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GILNEY VIANA: Conheci Lula na prisão. Eu, preso político, com mais de 9 anos de reclusão; Lula, perseguido político, cassado do Sindicato dos Metalúrgicos

 

Presos políticos do Presídio Político do Rio de Janeiro, em greve de fome, recebem visita de sindicalistas, da esquerda para direita, Heitor de Souza Santos (Presidente do Sindicado dos Trabalhadores Rurais de Rio Bonito), Dep. Edson Khair (MDB-RJ), Luiz Inácio Lula da Silva (Presidente do Sindicado dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo), Manoel Henrique Ferreira, Gilney Amorim Viana, Yara Pontes, Wagner Benevides (Presidente do Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais). Crédito: Paulo Jabur

Lula na prisão

POR GILNEY VIANA

Conheci Lula na prisão. No dia 05 de agosto de 1979, no presídio político do Rio de Janeiro, ala do Presídio Milton Dias Moreira. Eu, preso político, com mais de 9 anos ininterruptos de reclusão; Lula, perseguido político, cassado da Diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, SP. Eu e outros 13 presos políticos da Frei Caneca estávamos no 15º dia de greve de fome, a favor da Anistia Ampla Geral e Irrestrita e contra o projeto de lei da ditadura que nos excluía e anistiava os torturadores.  Lula e outros líderes sindicais que nos visitavam já tinham liderado grandes greves em 1978 e 1979 contra o arrocho salarial, a favor do direito de greve e contra a repressão. Eu e os demais presos políticos em greve no Rio de Janeiro, Pernambuco, e outros presídios, éramos, quase todos, testemunhas e sobreviventes da guerrilha armada que desgastou a ditadura. Lula e os novos sindicalistas eram protagonistas da resistência não armada à ditadura militar, liderando greves massivas da classe trabalhadora que colocou o regime em xeque.

Presos políticos do Presídio Político do Rio de Janeiro, em greve de fome, recebem visita de sindicalistas, da esquerda para direita, Heitor de Souza Santos (Presidente do Sindicado dos Trabalhadores Rurais de Rio Bonito), Dep. Edson Khair (MDB-RJ), Luiz Inácio Lula da Silva (Presidente do Sindicado dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo), Manoel Henrique Ferreira, Gilney Amorim Viana, Yara Pontes, Wagner Benevides (Presidente do Sindicato dos Petroleiros de Minas Gerais). Crédito: Paulo Jabur

Tínhamos muito o que conversar, mas o tempo era pouco.  O tempo de visita, que nesta época era ampliado e sem a inconveniente e ilegal escuta pelos guardas, era pequeno para tanto assunto, porque em verdade o tempo do prisioneiro passa lentamente enquanto o tempo do liberto passa rapidamente. E o tempo de visita, é o tempo de visitante.

Já tinha lido sobre a greve dos metalúrgicos de 1978, que, iniciada na Scania se alastrou por outras empresas do ABC e outros municípios de São Paulo; da greve dos metalúrgicos de 1979, quando a diretoria do sindicato de São Bernardo foi cassada pela ditadura militar e depois reintegrada pela força coletiva dos trabalhadores. E nos enchia os olhos aquelas imagens das grandes assembleias dos metalúrgicos no estádio da Vila Euclides. Também tínhamos ouvido de militantes de esquerda do ABC que nos visitaram anteriormente, relatos e opiniões e algumas críticas sobre Lula e as novas lideranças sindicais. Tínhamos uma curiosidade enorme de conhecê-los e ouvi-los.

Só para se ter uma ideia do nosso distanciamento, no tempo e na vivência: a última greve operária que eu acompanhei e apoiei de forma militante, tinha sido a greve dos metalúrgicos de Contagem em outubro de 1968 e a última greve que eu tinha participado foi a greve dos bancários de Belo Horizonte, minha categoria, em outubro  de 1968, brutalmente reprimidas pela polícia. Eu estava razoavelmente informado dos fatos, mas o longo período de prisão impedia uma visão do conjunto e menos ainda da profundidade do que estava acontecendo com a classe trabalhadora brasileira. Tentava compreender este novo despertar de consciência da classe trabalhadora pelo o que suas novas lideranças Lula, Olívio Dutra, Clóvis Ilgenfritz, Heitor de Souza Santos, Paula Abdah, Adão Eduardo Haggstan, Ronaldo Cabral, e Wagner Benevides, que nos visitavam na cadeia, podiam nos transmitir.

Além disto, tínhamos uma necessidade imensa de falar para Lula e os novos sindicalistas sobre a Anistia. E de ouvi-los sobre o tema. Não ouso dizer o que Lula e os demais sindicalistas pensavam sobre nós, mas aparentavam uma curiosidade sincera. Não pareciam intimidados com a versão oficial de que éramos terroristas. Fomos recebê-los no portão do pátio da prisão, que era o local de nosso banho de sol; e nos distribuímos em conversas de pequenos grupos, mostrando o presídio. Percorremos o corredor das celas que nesta época eram individuais, tendo ao fundo uma pirogravura de Ho Chi Min. Mostramos nossos trabalhos manuais; respondendo a perguntas e em alguns casos, travamos conversas paralelas de presos com sindicalistas de seus respectivos estados de origem. Até que adentramos a única sala que dispúnhamos (local de reunião, de trabalho, de refeições, de conversa com familiares, de televisão e cinema, conforme o horário) onde nos sentamos e conversamos.

Os sindicalistas ouviram nossas falas. Denunciamos o projeto de anistia parcial do ditador general João Figueiredo porque não anistiava todos os presos políticos e anistiava a todos os torturadores. E não anistiava os operários demitidos pela CLT nem os estudantes atingidos pelo decreto 477. Identificávamos o projeto como uma tentativa de perpetuação do regime.

Lula falou livremente. Eu ouvi, medindo suas palavras.  Falou da solidariedade que nos transmitia em nome do Encontro Nacional dos Sindicalistas que se realizava em Niterói, RJ; de que “não viemos fazer especulações em torno das atividades políticas de vocês, como “crime de sangue” e “terrorismo” – o que para nós era fundamental, naquele momento. E falou de um modo muito particular, muito classista, de como a Anistia Ampla Geral e Irrestrita interessava  os trabalhadores.

Olívio Dutra, presidente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, complementou: “Desde 1964, quando fomos esmagados, levamos essa bandeira. Hoje a Anistia, a CLT, a reformulação partidária, são questões que estão obrigatoriamente na pauta das discussões dos trabalhadores, exigindo a participação de todos”.

Concluída a pauta da Anistia, Wagner Benevides, Clóvis Ilgenfritz, Olivio Dutra, Lula e outros do movimento pró PT – por nós provocados, falaram sobre a formação do Partido dos Trabalhadores que interessava a todos, mais particularmente a Gilney Viana, Perly Cipriano, Nelson Rodrigues, Paulo Roberto Jabur que já discutiam o assunto.

Lula falou mais uma vez. Parece que percebeu a nossa aceitação de sua perspectiva de classe, mas também a nossa desconfiança de obreirismo e tratou de esclarecer: “Não concordo com aqueles que dizem que o PT será um partido exclusivamente dos operários. (…) Todos aqueles que comungam com a causa dos trabalhadores poderão participar. No PT só não haverá lugar para os patrões”.

Certos de que nossa greve de fome e as visitas de Lula, dos sindicalistas e de outras representações sociais tinham importância histórica, Paulo Roberto Jabur, preso político, fotógrafo, registrou em imagens e eu e Perly Cipriano em textos, que compõem o livro “Fome de Liberdade”.

Hoje, 07 de abril de 2018, quase 39 anos depois da primeira vez que ouvi Lula na cadeia, eu ouvi Lula falando para uma multidão que cercou o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, em defesa de sua integridade física e moral antes da sua prisão. Com o registro independente, promovido pela TVT, para não deixar prevalecer o discurso e as imagens produzidas pela repressão.

Enquanto ouvia, pensava. Não deve ser a última fala nem a última imagem do Lula. Quando a ditadura nos prendeu, torturou, e nos deixou sobreviver (enquanto outros e outras foram assassinados (as)) usou a Justiça Militar para nos impor pesadas e longas penas de prisão. A ditadura e as nossas penas venceram antes do prazo. Voltando ao presente, pensei na longa sentença imposta ao Lula (e de outras que se somarão) por uma justiça seletiva de um regime de livre interpretação jurídica, e recorro ao ensinamento da história, para imaginar que tanto a sentença quanto o regime de exceção que as impõe vencerão bem antes do que imaginam seus promotores.

Vendo e ouvindo o Lula discursar, repassei em minha mente sua trajetória de perseguido político durante a ditadura militar, a começar pela greve de fome que ele e outros líderes sindicais, presos no DOPS/SP, fizeram do dia 07 ao dia 11 de maio denunciando as arbitrariedades da ditadura militar diante da greve dos metalúrgicos de 1980 que lhe valeu, também, enquadramento na Lei de Segurança Nacional em processo na Justiça Militar por “incitação à desobediência coletiva das leis”. E não precisei me lembrar, porque ele sacou da memória e falou do processo perante a Justiça Militar que ele sofreu, pela solidariedade prestada aos seringueiros logo após o assassinato de Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia e organizador do PT no Acre, em 21 de julho de 1981. Uma semana depois, no dia 27 de julho de 1980, Lula, estava em cima do palanque em frente ao mesmo sindicato denunciando a morte de Wilson Pinheiro e conclamando os 4.000 seringueiros à resistência.

A ditadura militar instaurou um processo na Justiça Militar contra Lula, Jacó Bittar, Chico Mendes, José Francisco da Silva (presidente da CONTAG) e João Maia da Silva Filho (delegado da CONTAG no Acre) denunciando-os por “incitamento à luta armada”, associando, sem provas, a execução do capataz acusado de assassinar Wilson Pinheiro à fala do Lula, porque Lula, indignado diante da impunidade secular dos latifundiários que assassinavam ou mandavam assassinar líderes camponeses, declarou: “Está chegando a hora da onça beber água”.

Gilney Viana, médico é co-fundador do PT. Foi deputado federal pelo PT de Mato Grosso

 

 

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1 Comentário

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  1. - Responder

    Comunistas, queriam implantar aqui no Brasil o regime comunista soviético.Se conseguissem, iriam promover um expurgo monstruoso e um genocídio,nos mesmos moldes que o stalinismo fez na antiga URSS,foram cerca de 20 milhões de mortos pelo regime sanguinário desse genocida.Até hoje a Russia sente falta dessa população masculina dizimada ,ainda mais após a segunda guerra.Se posam de vítimas ,porém eram lobos em pele de cordeiro,tão maus quanto a extrema direita de Hitler e Mussolini.Agora trocaram a ideologia pelo conforto,vide Lula um homem que nunca trabalhou,não estudou,não é artista e teve 16 milhoes bloquados nas contas.E tem mais lá.fora os duplex de São Bernardo,que seria ampliado como apto do laranja do Glaucos Costa Marques,mais o sítio,mais as palestras fajutas que não tem nem no you tube,e a caixa declarada de 300 milhões confessada por Palocci e confimadas por Emilio Odebrecht,à disposicão do amigo,quando precisasse podia ir sacando.SÃO FATOS .E CONTRA FATOS NÃO ´HÁ ARGUMENTOS!

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