GILNEY VIANA: Mais do mesmo venceu as eleições internas do PT

Mais do mesmo venceu as eleições do PT
Por Gilney Viana

 

Mais do mesmo traduz bem os resultados das eleições internas para as novas direções do PT. A velha maioria ressurgiu mais forte na representação do partido e no domínio da máquina partidária e mais fraca em ideias, lideranças e métodos. O paradoxo está estabelecido: parte do partido não se transmuta para não mudar o partido que pretende mudar a sociedade, que está mudando, em sentido contrário ao desejado. A vitória do mais do mesmo pode ser lida também como um refúgio dos filiados a uma zona de segurança diante de tantos ataques e derrotas sofridas pelo partido enquanto espera algum milagre, como Lula ser solto, para unificar o partido, liderar a oposição e derrotar os golpistas nas próximas eleições. Ainda que isso aconteça, como disse o poeta, nada será como antes, o amanhã.
O conglomerado de forças, as lideranças aparentes e ocultas, os aparelhos burocráticos que formam a chapa vitoriosa, Lula Livre Para Mudar o Brasil, com Gleisi Hoffomann como candidata a presidente, apoiada pelo Lula, venceu. Esperava-se que fosse a mais votada, mas surpreendeu ao alcançar a maioria absoluta dos votos válidos (51,1%), configurando uma grave derrota às esquerdas do PT.
Fugirei da explicação simplista de que a maioria ganhou em função das fraudes. Existiram fraudes em 2019, como existiram em 2017. É algo escandaloso, que questiona o Processo Eleitoral Direto (PED) e, mais que isso, questiona o caráter socialista e democrático do PT. Avalio, contudo, que as regras de ocasião, como conceder direito de voto a recém filiados, impedir teses independentes e bloquear chapas minoritárias e não promover o debate interno, favoreceram a força majoritária, alvo principal das críticas. Nessas condições a disputa pelo voto individual do filiado é minimizada; o que importa e decide é disputar o apoio de grupos maiores e menores, mediados por quem os filiou, no caso de novos filiados, ou por estruturas de mandatos eletivos ou candidaturas e estruturas burocráticas de tendências que fazem a mediação do antigo filiado com o partido. O espaço de vivência e resolução de controvérsias se concentra nos mandatos e tendências em detrimento das estruturas partidárias. Baixa intensidade democrática que não favorece a construção de hegemonia.
Vejamos o caso da chapa vitoriosa “Lula Livre para Mudar o Brasil”, guarda chuva do conglomerado CNB. Largou em vantagem, por ser a mais votada no PED anterior (45%), ter a maioria dos mandatos eletivos, os principais quadros dirigentes e parte da burocracia partidária. Pesou a seu favor a indicação de Gleisi Hoffmann candidata a presidente, e principalmente o apoio do Lula. Contudo, dado o método eleitoral, não conseguiria tão bom resultado se não tivesse competentes operadores para este tipo de disputa. Em primeiro lugar a intervenção pesada de candidatos às eleições estaduais de 2022 e dos candidatos às eleições municipais de 2020; e em segundo lugar o trabalho eficiente de operadores de eleições internas, tendo à frente Gleide Andrade, Francisco Rocha e Mônica Valente, representantes formais da chapa.
O fenômeno de conglomerados em vez de tendências e do protagonismo de portadores de mandatos ou candidatos a cargos eletivos secundarizando os tradicionais coordenadores de tendências ocorreu nas principais chapas, inclusive nas chapas da oposição. Há exceções, em chapas menos votadas, mais homogêneas e sob controle de uma tendência.
Contudo, pesou mais no resultado, o fato de que as oposições internas não conseguiram apresentar uma alternativa clara para o enfrentamento da crise nacional e uma proposta confiável para superar a crise do partido. A tentativa frustrada de unificar as oposições através do “Forum Rumo ao VII Congresso” só produziu um manifesto e a promessa de unificação na fase congressual, insuficiente para a disputa de hegemonia e, como provaram os resultados eleitorais, para a formação de uma nova maioria. Enfim, prevaleceu o pragmatismo da luta por espaços na estrutura partidária.
Em verdade formou se uma maioria mais ampla que a CNB, centrista, imobilista, em duas questões fundamentais que dialogam entre sí: do projeto para a sociedade e do projeto de partido. O projeto de partido não vai além do processo de eleição direta, que transformou os filiados em eleitores; os militantes em cabos eleitorais; as direções em correias de transmissão dos mandatos eletivos, na contramão das demandas democratizantes da militância que foi às ruas contra o golpe e o governo de direita e insiste na campanha do Lula Livre. Para a sociedade reproduz a estratégia institucionalista e a proposta programática que teve sucesso com Lula e Dilma desconsiderando as novas condições produzidas pelas transformações do sistema capitalista, pela crise da sociedade brasileira e principalmente as mudanças impostas pela classe dominante, golpista, ultraneoliberal, integrada à nova onda direitista internacional.
Essas e outras contradições poderão ser enfrentadas e eventualmente resolvidas pelos delegados que se reunirão na plenária nacional do VI Congresso em novembro, ou serão confrontadas pela dura luta social e política. Será a última oportunidade dos críticos e opositores internos, como este articulista, de apresentar uma proposta de democratização radical do partido que volte a dar vez e voz à militância e adeque suas estruturas para as variadas formas de luta e não apenas para a luta eleitoral; uma nova estratégia que combine luta institucional e luta de massas; luta de classes com lutas segmentárias, ambiental e cultural; ação via Estado e ação via Sociedade; luta contra o governo neofascista e sua agenda ultraneoliberal sem perder a perspectiva socialista; e a afirmação de uma concepção de socialismo democrático, sustentável, feminista, afirmativo de direitos do LGBTI, e libertário. A ver
.
(Artigo enviado à Tribuna de Debates do VII Congresso, em 30/09/2019)

GILNEY VIANA, médico, é militante do PT em Brasília, Distrito Federal. Já foi deputado estadual e federal pelo PT em Mato Grosso

1 Comentário

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  1. - IP 200.129.246.130 - Responder

    Muito lúcida sua analise Gilney. O VI Congresso será decisivo para a esquerda neste partido. Parabéns.

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