GRANDE, COMO ELE É GRANDE: ‘Gostaria de ter sido protagonista mais vezes’, diz Harry Dean Stantos, ator de ‘Paris, Texas’, um dos filmes mais cultuados de todos os tempos

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‘Gostaria de ter sido protagonista mais vezes’, diz ator de ‘Paris, Texas’

RAFAEL ANDERY
DE SÃO PAULO

É difícil arrancar algo mais do que monossílabos de Harry Dean Stanton. Aos 88 anos, com 60 de carreira em Hollywood, foi recentemente personagem principal de um documentário sobre sua vida, “Partly Fiction”. No filme, o ator basicamente canta, passeia por Los Angeles e deixa claro que está cansado de tudo.

Com quase 200 longas no currículo, foi dirigido por gente como Sam Peckinpah, Martin Scorsese, David Lynch e Alfred Hitchcock. E acha tudo muito normal. Inclusive as amizades com Jack Nicholson, Marlon Brando e Johnny Depp.

Harry Dean passou a vida praticamente anônimo, dando cara a personagens excêntricos, com poucas falas, mas presença marcante. Em Hollywood, é considerado o maior “character actor” vivo (aquele que, ainda que restrito a papéis secundários, é reconhecido de imediato). Mas não vê a menor graça nisso. “Odeio esse termo. É uma invenção americana para o cara que nunca pega o papel principal”, explica.

De fato, ele foi protagonista pouquíssimas vezes. A primeira delas ocorreu quando já se aproximava dos 60 anos, em 1984, quando o alemão Wim Wenders o escalou para viver o andarilho com amnésia Travis Henderson, no filme “Paris, Texas”, sobre um personagem excêntrico e com poucas falas, mas com muito tempo de tela.

O longa venceu a palma de ouro no Festival de Cannes daquele ano e virou um dos filmes mais cults da história. Era o favorito de Kurt Cobain e inspirou o U2 a fazer um de seus melhores discos, “Joshua Tree” (1987).

“Gostaria de ter atuado como protagonista mais vezes. Você faz mais dinheiro, fica mais famoso e tem a oportunidade de fazer muito sexo na frente das câmeras”, diz o ator, que chegou a recusar diversos filmes por não gostar de viajar de avião.

Poderia ter tentado conquistar o estrelato de outras maneiras. Como mostra “Partly Fiction”, não há nada que o ator goste mais de fazer do que cantar e tocar guitarra. No set de filmagem de “Pat Garrett & Billy The Kid” (1973), fez amizade com Bob Dylan, que também atuava no longa. Depois do trabalho, os dois faziam música. E Dylan gostava do que ouvia.

“Já recebi muitos convites para gravar discos”, conta. “Ry Cooder, Bob Dylan, Kris Kristofferson, Willie Nelson, esse tipo de gente. Mas nunca quis fazer nada. Não sei por quê. Acho que sou só um pouco preguiçoso”.

Mas não pense que ele é amargurado com os rumos da carreira. “Não me arrependo de nada, arrependimento não é uma atitude inteligente”, diz. “Tudo simplesmente acontece e ninguém tem controle sobre nada.”

Harry Dean vive uma rotina solitária em Los Angeles. Sem nunca ter sido casado e não fazendo a mínima questão de manter contato com os “dois ou três filhos” que diz ter por aí, costuma passar as horas de insônia dedilhando sua guitarra. “Você não dorme muito nessa idade”, diz. “Gosto de ficar sentado, sem fazer nada, por umas cinco ou seis horas por dia.” Excêntrico e de poucas falas, como seus personagens.

 

Hary Dean Stanton com Nastassja Kinski em cena do filme "Paris, Texas", do cineasta alemão Win Wenders

Hary Dean Stanton com Nastassja Kinski em cena do filme “Paris, Texas”, do cineasta alemão Wim Wenders

1 Comentário

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  1. - IP 179.217.105.193 - Responder

    Imaginei que ele já tivesse feito a passagem! Um dos grandes atores norte-americano, Hary Dean Stanton, me parece, pelo artigo aqui apresentado, que fez da ficção a sua realidade, ou será o contrário?! Simplesmente fantástico!

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