz que Obama deveria pedir desculpas pelo que os Estados Unidos fizeram na América Latina nos anos 1970, apoiando ditaduras e derrubando governos legítimos.
Não, eu não disse isso. Além do mais, ele não está envolvido com o que aconteceu naquela época. Eu acho que os que estiveram envolvidos deveriam pedir desculpas.

Mas você afirmou que o Prêmio Nobel para Obama foi ridículo, não afirmou?
Eu diria que foi usurpado. Obama mudou de fato o mundo inteiro, momentaneamente. Havia 40 anos que o povo americano lutava pela eleição de um homem negro, e ele representou isso. O que quer que tenha causado aquela mágica extraordinária não pode ter sido ruim. Ele nos conectou, foi importante sua eleição. E eu o apoiei, como apoiei o dr. Martin Luther King. Mas acho que ele deveria continuar fazendo mudanças, e ele estancou.

Há hoje uma discussão sobre a desaparição dos conceitos de esquerda e direita. Você se considera ainda uma esquerdista?
Eu nunca me defini assim. Sempre fui militante. Quando eu optei pelo caminho da não violência e da igualdade, muitas das causas nas quais eu me engajava eram identificadas com a esquerda. Quando você se põe contra o totalitarismo, pode ser rotulado. Eu apoiei Lech Walesa na Polônia, mas toda a minha militância tem a ver com a noção de igualdade.

Qual você acha que é o papel de Edward Snowden na política contemporânea?
Acho que ele proporcionou um dos momentos mais importantes da atual luta da humanidade por transparência, pela liberdade. Está em risco, mas acho que nunca nada aconteceu no mundo sem que alguém corresse um risco.

Um dos artistas que mais correram riscos na música americana foi Pete Seeger, que morreu esta semana. Em que medida ele foi influente para você?
Ele foi minha primeira e mais importante influência. Quando eu tinha 16 anos, uma tia minha me levou para assistir a um show dele, e aquilo mudou minha vida para sempre. Ele vivia a vida incondicionalmente. Era um grande poeta, e não distinguia sua vida e sua arte. Não é possível descrever todas as coisas que ele fez em prol de um mundo melhor. Quando ele surgiu, a música branca que se fazia então era tola e descartável.

Será possível que você cante aqui em São Paulo a canção Where Have All the Flowers Gone?, composição de Seeger que você costumava cantar?
Não sei. Você sabe se essa música é conhecida por aí? Pode ser que sim.

Seu disco mais recente, The Day After Tomorrow, é de 2008. Já tem seis anos. Está planejando gravar algo novo?
Estamos relançando um disco no qual eu canto em espanhol, e também queria cantar em português. Mas não quero condicionar uma turnê a uma gravação. Não funciona assim.

Você ainda mantém contato com Bob Dylan?
Não. Desculpe, tenho outras entrevistas para fazer, pode ser essa a sua última questão?

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Categorias:Beleza Pura

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