GILNEY VIANA: Transição Ecológica como eixo do Plano Lula de Governo é um avanço, embora suas metas sejam tímidas

Gilney Viana

 

Candidatura, coligação, plano de governo e Efeito Lula
Por Gilney Viana

A campanha eleitoral, em curso, é a tarefa principal  da militância petista neste período. Para sua participação consciente é importante saber dos pontos de partida estabelecidos pelo PT: a política de alianças baseada na coligação formal com o PC do B e o PROS e informalmente com o PSB; a definição da chapa Lula presidente/Fernando Haddad vice (e alternativamente, a chapa Fernando Haddad (PT)/Manuela Davila(PC do B) e o Plano Lula de Governo.
Para além dos acertos, como a manutenção e o registro da candidatura Lula e dos erros, como as restrições aceitas para a aliança informal com o PSB, chama a atenção o elevado grau de centralismo, nunca antes exercitado no PT, tanto no método como no mérito. No método porque não possibilitou a participação da militância e nem mesmo consultou as instâncias coletivas partidárias para construi-las, exceto para formaliza-las. E no mérito porque não considerou opiniões divergentes e opções diferentes.
A maior resistência aconteceu em relação à política de alianças no plano estadual, tendo a frente a maioria do PT de Pernambuco, que rejeitou a aliança como governador do PSB e aprovou a candidatura própria de Marilia Arraes. Resistências também ocorreram no Ceará diante da retirada da candidatura do senador petista José Pimentel em benefício da reeleição do senador Eunicio de Oliveira (MDB); em Mato Grosso, contra a coligação com o senador Wellington Fagundes (PR) e a favor de candidatura própria – em todos os casos, contra alianças com partidos e políticos que votaram a favor do impedimento da presidente Dilma.
Sustentavam os resistentes que o VI Congresso tinha definido a não coligação com partidos e ou lideranças que apoiaram o golpe de 2016; enquanto a direção estabeleceu o critério de apoio a Lula (“preferencialmente com PSB, PC do B e outros partidos que apoiem Lula”, nota da Executiva de 28.06.2018); que, por sua vez, não foi praticada nos Estados em que o PT lidera governos estaduais cujo critério foi o apoio ao candidato a governador do PT (AC, BA, PI, MG e CE), sob raros protestos. No mérito a maioria da direção lulista interpretou de forma não terminativa o acordo celebrado no VI Congresso. E no método, impôs processos restritivos à participação da militância e, em alguns casos, apelou para força burocrática quando lhe faltou força de convencimento, hegemonia.
Sobre a candidatura Lula à presidência havia unanimidade. O problema começa com sua prisão e as limitações decorrentes, a difícil atuação dos seus porta vozes, a aproximação dos limites dos prazos para o registro e a inevitabilidade da impugnação de sua candidatura. No limite a indicação de eventual substituto se tornou imperativo e esta operação se tornou bastante complicada.
O que se sabia nos corredores da sede do PT acabou na imprensa: Jacques Wagner, ex-governador da Bahia, o preferido por Lula como seu vice e eventual substituto como candidato a presidência da República, declinou da
Indicação. A partir de uma leitura particular da tese do PT de que a eleição sem Lula é fraude, defendeu a indicação de um petista como vice de candidato a presidência por um partido aliado. Isto animou alguns governadores do PT a defenderem a tese de apoio a uma chapa Ciro Gomes do PDT/vice do PT.
A confirmação da escolha de Fernando Haddad como vice e possível candidato a presidente passou de provável a necessária e urgente porque, além dos prazos legais, já se falava também no nome da presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann e, segundo, porque o PC do B e setores do PSB cobravam definições sobre a chapa e as alianças.
Mais uma vez, a direção teve que recorrer a Lula, preso em Curitiba, para desatar o nó. Com maestria conseguiu manter o registro da candidatura Lula presidente, obrigando a Justiça Eleitoral, a mídia golpista e os institutos de pesquisa a considera-lo candidato e assumirem o desgaste do seu impedimento; e ganhando tempo para operar a transição para o seu eventual substituto, Fernando Haddad. Ao mesmo tempo manteve a coligação com o PC do B incorporando Manuela Davila como vice (quando a mudança for imperativa) e a aliança com setores do PSB sem a ruptura do principal foco de resistência, o PT de Pernambuco.
O lulismo mostrou sua força: a candidatura Lula, mesmo estando preso, resiste com forte apoio popular, expresso na sua liderança nas pesquisas eleitorais. O lulismo sem luta presente, no plano interno ao PT, mostrou suas limitacoes ao nível dos seus diversos operadores.
O Plano Lula de Governo não foi objeto de elaboração e discussão em qualquer instância partidária. Foi apresentado ao Diretório Nacional e simplesmente aprovado. Quanto ao método não poderia ser mais centralizado. Delegou se a tarefa a alguns intelectuais orgânicos do lulismo, que se permitiram consultar algumas pessoas e representações sociais, sobre este ou aquele tema específico. No mérito é um programa de governo baseado na experiência dos governos Lula e Dilma que dialoga com a campanha Lula Livre/Lula Presidente e com o anseio popular pela revogação das políticas restritivas de direitos impostas pelo governo ilegítimo (novo regime fiscal, reformas trabalhista e do ensino médio, desmonte da Petrobrás, etc…).
Não faz auto crítica dos erros do lulismo enquanto governo, principalmente do baixo reconhecimento da autonomia das organizações populares; da crença na fidelidade dos partidos da classe dominante para sua sustentação política; nem dos erros do PT ao renunciar ao papel de agente educador, organizador e mobilizador popular – que tem a ver com a política de conciliação de classes. Não se aventura em avanços teóricos, como tentou no Programa Brasil que o Povo Quer, elaborado pela Fundacao Perseu Abramo a pedido da direção partidária, objeto de uma crítica deste militante (“Crítica ao BQPQ”), infelizmente não publicada pelo PT e nem pela Fundação.
Valorizo, no Plano Lula de Governo, a clareza do discurso e a reduzida dimensão que facilitam a leitura e o entendimento; e a superação de algumas insuficiências da Resolução Política do VI Congresso como, por exemplo, a incompreensão da sustentabilidade ambiental. Neste sentido, o tema da Transição Ecológica como um dos eixos centrais é um avanço, embora suas metas sejam tão tímidas quanto as assumidas pelo governo Dilma.
Contudo, é preciso reconhecer, as diferenças iniciais sobre eventual candidatura substituta, as divergências sobre alianças regionais e as limitações do plano de governo têm sido ignoradas ou atropeladas pelo Efeito Lula que trabalha com o mito da liderança capaz de negar o regime golpista e a esperança do povo voltar a ter emprego e melhoria de vida, especialmente da classe trabalhadora de menor renda. O resultado final só será conhecido após a apuração dos votos, mas os resultados parciais com a transformação de Lula em ícone da resistência ao golpe e a preocupação que isto tem causado aos candidatos golpistas e à classe dominante demonstra a força do lulismo enquanto fenômeno social e político de massa, que tende a se expressar eleitoralmente.
A afirmação do lulismo a meu ver não invalida as críticas, porque a militância petista que faz a campanha para eleger Lula ou Haddad, e os demais candidatos e candidatas do partido, também a fazem pela democracia interna ao PT onde a militância tenha voz e voto; pelo empoderamento da classe trabalhadora em suas lutas contra a exploração e dos segmentos da sociedade contra as variadas formas de opressão; no dia a dia e não apenas em campanhas eleitorais; e pela utopia de uma sociedade socialista, democrática e sustentável, para além de um governo democrático e popular

 

GILNEY VIANA, médico, é militante do PT. Foi deputado federal pelo PT

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1 Comentário

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  1. - IP 201.22.173.85 - Responder

    Achei o corte do cabelo do Gilney muito mauricinho.

    Acho que aburguesaram o ex-combatente contra a ditadura.

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