Gilmar Lisboa e a cara de Mato Grosso: de um lado, roças e fazendas expondo plantações e boiadas robustas e, de outro, um grande contingente de pessoas lançadas à margem da sociedade

Gilmar Lisboa, jornalista em Várzea Grande

As várias (e distorcidas) faces de Mato Grosso
por Gilmar Lisboa

Mato Grosso possui várias “caras”, o que significa dizer que vive realidades muito distintas e antagônicas nos dias atuais em se tratando do bem-estar da população, da produção agropecuária e industrial e da infraestrutura disponibilizada para o transporte dos produtos oriundos desses últimos setores elencados.

Entre os pontos positivos de MT está o fato de hoje o Estado ser o maior produtor de soja – só neste ano serão 21,4 milhões de toneladas -, algodão e girassol, e o segundo em arroz e milho do País. A pecuária mato-grossense também é a mais robusta do Brasil, situando-se na ponta da pirâmide em se tratando do número de rebanhos bovinos (hoje o Estado possui cerca de 30 milhões de cabeças).

MT também tem desfrutado de um PIB galopante nos últimos anos – cresceu 89% na primeira década de 2000, 2,5 vezes a mais do que a média do País.

Um dos exemplos do crescimento vertiginoso e espantoso de MT em setores estratégicos de sua economia é a cidade de Lucas do Rio Verde (de 50 mil habitantes), no Médio Norte do Estado, que em 2009 apareceu no oitavo lugar no ranking de municípios brasileiros com o melhor índice de desenvolvimento social e econômico, conforme levantamento da Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro), órgão que constantemente apura o tipo de índice no território nacional.

Matéria recente da Folha de S. Paulo apurou, por exemplo, que os doze postos de saúde e as dez escolas municipais de Lucas do Rio Verde – algumas até com piscina – apresentam-se em condições invejáveis. No mesmo levantamento, no entanto, o jornal paulista compilou dados que contrastam em muito com o que há de mais promissor naquela cidade.

No mesmo município, por exemplo, verifica-se um percentual de apenas 35% de saneamento básico. A grande concentração de terras – 3% dos proprietários detêm 61% da terra do Estado, de acordo com o IBGE – é outro ponto sensível, conforme o jornal.

Mas os pontos negativos presenciados pela Folha no Estado não se resumem às tristes realidades verificadas nos setores de saneamento e fundiário do município do Médio Norte de MT. O jornal apurou que, em termos de problemas de infraestrutura nada se compara à ausência de uma malha de transportes mais adequada para escoar o gigantesco fluxo de mercadorias produzidas no Estado. O trajeto terrestre de MT até o porto de Santos, de 2.012 km, por onde o Estado escoa 48% de suas exportações, por exemplo, custa mais que o dobro do que a travessia por mar até a China (20 mil km).

Esses últimos dados apurados pelo jornal paulista expõem uma realidade que remonta vários governos que administraram MT, sem que nenhum deles – incluído o atual mandatário, Silval Barbosa (PMDB) – tenha se dado conta de que não basta a economia mostrar seu lado promissor com campos e armazéns entupidos de soja, algodão, arroz, milho e girassol e fazendas abarrotadas de animais com farto pasto e ração.

É necessário que os gestores de plantão do Estado, e os que virão daqui para frente, se conscientizem da necessidade de se conciliar PIB alto e produção agropecuária em forte expansão, com rodovias trafegáveis e o mínimo de conforto e bem-estar disponibilizado às populações menos abastadas. Sem isso, MT continuará dividido em duas vertentes separadas por um imenso abismo: de um lado roças e fazendas expondo plantações e boiadas robustas, e de outro um grande contingente de pessoas lançadas à margem da sociedade e uma economia que cresce ameaçada e sendo refém de estradas que mais parecem queijos suíços.

Gilmar Lisboa é jornalista em Várzea Grande. No município mantém e edita o blog Política & Cia (www.politicaecia) e o jornal semanário Gazeta da Cidade.

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